Uma palavra que poderia resumir esse livro se ela não carregasse alguma solenidade, o que contraria o espiírito das páginas a seguir - é coragem. Não é fácil dizer certas coisas. Menos ainda, sustentá-las sem piscar o olho, abrindo mão da facilidade de incluir uma mancezinha, um "é bem verdade que", algum sinal óbvio para o "homem das exceções" sempre pronto para se chocar. Alexandre Soares Silca, claro, sabe disso. Uma autoironia discreta, que poucas vezes se anuncia como tal, indica que até ele deve achar absurdo alguns dos próprios juízos. Eu acho, em especial os ataques ao Bem e ao Belo e também aos meus amigos.
Alexandre Soares Silva nasceu em São Paulo em 1968. Publicou dois livros de aventuras para adolescentes (“Na Torre do Tombo” e “A Origem dos Irmãos Coyote”) e três romances para adultos (“A Alma da Festa”, “Morte e Vida Celestina”, e “A Coisa Não-Deus”). É talvez o responsável pela onda de conservadores anglófilos com pretensões a dândi na internet brasileira, embora não saiba dar sozinho um nó decente de gravata. Escreveu vários episódios da série de televisão “O Negócio” (HBO).
Todo o mundo que eu conheço e que conhece o autor estava ansioso por esse livro desde a primeira data dada para a publicação (setembro, acho). Saiu em novembro, e, oh, tudo bem esperar tanto, tudo bem mesmo. Esse livro é daqueles que a gente vai lendo no metrô e só não dá um tapão com as costas da mão em cada página berrando "Mas é isso mesmo! É isso mesmo!" por vergonha dos circunstantes (mas faz isso em casa, quando as mulheres vão ao mercado ou à cabeleireira). O autor nos explica, melhor do que somos capazes e em prosa muito mais bonita, tudo aquilo que pensamos (ou que deveríamos pensar) das pessoas à nossa volta, das besteiras do tempo e do que é e não é bonito em literatura e comportamento. E esse milagre é brasileiro, imaginem. É isso mesmo, é isso mesmo!, isso mesmo. Vão lá ler. Vão logo.
Passar a noite em um hotel em Mococa já é quase cômico, per se. Talvez por estarmos assim, já com vontade de rir todas vez que nos lembrávamos que estávamos em Mococa, minha filha e eu, enquanto minha mulher dormia o sono das mães justas que vão ver o filho numa competição, choramos e choramos e choramos lendo o Alexandre em voz alta antes de dormir, porque a TV não pegava mesmo. A uma da manhã eu já não conseguia nem mesmo enxergar as letras, tantas as lágrimas vertia imaginando a Cecília M à mesa; a gaveta de meias acertando o seu metatarso. Não é coisa que se faça, Alexandre. Mas de vingança, prometo: haverá uma legião de fãs adolescentes atrás da sua Gorda Humanidade.
(O livro, digo agora a sério, é muito melhor que o blog: você não fica ensaiando mentalmente um comentário witty e isso é um pouco libertador. Mas bênção mesmo é que no livro não vêm os comentários witty dos outros).
A história recente da internet nos lembra que a "tecnologia" não é neutra, também servindo a modas e interesses com mão esguia e meio arbitrária. Assim os blogs, se ainda recentemente pareciam atender necessidades naturais de tornar bons diários públicos, acabaram por hibernar (até quando?) sob formas de interação atuais mais dinâmicas e de fôlego mais curto. Este livro, antes de tudo, é uma montagem com o registro nostálgico daqueles tempos recentemente ultrapassados dos blogs, nos anos 2000 a 2010, quando o vento Éolo ainda confiava em Odisseu e seus homens. E a experiência é bem resgatada: dividida bem livremente nas partes "I. Minha opinião sobre vocês aí", "II. Suburbanadas", "III. Toda cultura brasileira é só isso", "IV. Redenção pelo esnobismo" e "V. A medonha seriedade", a sequência de posts mantém um pouco da errância toda-inspirada da nossa navegação pelo finado blog dos Wunderblogs.
E assim como em tom e experiência há essa nostalgia do que é recente mas já inimitável, o conteúdo traz o testemunho ainda palpável de uma era: a "segunda geração" de uma direita ideológica que não aguentava mais a esquerda a empunhar a "cueca do Caetano" e tateava, tantas vezes de modo inseguro, uma outra coisa qualquer. Para esse lado, Alexandre representa, em poucas palavras, aquilo que Michel Laub define na mosca na orelha do livro: a moral pela estética. Porque "jamais uma senhora flácida de Ottawa tirou seu vestido de bolinhas para pedir que os padres voltem a ficar de costas para o público durante a missa", então todas essas coisas sem manifestantes nus em praças públicas, como a missa tridentina, só podem estar certas.
Algumas ideias, claro, soam maravilhosamente datadas: o apoio belicista aos EUA (se bem que após o ataque às Torres Gêmeas), uma defesa difusa do capitalismo, uma antibrasilidade acomodada, uns acenos aqui e ali a certos "filistinismos". Mas mesmo essas ideias testemunham "a medonha seriedade" com que os quadrados das tribos ideológicas oscilam em menos de uma década.
No mais, Alexandre tem sempre algo engraçado a dizer sobre tudo, compartilha alguns insights realmente pujantes sobre literatura e, no fim, mostra um caminho muito promissor para uma escrita criativa que, ironicamente, combina bem com o Brasil: a do crítico inimigo de todos (até dos pombos, se deixarem) mas amigo do leitor. Isto parece estar sendo resgatado recentemente, depois de tanto tempo, com a dedicação do autor a uma newsletter com o mesmo "elã".
Para registro, a orelha de Michel Laub é curtinha mas realmente muito boa, mas o livro deu de ser prefaciado por Danilo Gentili, que, em escrita suspeitamente competente, leva tudo para a linha do "politicamente incorreto", o que não poderia ser mais besta.