Um livro que consegue estabelecer um equilíbrio entre experimentação e tradição na banda desenhada estabelecendo um paradoxo entre a sua energia criativa com o ambiente mórbido da narrativa. Especulamos que a personagem do livro seja um alter-ego do autor e que alguns episódios sejam autobiográficos mas na essência estamos no domínio da ficção - ou da auto-ficção?
Um homem, Daniel, sofre de distorções na sua percepção visual devido a um corpo estranho alojado algures na cavidade ocular. Apesar da insistência das notificações hospitalares para dar início aos seus tratamentos, ele vê-se confrontado com a hipótese das suas alucinações estarem a proporcionar-lhe uma fuga para uma nova percepção da realidade. Daniel terá que optar entre encarar a sua doença como um sinal evidente da sua mortalidade ou como uma intensificação da vida.
André Coelho is a Porto – Portugal based illustrator that usually works for the experimental / metal / punk underground and takes a few dives into the world of comics and printed fanzines. Proud member of the metal-bashing industrialists Sektor 304 and the doom behemoths Profan.
I was intrigued by this book as soon as I picked it up. However, after reading it, I have to say it’s a bit too strange—even for my taste. The story is much like what’s outlined in the synopsis.
The highlight of the book is definitely the artwork. André's illustrations are impressive and add a unique touch to the experience.
Nos anos 90, David Lynch realizou uma sitcom. Leram bem. Pegou nas tropes nostálgicas do género e remisturou-as com o seu surrealismo bizarro, em seis brilhantes episódios que contaram as aventuras de um programa de entretenimento televisivo nos anos 50. Googlem a série, hilariante, subversiva e surreal. Recordo-a porque uma das suas personagens, um operador de efeitos especiais que sofre de um síndrome que o faz ver 25.5% mais do que a visão normal, está construída a partir de uma premissa similar ao deste livro de André Coelho.
Acedia, o torpor da angústia depressiva, do perder empatia e preocupações com o outro, é aqui despertada por um corpo estranho alojado na cavidade ocular de Daniel, o personagem deste livro perturbante. A pressão sobre o olho provoca alterações na visão e percepção, e resta ao personagem escolher o caminho da intervenção médica ou o deixar-se levar numa nova forma de viver, talvez mais libertadora e de assumida anormalidade.
Os livros de André Coelho lêem-se como murros no estômago, e este não é excepção. Obra a solo, o poder narrativo de Coelho não é diluído pelos argumentos de outros autores. O murro é mais forte. O carácter duro do grafismo, entre o experimental e o clássico, com um traço ao mesmo tempo rude e elegante, misturando estéticas, recorrendo à mistura de iconografias entre imagética técnica e desenho, sempre num registo sem compromissos de forte contraste em preto e branco, é o que mais se destaca quer neste livro quer na obra deste autor. A linha narrativa não é muito clara, e suspeito que não o pretende ser. A justaposição violenta de imagens perturbadoras leva o leitor a mergulhar na psique em mutação de um homem que deixou de ver o mundo da mesma forma que os outros, compreendendo a sua confusão, ansiedade e caminho de evolução.
Acedia é profundamente ballardiano nalguns aspectos, como na justaposição entre imagiologia médica e desenho, ou a alteração de carácter induzida por factores externos. O que me recorda. Há uns anos atrás, André Coelho mostrou no Fórum Fantástico pranchas de uma adaptação sua de histórias de J. G. Ballard que, ao meu olhar de fã incondicional deste escritor inglês, me pareceram a transposição para BD das imagens mentais que formei quanto li pela primeira vez os contos em adaptação. Um livro que nunca mais vê a luz do dia, e que aguardo ansiosamente.
Also did a video review: https://youtu.be/LoIZ9FuJaZ4 Excellent showcase of the untapped talent of Portuguese illustrators. Story has the required depth to not only present a hard story but make you reflect on your own reality. The drawings are visceral, dark and full of contemplating dread. Terrific stuff! Ridiculous how this is limited to a single edition of 500 copies.
Na verdade li a novela gráfica Babelikon, de 2023, edições Vestigio, mas não encontrando aqui para escrever, aproveito este. Babelikon é a preto e branco, alguns capítulos com pequenas palavras e outros sem palavras. Algo sugestivo de terror sem o haver, mas admito que não percebi e não me trouxe sentimentos bons.