Por conta da minha paixão por São Paulo, mais o fato da terra da garoa ser o cenário do meu embrionário romance de fantasia urbana, coloquei São Paulo Noir na frente da minha lista de leituras assim que descobri que ele existia. Quando vi o nome dos autores, minha expectativa ainda aumentou. Então confesso que comecei a ler com um certo medinho de me decepcionar. Mas, felizmente, não só não me decepcionei como me surpreendi com a solidez e a variedade da coletânea, que tem contos incríveis do começo ao fim, dos mais diversos gêneros e tons.
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“Mancha de café”, de Olivia Maia
O livro já começa com um tapa na cara, um dos contos mais intensos da coletânea. Junto com o último conto, do Drauzio, é o texto em que a cidade de São Paulo menos aparece como personagem, mas sim como cenário mesmo, um ambiente que molda a personagem. É um dos contos mais líricos também, o que nem por isso tornou a leitura menos fluida.
“Qualquer semelhança não é mera coincidência”, de Marcelino Freira
Não dá pra falar muito desse conto além de: "plot twist". É um conto curtíssimo, o que torna ainda mais impressionante como a história dá uma reviravolta de 360º!
“Panamericana”, de Beatriz Bracher e Maria S. Carvalhosa
Esse é uma conto que, mesmo dentro desse tema noir, inesperadamente flerta com o realismo mágico. Quase caí pra trás quando descobri que uma das autoras, Maria, ainda nem terminou o ensino fundamental (sim). O conto alterna parágrafos no ponto de vista da tia com parágrafos no ponto de vista da sobrinha. Não sei se foi assim que o conto foi escrito - com Beatriz escrevendo um POV e Maria o outro - mas achei demais. Adorei a atmosfera desse conto.
“Atendimento 24 horas”, de Fernando Bonassi
Engraçado e trágico ao mesmo tempo. Apesar de não saber nem o nome do protagonista, e apesar dele não estar fazendo as coisas mais morais do mundo, foi fácil se afeiçoar a ele. Achei que ia ser o conto mais engraçado de todos, mas ainda não tinha chegado o do Jô Soares.
“Baixo Augusta”, de Marcelo Rubens Paiva
Esse é o conto que mais fala sobre a cidade de São Paulo. Sem parecer chato ou infodump, esse conto traz várias coisas interessantes sobre a história de SP, em especial da Augusta. A história é bem legal, dá pra imaginar certinho na cabeça os acontecimentos.
"Como se o mundo fosse um bom lugar", de Marçal Aquino
Esse é o conto mais "aberto" - mas na realidade ele não é exatamente um conto, e sim um trecho de um romance. Os personagens são bem interessantes, então mesmo sem um fechamento mais concreto, dá pra curtir bastante.
"Meu nome é Nicky Nicola", de Jô Soares
Cara, tinha lido o começo de o Xangô de Baker Street há muitos anos, quando ainda era bem novinha. Acho que era muito complexo pra mim e acabei largando, sem guardar memórias da escrita do Jô, então foi uma surpresa incrível pra mim quando comecei a ler o conto e RIR ALTO das piadas... Foi uma das coisas mais divertidas que li nos últimos tempos, apesar de ser um plot simples, com um fim meio zoeira. Demais.
"Teresão", de Mário Prata
O momento humor continua no conto do Mário Prata, como já seria de se esperar. Muito louco o conto, com um toque de "é non sense mas não é" que me deixou bem pensativa até. Uma história super ágil, ótimos personagens.
“Contaminação cruzada”, de Vanessa Barbara
Mano, esse conto me deixou meio com medinho de dormir em quarto de hotéis. Só digo isso. Tensão muito bem construída, um plot twist bem massa também.
“Diário inútil”, de Tony Bellotto
Nunca tinha lido nenhuma obra do Tony, então não conhecia ainda o Remo Bellini. Curti demais o investigador, achei o plot interessante também. Curti a alternância de pedaços da investigação com reflexões sobre o assassinato de Lennon.
"Fluxo", de Ferréz
Depois do primeiro conto, esse é o texto mais lírico da coletânea. Cru, um tapão na cara, muito legal mesmo. Muito bom ver a periferia representada nesse conto, e muito bem representada.
"Boniclaide e ela", de Ilana Casoy
Um ótimo conto com uma ótima crítica social, a imagem de alguns outros contos. Curti a originalidade também, e o uso de alguns personagens com perfis surpreendentes. Muito bom, apesar do fim melancólico.
"Margot", de Drauzio Varella
Um maravilhoso conto a la Drauzio Varella. Conta, sem muitos preâmbulos, a história de como uma menina pobre do Norte se tornou prostituta em São Paulo, depois de tomar muita porrada da vida. Gostei da agilidade do conto, acompanhando um longo tempo da vida da protagonista. O fim, que pode ou não pode ser um plot twits (fiquei em dúvida) é amargo e forte, mas curti muito, muito mesmo.
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O livro é leitura RECOMENDADÍSSIMA. Me surpreendi positivamente, e até vou passar o Rio Noir na frente da minha lista de leitura pra ver se segue o mesmo padrão!