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Wenceslau de Moraes nasceu em Lisboa a 30 de maio de 1854 e faleceu a 1 de Julho de 1929, em Tokushima.
Enquanto oficial da Marinha, exerceu funções inerentes ao seu posto em Macau, Moçambique e Timor. Chegou a Macau em 1888, aí permanecendo até 1898.
Da sua relação com Mo Wong Shi Moraes, também conhecida como Wong Ioc Chan e Atchan, nasceram dois filhos, José (n. 1893) e João Moraes (n. 1894). Estes acompanharam a mãe para Hong Kong quando Atchan decidiu abandonar Wenceslau.
Já no Japão, Wenceslau de Moraes assumiu em 1899 o posto de cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka. Logo depois foi nomeado para exercer essas funções em Kobe e Osaka. A seu pedido, foi exonerado deste posto e da Marinha em 1913.
Neste pequeno volume encontramos contos tradicionais, lendas e impressões do autor sobre a China e o Japão. Alguns dos contos são histórias de encantar, cheias dos encantos de animais que falam, dragões, sereias e princesas. Outros textos são impressões sobre acontecimentos ou aspectos da alma e do viver daqueles povos. A escrita de Wenceslau de Moraes denuncia a sua época (finais de séc. XIX, início do séc. XX), sendo fácil encontrar vocábulos que há muito caíram em desuso. Além disso, os preconceitos de um homem do seu tempo são muito visíveis, quer quanto às mulheres, quer quanto à dicotomia entre Ocidente e Oriente. Ainda assim, vale a pena ler, nem que seja pelas "histórias de encantar" que, se lidas com o tom correcto, são perfeitas para adormecer crianças.
Este livro, como o título sugere, consiste num conjunto de textos, sob a forma de crónicas, cartas ou simples desabafos do autor acerca do oriente, com um enfoque especial em Macau e na cidade japonesa de Kobe onde o autor viveu. Não deixa de fazer lembrar os escritos de Lafcadio Hearn, outro europeu perdido no oriente longínquo de finais do século XIX, ao ponto de se poder dizer que o papel desse, enquanto divulgador da história, cultura e pensamento orientais no mundo anglo-saxónico, foi representado na esfera portuguesa por Wenceslau de Moraes.
Uma grande diferença, contudo, está no tom dos escritos em si, que no português são mais pessoais, encharcados das suas ideias, comentários e preconceitos, toldados por uma relação conflituosa com o oriente que tão depressa critica de forma demolidora e logo a seguir enaltece como um paraíso perdido nos confins do mundo.
Longe de ser um fator negativo, para mim isto eleva a obra a outro patamar, já que não só serve de janela por onde espreitamos uma China e um Japão há muito passados (mas, em alguns aspetos, ainda iguais a si mesmos), como vemos também o pensamento ocidental da época e as suas reflexões sobre si mesmo e o outro, ao ser confrontado com culturas tão alienígenas. É por isso uma obra multifacetada, onde nada deve ser tomado pelo seu valor aparente já que a visão do autor é constantemente distorcida pela sua raiz cultural. Isto não significa que não haja valor histórico, longe disso, uma vez que o olhar atento do Wenceslau recai muitas vezes em situações quotidianas que dificilmente entrariam em livros de caráter mais histórico e factual, perdidas entre a secura de datas, nomes e eventos importantes. As relações familiares e sociais dos chineses e japoneses, os seus gestos, as suas interações, as suas crenças, são repetidamente analisados pelo português, particularmente em contraste com os modos ocidentais, transformando os seus escritos numa fonte valiosíssima de informação sobre o dia a dia destes povos.
Se esta crítica soa demasiado hiperbólica é porque este livro é, de facto, uma pérola deste tipo de literatura, tanto mais interessante por se relacionar diretamente com a nossa história, e que devia constar das leituras obrigatórias de qualquer apaixonado pelas culturas orientais deste período.
A cereja no topo do bolo é o facto de estar disponível gratuitamente numa excelente edição do Projeto Adamastor, com uma belíssima capa e acompanhado de um grande número de fotografias da época que, ainda que nem sempre correspondam ao que é dito nos textos, servem perfeitamente para ilustrar o tema e complementar as palavras de Wenceslau de Moraes.
くらげのおつかい (Kurage no otsukai) é um conto de fadas, ou lenda japonesa que explica porque a água-viva (kurage) não tem ossos. Já conhecia a história de uma coletânea moderna (As Histórias Preferidas das Crianças Japonesas), relida na versão vitoriana da Madame Osaki (Japanese Fairy Tales) intitulada "The jellyfish and the monkey" e, surpresa, encontrei pela terceira vez aqui - surpresa porque não imaginava que tipo de história seguiria um título como “O Alforreca”. Até então, eu não conhecia essa palavra que agrupa todos os animais marítimos desossados, como a água-viva e a medusa. Obviamente, três encontros com a mesma história, escrita por diferentes mãos, não é o mesmo que reler o mesmo conto. As variações dizem sobre cada tempo, lugar, idioma e autor. Por exemplo, o curioso método de cura da enfermidade da rainha ou princesa (varia por história, mas sempre uma mulher da realeza) tem diferentes circunstâncias. Tanto hoje quanto em outros tempos a ideia de comer um fígado de macaco cru para se recuperar de uma doença parece absurda, e nenhum dos contos o disfarça com o manto de fantasias que separam os contos de fadas da realidade. No conto japonês, o polvo, odioso da água-viva, inventa que é preciso o fígado de um macaco a fim de incumbir a água-viva da missão impossível. Já o autor português torna a doença da rainha em “capricho” e a necessidade de um fígado de macaco apenas uma birra da rainha, uma invenção até ("por demais conhecia ele [o rei] os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os complacentemente, por systema"). Na versão da inglesa, o “fish doctor” admite que é preciso um fígado de macaco depois que o rei o culpa por não curar a princesa ("The doctor was alarmed at Rin Jin's evident displeasure, and excused his want of skill by saying that although he knew the right kind of medicine to give the invalid, it was impossible to find it in the sea.") Não chega a ser claro, mas quem sabe o doutor-peixe não tenha dado uma solução impossível para disfarçar que ele próprio tenha falhado? Madame Ozaki não chega a contar o destino da princesa doente, mas a versão japonesa diz que a dama só teve uma dor de barriga e já estava bem, no que o rei percebeu que o polvo tinha mentido para prejudicar a água-viva e o puniu então, bem na tradição de contos de fadas para crianças em que o mal nunca compensa. Já o nosso português do sexo "forte" descredita a doença: “Com respeito à soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores”. Em todas as histórias, a água-viva é severamente espancada por ter falhado em trazer o fígado de macaco, e assim se explica porque, diferentemente dos outros peixes, não possui ossos.
Não é só esse o conto de fadas compartilhado por "Paisagens da China e do Japão" e "Japanese Fairy tales". Ambas as coletâneas (publicadas na mesma década por dois estrangeiros deslumbrados com o Japão) também trazem "O pescador Urashima/The story of Urashima Taro, the fisher lad", "O espelho de Matsuyama/ The mirror of Matsuyama"e "Os diabos e os velhos/ How an old man lost his wen". Se torna um delicioso exercício de literatura comparada ler um livros após o outro, como acabei fazendo por acaso.