"Os sonetos completos de Anthero de Quental" de Antero de Quental. Publicado pela Editora Good Press. A Editora Good Press publica um grande número de títulos que engloba todos os gêneros. Desde clássicos bem conhecidos e ficção literária — até não-ficção e pérolas esquecidas da literatura nos publicamos os livros que precisam serem lidos. Cada edição da Good Press é meticulosamente editada e formatada para aumentar a legibilidade em todos os leitores e dispositivos eletrónicos. O nosso objetivo é produzir livros eletrónicos que sejam de fácil utilização e acessíveis a todos, num formato digital de alta qualidade.
Antero Tarquínio de Quental or do Quental, old spelling Anthero, Portuguese poet, was born in Ponta Delgada on São Miguel Island, in the Azores, into one of the oldest families of the provincial captaincies on the island, his parents being Ana Guilhermina da Maia Quental, a devout Roman Catholic and Fernando de Quental, a veteran from Portuguese Liberal Wars (himself a son of a veteran from Napoleonic Wars and also a liberal enthusiast that befriended and found himself locked up with the great poet Manuel Maria Barbosa de Bocage for his political pursuits). He was also a descendant of Frei Bartolomeu de Quental, founder of the Congregation of the Oratory in Portugal. His mother raised him in such fashion that his upbringing would have an enduring impact in all his mystical reflections, even when they drifted apart from an assumed religious perspective. He soon started taking French lessons under António Feliciano de Castilho, a leading figure of Portuguese romantic poetry who at the time resided in Ponta Delgada and by the time he was 7 he was enrolled in Liceu Açoriano, a private school, and taking English lessons. In August 1852, he moved with his mother to the Portuguese Capital Lisbon, where he studied at Colégio do Pórtico, whose headmaster was his already known tutor Castilho. The institution soon closed doors, and Antero returns to Ponta Delgada in 1853. By 1855 he is again in Lisbon, and the next couple of years find him already in Coimbra where he graduates from high school at Colégio de S. Bento in 1857. In September of the next year he enrolls in the University of Coimbra and soon distinguished himself by unusual talent, as well as turbulence and eccentricity. He began to write poetry at an early age, chiefly, though not entirely, devoting himself to the sonnet. After the publication of one volume of verse, he entered with great warmth into the revolt of the young men which dethroned António Feliciano de Castilho, the chief living poet of the elder generation, from his place as dictator over modern Portuguese literature. He then travelled, engaged on his return in political and socialistic agitations, and found his way through a series of disappointments to the mild pessimism, a kind of Western Buddhism, which animates his latest poetical productions. His melancholy was increased by a spinal disease, which after several years of retirement from the world, eventually drove him to suicide in his native island.
Antero stands at the head of modern Portuguese poetry after João de Deus. His principal defect is monotony: his own self is his solitary theme, and he seldom attempts any other form of composition than the sonnet. On the other hand, few poets who have chiefly devoted themselves to this form have produced so large a proportion of really exquisite work. The comparatively few pieces in which be either forgets his doubts and inward conflicts, or succeeds in giving them an objective form, are among the most beautiful in any literature. The purely introspective sonnets are less attractive, but equally finely wrought, interesting as psychological studies, and impressive from their sincerity. A healthy participation in public affairs might have saved him, but he seemed incapable of entering upon any course that did not lead to delusion and disappointment. As a prose writer Quental displayed high talents, though he wrote little. His most important prose work is the Considerações sobre a philosophia da historia literaria Portugueza, but he earned fame by his pamphlets on the Coimbra question, Bom senso e bom gosto, a letter to Castilho, and A dignidade das lettras e litteraturas officiaes. His friend Oliveira Martins edited the Sonnets (Oporto, 1886), supplying an introductory essay; and an interesting collection of studies on the poet by the leading Portuguese writers appeared in a volume entitled Anthero de Quental. In Memoriam (Oporto, 1896). The sonnets have been turned into most European languages
Permitindo a poesia lírica uma multiplicidade de expressões variáveis, ao sabor dos sentimentos, pensamentos e influências exteriores, aconselho os leitores a seguir o mestre Camões e a lerem a obra para as descobrir porque “melhor é experimentá-lo do que julgá-lo” (Os Lusíadas, canto IX). Limitar-me-ei, assim, a fazer o enquadramento da obra e a apontar as principais tendências da expressividade poética de Quental.
A classificação formal da poesia remonta a Aristóteles, que a dividiu, na Poética, em três categorias: épica, dramática e lírica. A épica consiste num texto narrativo em verso, cujas origens remontam ao Épico de Gilgameš bem como à Ilíada e Odisseia. O género dramático está ligado ao teatro em verso, utilizado nas tragédias gregas como a Oresteia ou Rei Édipo bem como na maior parte das peças de Shakespeare. A lírica prende-se com a expressão dos sentimentos e emoções pessoais. Neste sentido, o soneto é uma das fórmulas dessa expressão em verso, com origem na Itália medieval, sendo Petrarca, embora não o criador, o responsável pelo refinamento da sua estrutura num conjunto de duas quadras seguidas de dois tercetos. Sá de Miranda introduziu o soneto no panorama lírico português, e Camões aprimorou-o. É este o contexto formal onde se inserem os Sonetos Completos, assumindo o próprio Antero de Quental a “influência dos nossos poetas do século XVI [...] especialmente os [poemas] de Camões, tornaram-se para mim como um Evangelho do sentimento” (carta a Carolina Michaëlis de 7/8/1885).
[Imagem] Antero de Quental (1842-1891)
Os Sonetos Completos foram publicados em 1886 reunindo as poesias de Antero dispersas por dois livros, Odes Modernas e Primaveras Românticas, vários jornais e outra tanta correspondência privada. A abrir a obra, um prefácio de Oliveira Martins, amigo íntimo do autor, que nos traça uma genealogia do pensamento anteriano, fundamentando o rigor de reflexão e as suas preocupações sociais com as influências de Michelet, o grande historiador francês cuja visão suplantava precocemente o positivismo, Lamartine, o instrutor da Segunda República Francesa, e Proudhon, o filósofo anarquista preocupado com as questões sociais. Oliveira Martins conceptualiza ainda Antero como um idealista cuja visão acutilante lhe permitia estar mais atento ao sofrimento e à desgraça humanas, refutando o rótulo de um poeta do lúgubre e do desânimo, que vinha sendo aplicado ao amigo. Seguem-se cinco poemas, que Eduardo Lourenço classifica como “os grandes poemas agónicos” (A Noite Intacta, p.78), produzidos em momentos de desespero interior, incluídos por Martins após o prefácio dado possuir as únicas cópias dos originais, destruídos por Quental.
[Imagem] Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894)
A obra contém cento e nove sonetos divididos cronologicamente, segundo indicação do autor, em seis períodos: 1860-62, 1862-66, 1864-74, 1874-80, 1880-84. Com esta divisão, Antero pretendia que o livro funcionasse como uma autobiografia, indicativa da sua evolução, não só sentimental, sobretudo intelectual e espiritual. Deste modo, partimos de inspirações do movimento romântico para uma posterior ruptura e adesão definitiva ao realismo, indo beber a Baudelaire e, por interposta pessoa, a Edgar Allan Poe, a inspiração para a sua imagética tantas vezes fúnebre e pontualmente macabra. Pelo meio, denotamos uma progressiva preocupação com o social, com raízes no ingresso, após terminar o curso de Direito, em Coimbra (1866), na Imprensa Nacional, como tipógrafo, e na sua estadia em Paris, onde toma contacto com o proletariado local. É relevante o seu papel de polemista na Questão Coimbrã (1865), contra António Feliciano de Castilho e os ultrarromânticos, acusando-lhes a vacuidade de conteúdo revestida pela forma exacerbada dos cânones românticos. Bem assim, a sua posição cimeira nas conferências do Casino Lisbonense (1871) que introduziram o realismo como novo movimento artístico em Portugal e consagraram a Geração de 70. Todas estas questões da sua vida política e artística influíram na lírica que compôs, denotando-se nos sonetos dos respectivos períodos temporais.
[Imagem] António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Todavia, coexistindo com estas múltiplas influências está, talvez, o tema central de toda a lírica anteriana, a metafísica, as suas dúvidas e angústias na constante demanda pelo sentido da vida e a sua relação conflituosa com Deus, ou a ideia do divino, que poderá justificar essa mesma vida. Debatendo-se entre a crise de fé, provocada pela pungente consciência das injustiças no mundo, e a descrença angustiante do vazio da existência, Antero encontra sentido no vácuo ao descobrir o budismo zen. Tema de muitos dos seus sonetos finais, o zen permitiu a Quental libertar-se do medo da morte e do absurdo do vácuo, o vazio deixa de ser o zero absoluto para poder ser o todo possível, a vida é nada, logo pode ser tudo. Só nos despojando de todos os medos, angústias e bagagem supérflua nos podemos aperceber que o verdadeiro sentido da vida é deixa-la fluir, devemos ser como a água, que a tudo se adapta, e a tudo preenche sempre sem perder a consistência, isto é, mantendo a firme consciência de nós mesmos e do mundo senciente.
first time reading poetry in a while! 3.5 ✨ all poems are sad boi hours and pensive, about existence, love and religion. reading this along with his life story made it extra sad - he had bipolar disease and ended up committing suicide. he was talented in his writings and i enjoyed the poems as much as i could!
São três da manhã e passei as minhas últimas horas de vida a acabar esta compilação de sonetos do Antero de Quental. Se visse um cavalo a ser chicoteado neste momento ficava já aí. É triste ver que apesar de alguma interpelação religiosa inicial que procura alento, acaba tudo numa desesperada súplica pelo beijo da morte. É mais triste ler isto após a Florbela Espanca e aperceber-me que apesar das diferentes formas como ambos encaravam os seus pensamentos, os dois acabaram por chegar ao mesmo final. Isto não é fácil.
“Ali, ó lírio dos celestes vales! Tendo seu fim, terão o seu começo, Para não mais findar, nossos amores.”
“Conheci a Beleza que não morre E fiquei triste. […] Pedindo á forma, em vão, a ideia pura, Tropeço, em sombras, na matéria dura, E encontro a imperfeição de quanto existe.”
“Minh’alma, ó Deus! a outros céus aspira: Se um momento a prendeu mortal beleza, É pela eterna pátria que suspira…”
“Pura essência das lágrimas que choro E sonho dos meus sonhos! se és verdade, Descobre-te, visão, no céu ao menos!”
“Que sempre o mal pior é ter nascido!”
“Se nada há que me aqueça esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza… É de crer que só eu seja o culpado!”
“A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência, Só se revela aos homens e ás nações No céu incorruptível da Consciência!”
“Muito antes de nascerem vossos pais Dum bairro vil, ridículas crianças, Sabia eu tudo isso… e muito mais!”
“Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos… Mas eu por mim não sei como me chamo…”
“Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem: — ‘Homens! porque é que nos criastes?’”
“E quando o pensamento, assim absorto, Emerge a custo desse mundo morto E torna a olhar as coisas naturais À bela luz da vida, ampla, infinita. Só vê com tédio em tudo quanto fita, A ilusão e o vazio universais.”
“Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente, Respondeu: Desta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se é isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor.”
“Ah, se Deus a seus filhos dá ventura Nesta hora santa… e eu só posso ser triste… Serei filho, mas filho abandonado!”
“… a mim o que me há dado? Voz que te cante e uma alma para amar-te.”
“Seja a terra degredo, o céu destino”.
“Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! […] Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra misteriosa.”
“Só males são reais, só dor existe;”
“Talvez sem esperanças haja ventura!”
“Amar! mas dum amor que tenha vida… […] Pois que podem os astros do espaço Contra uns débeis amores…. se têm vida?”
“o meu coração é que não dorme…”
“O vento e o mar murmuram orações, E a poesia das coisas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações.”
“Cruz, eu sou a Natureza!”
“Tu, pensamento, não és fogo, és luz!”
“adoraram-me, Como se eu fosse alguém! como se a Vida Pudesse ser alguém — logo em seguida Disseram que era um Deus… e amortalharam-me!”
“E, sendo a Morte, sou a Liberdade.”
“Cavalga a fera estranha sem temor. E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!” Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”
A alma inquieta de Quental é evidenciada de maneira nítida nos seus versos. O português dá à palavra toda a potência que dela haviam retirado os românticos, mas atribuindo-lhe também o dramatismo característico do movimento predecessor. Pareceu-me um poeta inquieto, certamente descolocado, procurando no plano metafísico a resposta que o plano imanente está longe de significar. Trovador moderno, trovador maldito, que na morte encontra a única solução ao vazio do que ele próprio intitula de Não-Ser. E me pergunto: será que não continuamos sendo não-seres?
"Ler Poesia é dar a um segredo a possibilidade de ser nosso" E assim se dá o prefácio deste livro! Que forma estrondosa de se iniciar!
Antero de Quental surpreendeu-me imenso com estes sonetos. É notória a sua forma peculiar de abordar o tema "morte" como se esta fosse uma velha amiga.
Tenho pena de não ter tantos conhecimentos de poesia para poder apreciar de uma forma mais correta esta forma de expressar os nosso sentimentos.
Por vezes um tem mais medo de viver do que morrer. Estes sonetos exploram essa falível realidade humana. Mas não são complicados, o objetivo do autor não foi complicá-los, talvez possam ser lidos durante uma noite escura num sótão onde se possam ver todas as diferentes transutações estrelares. Mas para quê? Se não exitem transmutações da alma? Se a realidade continua falível e a natureza perpetuamente nos mostra o vazio de matéria que se encontra em nós? Pessoalmente eu não gosto de adicionar filosofia a interpretações de obras líricas. Acho que se o poeta não for alguém como Wallace Stevens, interpretações partindo como base a filosofia serão provavelmente desnecessárias, provavelmente erradas. Daí não achar que uma forte estrutura filosófica faria sentido como base de uma interpretação de grande parte destes sonetos de Quental, sonetos sobre a sua fraca, erma, cansada alma. Este é um livro sentido, existe uma fraca evolução nos ideias, nas crenças do sujeito poético. Um quer que a dicotomia entre as trevas e a luz acabe, mas ela continua até ao final da obra. Apesar de condenar o seu sofrimento a meio, como algo decorrente de culpa sua, o poeta continua a querer viver em trevas. Não em histéricas trevas, aquelas que o ultra-romantismo tanto estima usar, mas um niilista caminho para o "Nirvâna", finalmente aí, "sem ciúmes, sem saudades,/Sem amor, sem anseios, sem carinhos,/Livre de angústias e felicidades", poderia ter o poeta "um morto coração, que nada espera,/Nem deseja tambem". É simples para o leitor compreender porque é que o eu-lírico tanto odeia o romantismo, tanto odeia a injustiça social do país em que vive, tanto odeia aqueles que pensam facilmente sacudir "O jugo da divina tyrannia!" Se Gaddis defendia que praticamente todas as grandes obras partem de indignação, então esta não será prova em contrário, nenhum destes sonetos seria prova em contrário. Por último, escapar muitas vezes aparenta ser a mais favorável resposta encontrada a enorme sofrimento, escapar para o "Não-ser, que (é) o Ser unico absoluto", para a "tenebrosa e augusta", "austera e calma" morte. Antero de Quental suicida-se aos 49 anos em 11 de Setembro de 1891, em frente ao Convento de Nossa Senhora da Esperança em Ponta Delgada, em frente a uma parede onde se encontra colocada uma placa com a palavra "Esperança". Terá significado o vocábulo "Esperança"? Para o poeta esperança é inimiga da razão, é um paradoxo no mundo em que vivemos. Mas para outros, aqueles que "na arena trágica, as nações/buscam a liberdade entre clarões;/e os que olham o futuro e cismam, mudos," a crença de que algo de bom aconteçerá, faz parte da razão.
Esta edição tem prós e contras: é de louvar que o Expresso tenha seguido a edição publicada em 1886 por J. P. Oliveira. No entanto, decidiram inovar e as separações dos poemas não são facilmente visíveis, estando marcadas no canto inferior direito das páginas. Para além disso, existem alguns erros ortográficos bastante surpreendentes (sorrio em vez de sorriu). A importância de estar bem marcada a fragmentação dos poemas deve-se ao facto de cada segmento pertencer a uma característica do sujeito. O primeiro, "1860-1862" revela-nos a alma sensível, a preocupação metafísica e os assomos de tristeza que o preenchem. O segundo,. "1862-1866" afoga-nos numa onda de desolação, num cenário de silêncio e escuridão e vemos os traços filosóficos do sujeito. No terceiro, "1864-1874" encontramos um sujeito que observa os heróis, mas nunca é o herói. O quarto, "1874-1880" apresenta-nos um sujeito em deslocação, com a ideia de que a morte é libertadora e só isso o pode salvar. No último, "1880-1884", temos de destacar o último poema, "Na mão de Deus", uma obra prima que nos discursa a morte. Deus é uma entidade acolhedora, que leva o sujeito a compreender que o repouso só é possível quando o cavaleiro se despoja de todos os elementos negativos e positivos. Antero desejou que os sonetos fossem como uma autobiografia e é por isso que são apresentados por ordem cronológica.
Nestes Sonetos Completos, coligidos por Oliveira Martins, o leitor faz uma viagem poética pela vida de Antero Quental. Começa-se ao ritmo de poemas de amor, quer esperançosos, quer desgostosos, e gradualmente se vê a tristeza e o desengano invadir a alma de Antero. A dúvida teológica, a obsessão com a morte, as trevas e a tristeza assentam raízes e invadem toda a criação poética do poeta, criando poemas de grande beleza. São páginas cheias de desencanto pela vida, ansiosas pela Noite sem termo, noite do Não-Ser!, que traçam um caminho que não podia deixar de desembocar nos acontecimentos de 11 de setembro de 1891, quando Antero se suicida num banco público em Ponta Delgada. Terminou aí uma existência atormentada, e perdeu-se um grande poeta.
Posso sem hesitação dizer que poucos livros de poemas me tocaram tanto como este; poucos contém um sabor tão trágico, não negro, e, sobretudo, tão belo.
"Nenhum de vós ao certo me conhece, Astros do espaço, ramos do arvoredo, Nenhum adivinhou o meu segredo, Nenhum interpretou a minha prece...
Ninguém sabe quem sou... e mais, parece Que há dez mil anos já, neste degredo, Me vê passar o mar, vê-me o rochedo E me contempla a aurora que alvorece...
Sou um parto da Terra monstruoso; Do húmus primitivo e tenebroso Geração casual, sem pai nem mãe...
Misto infeliz de Trevas e de brilho, Sou talvez Satanás; - talvez um filho Bastardo de Jeová; - talvez ninguém!"
Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.
Antero de Quental dá-nos a possibilidade de gozar da filosofia pessimista de Schopenhauer pelas palavras de um poeta. Ao longo dos sonetos é até possível reparar numa relação amor-ódio estabelecida entre Quental e a natureza: Quental admite a vil forma como a natureza nos rege a todos e, ainda assim, não consegue deixar de a venerar.
Lindos sonetos de Anthero Quental. Uma capacidade incrível de utilizar as palavras. Enganou-se o discípulo de Zarathustra, que disse que os poetas mentem.
Reading 19th century Portuguese poetry can be a bit of an enigma. I had never heard of Antero de Quental (1842-1891). He was part of the 70s Generation who rebelled for modernism; fell in with the anarchist group Cenáculo along with Eça de Queiros, Guerra Junqueira and Ramalho Ortigão; got involved with Conferências do Casino during the year of the Paris Commune (1872); and twice presented himself for the Portuguese Socialist party (Wikipedia). A busy person who in 1886 published his most respected book Sonetos Completos.
His poetry? This was the enigma.
The first poems are called: Os Cativos (The Captured), Os Vencidos (The Defeated), A Fada Negro (Dark fFate), and Entre Sombras (Between the Shadows). A bit on the dark side. There are two hymns showing his socialist interest: Hino do Manhã (Hymn to Tomorrow), Hino a Razão (Hymn to Reason). Sprinkled throughout the collection are poems dedicated to numerous people, some well-known in the literary and political realms. Other titles/themes vary: Lamento, Aspiração, Desesperança, Abnegação, Despondency, Estoicismo, Transcendentalismo, and Redenção. In short he certainly loves to tackle some very lofty ideals.
Of course, his form is the sonnet which always makes me think of either Shakespeare or love poems. So instead of lighter fare we have some serious words in Hymn to Tomorrow. Here are just two verses but it gives you the idea:
Símbolo da Mentira universal, Da aparência das cousas fugitivas, Que esconde, nas moventes perspectivas, Sob o eterno sorriso o eterno Mal,
Símbolo da Ilusão, que do infinito Fez surgir o Universo, já marcado Para a dor, para o mal, para o pecado, Símbolo da existência, sê maldito!
Symbol of the universal Lie, From the appearance of fugitive things, Which hides, in the moving perspectives, Under the eternal smile, the eternal Evil,
Symbol of Illusion, that from infinity Made the Universe arise, already marked For pain, for evil, for sin, Symbol of existence, be damned!
Definitely not flowery language.
I have to admit many of these poems were rather bleak. The mixture of religion, human struggle and reflections on his place in the universe made for a bumpy ride. Don’t get me wrong, there was some very powerful pieces in this collection including some very positive pieces. His poem to Eça de Queiros, Visão is remarkably visual.
Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços Nada sorria já: só fixo e lento Morava agora ali um pensamento De dor sem trégua e de íntimos cansaços.
Pairava, como espectro, nos espaços, Todo envolto num nimbo pardacento… Na atitude convulsa do tormento, Torcia e retorcia os magros braços…
E arrancava das aras destroçadas A uma e uma as penas maculadas, Soltando a espaços um soluço fundo,
Soluço de ódio e raiva impenitentes… E do fantasma as lágrimas ardentes Caíam lentamente sobre o mundo! (Visão, 1874-80)
I saw Love - but in your damp eyes Nothing to smile about: only fixed and slow I lived there now a thought Of pain without truce and intimate fatigue.
It hovered, like a spectre, in the spaces, All wrapped in a brown nimbo... In the convulsive attitude of torment, Twisted and twisted, his thin arms...
And pulled out of the shattered wings To one and one the stained feathers, Releasing to spaces a deep cry
Weeping with unrepentant hatred and anger... And from the ghost the burning tears They fell slowly on the world!
Quental lived in a turbulent time. Change was part of his struggle. He did suffer from tuberculosis, depression and probably a bipolar condition. Sadly he shot himself at the age of 49.
Faz um mês desde que li esse livro e por questões de tempo e esquecimento, não consegui escrever uma resenha como os outros, então não vou dizer que será muito detalhada, basicamente só vou listar os poemas que mais gostei e que deixei anotado.
Eu até gostei de um modo geral, sabia? É um livro de poemas - ou melhor, sonetos - então sempre tem alguns que você gosta mais do que outros e as fases de Antero de Quental também lhe dão sentimentos e gostos diferentes. Não foi ''WOW, genial porra'', mas com certeza não foi como imaginei.
Agora, portanto, irei mostrar os poemas que mais gostei e suas respectivas fases: - Primeiros poemas -> Fada Negra - 1º Parte -> A.J Félix dos Santos - 2º Parte -> Palácio da Ventura (nesta, houve muitos poemas em que gostei) - 3º Parte -> A um Poeta (difícil escolher algum que me marcou) - 4º Parte -> O incosciente; Divina Comédia - 5º Parte -> Solemnia Verba (nas minhas anotações, há três listados, então escolhi o que havia uma observação ''Sai um pouco do normal'').
Did not like it. All of his poems are about Death, God, and Religion, which are themes I don't particularly identify with. All poems are pretty much the same, but using different metaphors - it becomes monotonous very quickly. He does have a talent for rhyming, I will say, although I don't necessarily like his style.
O todo é bastante irregular, iniciando com poemas que resvalam pela intensa religiosidade. A partir da metade o poeta como encontra seu verdadeiro tema - a dualidade entre o amor e morte - e produz obras magistrais. Imprescindível a todos que se interessam pelas belas letras portuguesas - Antero de Quental é parte nobre da tríade com Camões e Fernando Pessoa.
Bela compilação de sonetos de um dos mestres da poesia portuguesa. Ao seguir a produção cronologicamente é visível uma descida a um estado mental cada vez mais negro acompanhado a meu ver de uma produção literária cada vez mais bela, ainda que triste.