Em "Chão de lobos", o leitor descobre o encanto e a luminosidade da terra amazônica, a aspereza dos trabalhos e penas em que se debate a criatura humana em luta com o rio, a pobreza, a magia, a exploração e a crueldade das condições de vida. um lirismo percorre o livro, que comove pela humanidade dos seus personagens e pela fidelidade com que o autor desenvolve a narrativa. O leitor encontra neste romance um flagrante da vida paraense, que assume um caráter universal, pois as dores e as alegrias do paraense são as mesmas do mundo inteiro. Daí a amplitude do romance, sem limitações regionalistas, aberto, rico de poesia e verdade.
*** Trecho da obra:
"Teus cabelos vão para o mar oceano, são os inumeráveis caminhos para o mar oceano que é o amor e a morte. Teu pé marcou na várzea e o açazeiro que dá o melhor vinho, o lugar onde o tajizeiro queimado pelas formigas dá mais flor. Teu olhar domina o estuário, como o do pássaro sobre a maré. Nem toda liamba me fará esquecer as promotorias públicas. Felizes peixes, me contem de que brincam os curumins afogados, como dançam os peixes-bois sob o capim nupcial, os tambaquis tão de súbito arpoados, me contem onde se escondem aquelas noites, onde se afogam nas lagos do Alter-do-Chão, onde? Aquelas noites tão de minha vagabundagem e de minhas buscas, como a noite dos homens para sempre perdidos nos balatais. Como te poderei prender, se és dispersa e vives entre os elementos como a semente e a morte? Fica de ti no meu tormento a sombra das mortas auroras de Alter-do-Chão ou quando morre o marabaxo e sobe pelo tambatambatajá o suspiro do Urumutum, o caruana. As mulheres se enrolam nos teus cabelos para ficarem belas e amadas, o corpo fechado contra febre, fome, viuvez… Quem me fecha o corpo contra as promotorias públicas?"
Dalcídio Jurandir Ramos Pereira (Ponta de Pedras, ilha do Marajó, Pará, 10 de janeiro de 1909 — 16 de junho de 1979) foi um romancista brasileiro.
Estudou em Belém até 1927. Em 1928 partiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor na revista Fon-Fon. Em 1931 retornou para Belém. Foi nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado. Escreveu para vários jornais e revistas.
Militante comunista, foi preso em 1936, permanecendo dois meses no cárcere. Em 1937 foi preso novamente, e ficou quatro meses retido, retornando somente em 1939 para o Marajó, como inspetor escolar.
Escreveu para vários veículos e acabou como repórter da Imprensa Popular, em 1950. Nos anos seguintes viajou à União Soviética, Chile e publicou o restante de sua obra, inclusive em outros idiomas.
Em 1972, a Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis, entregue por Jorge Amado, pelo conjunto de sua obra.
Em 2001, concorreu com outras personalidades ao título de "Paraense do Século". No mesmo ano, em novembro, foi realizado o Colóquio Dalcídio Jurandir, homenagem aos 60 anos da primeira publicação de Chove nos Campos de Cachoeira.
Em 2008, o Governo do Estado do Pará instituiu o Prêmio de Literatura Dalcídio Jurandir.
Em 2009 comemorou-se o centenário do escritor.
Escreveu:
Série Extremo-Norte:
Chove nos Campos de Cachoeira (1941) Marajó (1947) Três Casas e um Rio (1958) Belém do Grão Pará (1960) Passagem dos Inocentes (1963) Primeira Manhã (1968) Ponte do Galo (1971) Os Habitantes (1976) Chão dos Lobos (1976) Ribanceira (1978)