As tristes memórias de uma adolescente que vai parar na FEBEM, sofre diversos tipos de violência, muda de identidade sexual e acaba tendo um fim trágico.
O livro é dividido em duas partes: autobiografia e poemas. Em ambos os momentos, Anderson traz um olhar desolado sobre a própria existência, como se a realização dos seus sonhos estivesse fora de alcance ou perdida para sempre. Era um ultrarromântico, a seu modo. Seja como for, motivos de tristeza nunca faltaram na vida de Anderson, jovem transgênero e órfão que viveu sua curta existência sem sentir-se realmente acolhido em lugar algum. Aos vinte anos suicidou-se, antes mesmo do lançamento do livro. Fico imaginando como seria se ele estivesse aqui até hoje e pudesse ver como as discussões sobre transgeneridade avançaram.
As duas partes, por mais autossuficientes que sejam, funcionam perfeitamente como dípticos; unem-se de modo quase doloroso, porém essencial: são como gema e ovo, café e açúcar, samba e felicidade, amadurecimento e desilusão. Apesar do decorrer amargo, o final consegue abordar um pedaço de esperança na trajetória tão flagelada do autor - que poderia ser o bastante se não a realidade que viria depois, anotada na introdução de Suplicy e Junqueira. É como apontado na contracapa da edição: « Herzer não quis esperar o lançamento de seu livro. Deixou-o como recado. » Está-se diante do relato doloroso de um jovem e os horrores mais crus existentes e que, infelizmente, não poderia ser mais atual. Por mais que terceiros tenham o pintado como um “delinquente”, Herzer foi um ultrarromântico e hipersensível. Ele não merecia este fim maldoso, levado, mesmo com o trabalho para sua melhora, pelo peso do trauma que tanto fizeram questão de dá-lo injustamente. Anderson teve suas dignidade, reputação, identidade e humanidade violadas incansavelmente até depois de sua morte, como visto no porco filme de 1986 Vera, mas que seu legado não resuma-se nunca apenas às maldades que lhe fizeram. Mesmo que uma denúncia, « A Queda Para o Alto » é também é um trabalho belo de poesias sensíveis e belas de um dos autores mais importantes da história deste projeto de país. Herzer vive.
Como homem trans, senti proximidade e distancia da historia de herzer. Vivemos realidades muito diferentes, economicamente e temporalmente. Mesmo assim, os poemas comunicam muito do que eu senti no começo da transição: essa maluquice de ter certeza que você é homem, mas os outros insistem que você não é, não importa o que você faça não acreditam. É bem trágico, mas muito informativo sobre a realidade de pessoas marginalizadas no Brasil.