Para além de se pôr em causa o sistema e os métodos pedagógicos, apercebemo-nos de que é a própria situação de aprendizagem que desencadeia medos que perturbam a organização intelectual. O confronto com as regras e a autoridade, o encontro com a dúvida e a solidão, inerentes aos processos de aprendizagem e do pensamentom despertam então uma inquietação demasiado profunda contra a qual é ilusório querer lutar com os instrumentos pedagógicos habituais. Aprisionar os medos, dar-lhes uma forma aceitável pelo pensamento a fim de não determinarem a ruptura dos procedimentos intelectuais, eis a condição indispensável para reconciliar essas crianças com o saber escolar.
O recurso a temas culturais que podem metaforizar estes receios parece ser um excelente meio para libertar o desejo de saber de percepções pessoais demasiado dominadoras. É nesse sentido que Serge Boimare se apoia nos romances de Júlio Verne para abordar a matemática ou a gramática e na Bíblia ou na mitologia para ensinar a ler e a escrever. Através de exemplos precisos e minuciosos, o autor mostra a que ponto a restauração da função imageante é uma fase indispensável se se quiser ajudar estas crianças que sofrem de dificuldades de aprendizagem, a acederem à dimensão simbólica.
Este é um livro muito interessante que relata as experiências de um professor de alunos com graves problemas de aprendizagem. Gostei bastante de o ler, apesar de, por vezes, a forma de escrever tão característica dos franceses (complicada, a dar muitas voltas em vez de ir directa ao assunto) se tornasse um pouco fastidiosa. Também tive pena que o livro não focasse experiências com alunos ditos "normais". Fica uma citação: "Porque, acima de tudo, não se deve cometer o erro de pensar que os temas culturais são fastidiosos para os mais desfavorecidos. São muitas vezes essas histórias que atravessaram as épocas as que estão mais perto das preocupações interiores dessas crianças que, no entanto, não poderiam ser menos pobres do ponto de vista cultural."