Notas:
- As rotinas da casa não eram suficientes para tanta energia. E por isso não sei se ela chegou a perceber que a falta de ambição do meu pai era uma atitude artística, um corte estético com o cinzentismo do dia a dia e com a mesquinhez de uma vida regida pela ganância e pelo espírito burguês do lucro, do sucesso e da carreira. (pág.31)
- A morte dos pais, sobretudo da mãe, minha avó Leonor, baronesa de Riba Rio, e a decadência patrimonial que se seguiu, levaram o meu pai a desinteressar-se de qualquer forma de vida profissional activa, salvo o estritamente necessário para garantir o sustento da família. De certo modo ele ficou sempre do outro lado, sem um queixume pelas quintas, os cavalos e os palácios perdidos. Sem azedume, nem inveja, nem sequer amargura. Apenas uma indisfarçavel melancolia. (pág. 32)
- Para me perceber a mim mesmo não posso esquecer que nasci e fui criado entre a tensão da energia e o desprendimento da contemplação (...) energia e melancolia, acção e desinteresse, agitação e desprendimento. (pág. 32)
- (...) e eu, propenso já ao romantismo, ao devaneio, senão mesmo ao desvario, pensava: moira encantada. (pág. 85)
- A minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha dentro dela, uma obstinação. Ela queria grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre. Transmitiu-me desde pequeno essa crença em algo de superior que me esperava ou que eu devia cumprir. Talvez por isso vivia sempre numa tensão extrema, creio que muitas vezes à beira da ruptura. Por vezes desorganizava-se, adoecia. Ela não descansava: estava sempre interiormente orientada para um fim. E nunca satisfeita. Nem consigo nem com os outros. Não sei ao certo o que ela exigia. Nem talvez ela própria soubesse. Sei que me incitava. Era uma fé que quase me obrigava a corresponder, sob pena de eu próprio me considerar um fraco. Não que me estimulasse a ser o melhor, nem sequer a competir. O que ela queria é que eu fosse diferente. Mais do que diferente: o outro, o único. Por ser SEU filho. O SEU. Sublinhado. Por isso tinha que deixar na vida um sinal, um marco, a marca. Ou cumprir a missão que nenhum de nós sabia ao certo qual fosse. (pág. 104)
- O meu pai era um pouco assim: partia frequentemente para não sei onde, talvez para outro tempo, talvez para outro espaço, o das serras da Beira Baixa, atrás de perdizes impossíveis de caçar. Um pouco como na poesia, onde, havia de o aprender depois, se anda sempre atrás de um verso que não há. (pág. 107)
- Dizem, aliás, que também herdei esse tique. Não é vaidade nem altivez. É uma atitude, um não gostar de andar curvado. (pág. 145) [Fez-me lembrar o meu avô Carlos]
- Estávamos apaixonados pelo circo. Talvez pelo mistério, talvez, simplesmente, porque estava de passagem. Era uma forma de descobrir a transitoriedade de tudo, do que é belo e efémero e tem de passar. (pág. 148)
- Era uma daquelas manhãs em que minha mãe virava a casa do avesso. Não sei a que necessidade profunda correspondia tal operação. Talvez ao seu génio, que era o da intervenção, o do comando, o de agir sobre as coisas, mudá-las, empurrá-las, subvertê-las. (pág. 171)
- É com ela que o teu pai costuma dançar sozinho. [...] Mas o meu pai, diziam, fugiu-lhe. Talvez por medo do excesso, talvez porque acima de tudo ele amava as causas perdidas, as coisas inacabadas, as monarquias sem rei. [...] Mas talvez o meu pai soubesse que ela precisava de outras vida, viagens, embaixadas, carreira, um palco, outros espaços urbanos, as grandes capitais, o mundo. O teu pai teve medo, disse-me, mais tarde, Mariana, minha mãe. Com ela seria obrigado a uma vida diferente e ele nunca esteve para isso. (pág. 174)
- Dia de fogo era dia de grande representação colectiva. O importante era ver, intervir, estar lá, gozar o fogo, o acre prazer das dores alheias, consolar as vítimas, chorar com elas. Para depois cada um ser herói segundo o seu modo de contar. (pág. 184)
- Gostava de ter o poder ficcional dos meus conterrâneos de Alma. Instintivamente eles sabiam só a ficção e a imaginação tornam verdadeira a realidade. (pág. 208)