Rio de Janeiro, começo do século XX. Viúvo e solitário, Machado de Assis sofre fortes dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização da antiga cidade do Rio de Janeiro. Em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, o presidente da Academia Brasileira de Letras encontrará um precioso interlocutor, que também sofre terríveis crises nervosas e o encaminhará ao dr. Miguel Couto. Qual é a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação? Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, Silviano Santiago oferece uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos.
Nasceu em 1936, em Formiga (MG). É o romancista de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti. Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro.
Começando pela capa, há que se dizer que este livro não é um romance. Suspeito que esta falsa sugestão não se deve apenas a uma orientação do editor, interessado em atrair o máximo de leitores, mas também a uma brincadeira do autor, que se arrisca em um dos jogos sutis de seu biografado...
O livro tampouco é uma biografia stricto sensu. O Machado que encontramos é um personagem; a sua verdade, uma verdade de Santiago - que passa, ele mesmo, como personagem pelo texto.
Santiago usa as cartas escritas por Machado nos seus últimos anos de vida para construir imagem em múltiplas e detalhadas camadas. Seu Machado é corpo doente e cansado. É cidadão em uma cidade que se transforma, em um país que se transforma. É negro em uma sociedade que não se transforma. É servidor público em diferentes sentidos - seja no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, seja na Academia Brasileira de Letras. É viúvo. É amigo. E autor.
A erudição de Silviano impressiona e enriquece a narrativa. Não há como sair dessa leitura sem se sentir mais próximo do Bruxo do Cosme Velho (resisti quase até o final, mas o cliché é inescapável).
A pretensão romanesca de Silviano Santiago, sugerida por ele na epígrafe de Sartre e endossada pela editora ao estampar o selo de “Romance” na capa deste livro, não é, a meu ver, um problema central aqui. O romance é um gênero aberto, capaz de absorver também o discurso ensaístico (Julian Barnes é uma boa e recente prova disso). O problema é que, tanto faz: lido como romance, como ensaio, ou como produto híbrido dos dois, “Machado” é maçante e pernóstico até a medula. Trata-se de um longo, quase intransponível, devaneio ególatra e megalomaníaco de um autor que acha razoável se colocar na linha sucessória de Machado de Assis, quase como sua reencarnação. Em suas palavras: “Machado e eu somos duas faces diferentes, impressas numa moeda ainda desprovida de valor simbólico. A escapada do passado em direção ao futuro, ou a viagem do futuro em busca do passado, transfigurará aos dois na cara de uma moeda única chamada Literatura. Duas caras, uma só coroa”. Uma fantasia insustentável, que o próprio texto mal-ajambrado de Silviano Santiago não consegue corresponder. Isolado do contexto narrativo da amizade entre Machado de Assis e Mário de Alencar (espinha dorsal da pouca ficção histórica que há aqui), todo o panorama secular de um Rio de Janeiro ainda em processo de urbanização, tentando se desvencilhar da tradição imperial e se firmar nos novos horizontes de uma recém proclamada república, torna-se uma mera colagem de fatos aleatórios de uma pesquisa (não há dúvida) bem realizada, mas com tons de revisionismo bibliográfico. Tanto se fala em Machado como um mímico quando o grande mímico do livro é Santiago, executando sua pantomima intelectualóide escorada no vulto do cânone, superinterpretando detalhes como um mero pseudônimo escolhido por Machado no início de carreira para fundamentar uma teoria que nem afetiva consegue ser, dada a completa distância assumida do objeto nas últimas páginas, dedicadas mais profundamente à sua enfermidade e ao ano de sua morte. Fiquei me lembrando de livros como “O Mestre de Petersburgo”, do Coetzee, e “Verão em Baden-Baden”, de Leonid Tsípkin, e pensando em como esses dois livros conseguem fazer com muito menos, com a figura de Dostoiévski (ele também um gênio de sua época, epilético), o que Santiago tenta fazer com muito, se excedendo tanto, tendo Flaubert e “O Idiota da Família”, do Sartre, como modelo. Se a pretensão, como a de Sartre, era de atingir certo nível de compreensão de Machado por meio do levantamento de hipóteses, sinto muito: saí da leitura com a convicção de que compreendo melhor Machado lendo seus próprios livros e embarcando nas suas próprias contradições hipotéticas.
“Machado” é um romance propriamente contemporâneo. A obra mescla historiografia, crítica e literatura num pot-pourri ambicioso. Tendo como protagonista o maior escritor que o Brasil já produziu, Silviano Santiago se vê na obrigação de demonstrar seu virtuosismo: uma nítida instância da “angústia da influência” que exige do autor o seu melhor ainda que esteja aquém de seu mestre. Triangulações abundam no romance como princípio ordenador, fornecendo uma estrutura mínima para uma obra que é ela própria meio epilética. Os três M de As; Machado, Nabuco e José de Alencar; Machado a personagem, Machado o autor e Machado o homem... tais arranjos oferecem ao leitor uma experiência prazerosa ainda que por vezes truncada. Sinto que a máxima “menos é mais” pode ter escapado a Santiago em certos pontos. Muitas ideias chegam a ser expressas de modo quase idêntica na página seguinte e a história do avanço da medicina em combater a epilepsia, ainda que meticulosa - ou melhor, por ser meticulosa - chega a ser enfadonha em certos momentos. Ainda assim, o livro joga uma importante luz na vida de Machado e, ao se debruçar sobre suas obras, contribui consideravelmente para desvendar muitos mistérios que residem abaixo da superfície de qualquer grande obra de literatura.
MACHADO, de Silviano Santiago, deveria constar no panteão da literatura brasileira contemporânea. Ter ganhado o Jabuti em 2017 de melhor romance não lhe foi mérito suficiente (não só por não ser algo que eleve tanto a popularidade de qualquer obra, mas também pela irresistível comparação com outros vencedores nas outras edições do Prêmio.)
Entrelaçar a história do Brasil com a do até hoje maior representante da prosa brasileira é tarefa ingrata, em um país onde a Literatura detém baixíssimo valor na formação na identidade social ou histórica. Trata-se, a priori, de uma interseção que parece insuficiente.
Silviano Santiago, todavia, para que não lhe faltem insumos, faz o caminho intuitivamente inverso: reconstrói cenários da vida nacional da virada dos séculos XIX para o XX, colocando a figura de Machado de Assis em meio ao caos político posto em marcha pela transição do Império para a República e suas consequências (a crise sanitária e urbana das reformas no Rio de Janeiro, o baque econômico do encilhamento e os bastidores da então recém-criada Academia Brasileira de Letras).
A História do Brasil, então, se agiganta para se suportar a história da obra machadiana e da sua pessoa, a fim de que haja um sustento digno do escritor realista. Ambas se contrabalançam nesse romance no qual a arte sacra, a mitologia grega e os avanços da medicina homeopática servem se ornamentos por onde passa o bruxo do Cosme Velho.
Tudo isso com uma linguagem rica - ainda que levemente erudita, tal como Machado - , com quebras da quarta parede, ironias e divagações filosóficas.
Primeira vez que li algo do Silviano Santiago, apesar de ele ser, atualmente, um dos mais conceituados escritores brasileiros. Digo que fiquei muito positivamente impressionado. Ele dá mostras de enorme erudição. Erudição, é verdade, é de pouca valia, se faltam outras competências ao autor. Não é o caso aqui. Ele é narrador capaz, conhecedor habilidoso do seu ofício, capaz de fazer uma obra que é ao mesmo tempo romance e ensaio. Machado, é claro, é Machado de Assis. O tempo do livro são os seus últimos anos (1905-1908) e o fio condutor é a doença, a epilepsia que o afligiu durante a maior parte de sua vida. O primeiro capítulo, por exemplo, faz um paralelo entre Flaubert – também atingido pelo mesmo mal – e Machado, ao mesmo tempo em que relata um dos ataques – ou ausências, no linguajar do livro ¬– sofridos. No caso, foi no meio da rua, onde foi amparado por um amigo, que o levou até uma farmácia. Além disso, ponto importante no livro é a relação entre Machado e Mário de Alencar, filho de José de Alencar, e que Silviano trata como se fosse uma espécie de filho espiritual de Machado. Mário, também funcionário público e também escritor, também sofria de ataques epiléticos. Protegido de Machado, foi eleito para uma vaga na Academia Brasileira de Letras sob fortes ataques da imprensa e de outros escritores, que o viam muito jovem ou insuficientemente capaz para ser parte da ABL. Talvez tivessem razão e o próprio Silviano o qualifica a certo momento como um escritor sem muitos méritos e que foi quase esquecido pelos seus pósteros. Mas a despeito disso, da sua falta de maiores qualidades literárias, Silviano dá relevo a relação entre o viúvo Machado e o jovem Mário. Uma relação fraterna, quase de pai e filho. Também os aspectos ensaísticos do livro se revelam nas longas reflexões não só sobre Machado, mas sobre a própria vida carioca do início do século XX, quando a cidade é modernizada a golpes de marreta, com a demolição do casario colonial e a construção de avenidas e edifícios que copiam Paris. Mas modernização feita da nossa maneira tão leniente: As fachadas são Paris, os fundos são favelas. Por fim, existe mesmo a fofoca espalhada por Humberto de Campos, outro escritor do início do século XX – extremamente popular em seu tempo, mas hoje quase esquecido – que Mário seria filho ilegítimo de Machado.... Enfim, deixando as fofocas de lado. O livro é uma interessante união entre romance e ensaio. Vale a pena e despertou a curiosidade para conhecer mais da obra de Silviano. Uma segunda observação final. Rodrigues Alves é, em certo momento qualificado como paulistano, coisa que ele não era. Ele era paulista de Guaratinguetá.
Essa foi a obra escolhida para última categoria do #desafiobookster2018. Confesso que não estava muito empolgado para lê-la. Não sou um fã de biografias e já tinha lido algumas críticas negativas sobre o livro – que, inclusive, foi vencedor do Prêmio Jabuti 2017. Mas resolvi colocar “Machado” no desafio do ano passado como forma de incentivo para tirá-lo da estante... Na capa do livro já nos deparamos com uma dica do que aparentemente iremos encontrar durante a leitura: “romance”. Em seguida, comecei a ler a sinopse que promete “uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos”. Logo já me veio a dúvida: esse livro é uma biografia ou um romance? E a verdade é que, depois de concluída a leitura, eu não conseguiria classificar essa obra. Ela é muito diferente e acho que qualquer tentativa de encaixá-la em uma única categoria seria falha.
Ao longo das suas mais de 400 páginas, o leitor encontrará relatos extraídos de cartas escritas por Machado de Assis, um amplo ensaio histórico sobre o Rio de Janeiro do início do século XX e uma análise detalhada acerca dos mais diversos assuntos, que vão desde tratamentos para epilepsia até curiosidades arquitetônicas da cidade e reflexões sobre trechos bíblicos. É uma obra muito inteligente e recheada de referências à produção literária de Machado, assim como a personalidades importantes que viveram na sua época. Santiago realmente sabe trabalhar com as palavras e encantar o leitor com sua habilidade em lidar com os mais variados assuntos, enriquecendo a leitura com uma profunda pesquisa histórica. Há, no entanto, um problema. Ao mesmo tempo que encontrei capítulos interessantíssimos e que me fascinaram (!), sofri com algumas partes da obra, principalmente depois da metade da leitura. Há passagens muito extensas e prolixas que me desanimaram e, na minha opinião, não acrescentaram muito à obra.
No final, valeu a pena a leitura! Foi uma experiência diferente e que recomendo, principalmente para quem gosta do trabalho de Machado e tem interesse em saber mais sobre aspectos históricos e curiosidades de sua época!
Leitura fundamental para qualquer leitor admirador de Machado de Assis. Então, para todos, não é? Texto de elevado nível, uma mescla de romance, biografia e ensaio. Os amantes da literatura vão saborear o livro, desfrutar curiosidades do rio da virada do século XIX para o XX, conhecer aspectos dos últimos dias do bruxo do Cosme Velho, admirar a capacidade de análise literária e estética do autor. Jabuti mericido!
Riquíssimo. O trabalho de pesquisa de Santiago é extenso, o que gera reflexões instigantes e ligações entre temas apenas aparentemente díspares. As divagações, coincidências autodiagnosticadas por Santiago entre sua literatura e a de Machado, constituem momentos inspirados. A análise da Transfiguração, de Rafael, disfarçada de revisão de literatura, é de beleza rara.
3, 5 na verdade Esse livro me lembrou o quanto gosto de Machado de Assis. Mas não foi das leituras mais prazerosas, com uma escrita prolixa e cheio de voltas muitas vezes me senti perdida e tendo que reler páginas inteiras simplesmente porque não havia prestado atenção.