URBANO TAVARES RODRIGUES nasceu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1923 e passou a infância no Alentejo, próximo do Rio Ardila, perto de Moura. Licenciou-se em Filologia Românica, doutorando-se em 1984 com uma tese sobre Manuel Teixeira Gomes. Foi leitor de português em várias Universidades estrangeiras - Montpellier, Aix e Paris - entre os anos de 1949 e 1955, época em que se encontrava impedido de exercer docência universitária em Portugal por motivos políticos. Depois da Revolução de 1974 retomou, em Portugal, a actividade docente. Em 1993, jubilou-se como Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi membro efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. A sua vasta obra está traduzida em várias línguas. A sua ficção tem como característica principal a tomada de consciência do indivíduo face a si mesmo e aos outros, processo que se desenvolve até ao reconhecimento de uma identidade social e política. Foi distinguido com vários galardões literários: Ricardo Malheiros; Aquilino Ribeiro e Fernando Namora; Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários; Prémio da Imprensa Cultural; Prémio Vida Literária - atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Faleceu em Lisboa, a 9 de Agosto de 2013.
The novel in question tells the story of two brothers (Armênio and Irisalva) who, after the death of their parents, inherit the house where they live at the time of the narrative. Both, typically from Alentejo, develop a tense relationship with constant friction, even touching the limits of hatred.
“este livro é de uma maturidade extrema. A sua poesia é dificilmente traduzível, mas pelo menos é-nos transmitida em toda a sua economia dramática esta visão de um mundo condenado «profundamente impregnado do sentimento de dignidade e da liberdade do homem», e que se afirmou, segundo os termos de Luiz Francisco Rebello, de um rigor estilístico dificilmente igualável nas nossas letras contemporâneas.” Estas foram as palavras de Claude Michael Cluny escritas no prefácio.
Nesta obra, UTR conta-nos as suas memórias de um Alentejo profundo, um Alentejo em 1959, onde homens e mulheres lutavam pela dignidade e pela liberdade.
Enquanto os latifundiários viajavam pelo estrangeiro desperdiçando ouro, os Bastardos do Sol trabalhavam arduamente sob insultos e humilhações, para comer um prato de sopa no final de cada dia.
Esta é história de dois irmãos que se amam e que se odeiam. Após os pais terem morrido Arménio, veterinário, cuidou de sua irmã. Certo dia vem a saber, através dos mexericos de taberna, que sua irmã cedeu e um jovem, e andava nas bocas do mundo, louco de raiva decidiu procurar Delfino para uma conversa de pé de orelha.
A tristeza e o desgosto apoderaram-se de Irisalva e o ódio pelo irmão cresceu até não caber mais no seu coração, apenas lhe restava uma saída.
Esta narrativa dá-nos também conta da luta das mulheres, num país tão desigual. O papel da mulher submissa ao pai, ao irmão, ao marido.
As mulheres não são donas do seu corpo, como tal, também não podem usufruir dele para seu belo prazer. Às mulheres que se casam desvirginadas é legitimo que levem pancada do marido sempre que eles queiram, por isso que algumas, sendo renegadas, preferiam procurar refúgio nos conventos.
Uma história ficcional tendo por pano de fundo a realidade nua e crua da vivência de homens e mulheres de outros tempos, que oxalá não voltem.
Terceira obra que leio de Urbano Tavares Rodrigues e que está inserida no volume II das suas obras completas.
Regressamos ao Alentejo, a um ambiente duro, ressequido, com uma atmosfera carregada de miséria humana, de ressentimento, de azedume, de fel, mas que termina com uma migalha de esperança.
Bastardos do Sol narra a relação acutilante entre dois irmãos, Irisalva e Arménio, relação esta que endurece face à dominância masculina que Arménio exerce sobre a sua irmã, sob a forma de um controlo bruto e implacável. Num Alentejo em meados do século XX, a honra da família parecia advir da repressão da expressão feminina, onde tentativas de namorisco, ou a consumação de um amor sem a oficialização por casamento eram atos ignóbeis. Esta narrativa guia-nos através das angústias de Irisalva, uma mulher dependente e revoltada, e de Arménio, amargurado com as atitudes da irmã e com a sua própria bruteza, sem criar a expectativa de alguma mudança nesta família quebrada.
Não considero que seja um livro propício a leituras intermitentes, devido às suas construções frásicas mais arcaicas, que desprendem, nesse caso, o leitor da história. No entanto, um vocabulário rico prevalece ao longo do texto, entusiasmando o leitor com a sua qualidade de escrita.
Até à data, Urbano Tavares Rodrigues (UTR) tinha encontrado no conto, a sua expressão literária predilecta. É com Bastardos do Sol que se estreou no romance, em 1952.
Localizada no Baixo Alentejo, a acção deste romance orbita em torno do fatídico amor entre Irisalva e Delfino, brutalmente interrompido por Arménio, irmão de Irisalva. Esta procura na sua relação com Delfino um subterfúgio para escapar ao ascendente do irmão, caracterizado pela repressão psicológica que visa fechá-la no espaço familiar, eliminando a sua vontade própria. Porém esta relação mostra-se trágica pois Irisalva vê-se abandonada por Delfino. Contudo Arménio, num acto de extrema crueldade e selvajaria, tenta vingar a irmã desonrada, ferindo quase de morte o amante e acabando preso. Mas tal como se refere no romance: “assim era a vida, porca de vida, naquele povoado, não só em casa dele, mas por toda a parte, turva de recalques, alimentada por invídias cruéis e represálias escarninhas” (pág. 54).
Nesta obra, UTR mostra a sua solidariedade para com os filhos da miséria, unindo a graça pícara e a uma clara dimensão trágica, encontrando similaridades em Gogol ou Dostoievsky. Claude Michel Cluny, no prefácio à edição francesa mostra que “da realidade amarga em que o livro mergulha pelas suas raízes mais profundas e mais vigorosas eleva-se um cântico despojado que é o de uma universalidade” conseguindo o autor extravasar as fronteiras neo-realistas, sendo influenciado pelo noveau roman que então emergia. Essa influência é visível, sobretudo, na exímia caracterização psicológica das personagens.
Esta obra, segundo o próprio UTR, “ são os camponeses alentejanos, mas são também o Delfino e a Irisalva. Portanto, há uma busca de conciliar uma visão intimista, psicológica e uma relação do eu ao mundo com preocupações sociais cada vez mais fortes. Algo que coincide até certo ponto com alguns livros de neo-realistas como o Carlos de Oliveira e o Manuel da Fonseca” (in LOPES, João Marques, "Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues" in Navegações, Lisboa, Centro de Literatura e Culturas Lusófonas e Europeias, vol. 3, nº 1, 2010, pp. 96-98).
Em suma, este romance revela uma clara dimensão universal embora localizado num determinado ponto geográfico. As dúvidas, as incertezas e os desamores que assolam esta terra e estas gentes são um lugar-comum na essência humana, tão bem captada por UTR nestas páginas.
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NOTA: a edição utilizada nesta recensão crítica trata-se da 5ª, publicada pela Editorial Caminho, em 1982.
«Ficou só um castelo de cinza crepitando mansamente, num silêncio de redoma. Como era doloroso ver arder uma carta: era como se ardesse também alguma coisa, ainda alguma coisa, de quem a mandara!»
Nunca tinha lido nada deste autor e fiquei muito bem impressionada. Este volume contém o romance "Bastardos do Sol" e a novela "Os Pregos".
Em "Bastardos do Sol" temos um retrato do Portugal rural profundo, tendo por foco dois irmãos. A irmã está apaixonada, o irmão é violento e irascível. A partir daqui desenvolve-se uma trama que, sendo simples, está plena de significado. O significado do que é a figura feminina na época, o significado do que é a figura do homem rico na época. E a procura por uma vida diferente, nem sequer melhor, mas diferente, a fuga, o enfrentar das consequências. A narrativa é absolutamente viciante e muito vívida, conseguimos realmente situar-nos nas paisagens abrasadoras do Alentejo, e sentir tal como estes personagens sentem.
Em "Os Pregos", temos um relato da prisão, um manifesto do aborrecimento, do desespero, da tortura e do horror, pontuado pela dúvida da saudade, e pela dúvida da traição amorosa. Não gostei tanto desta novela como do texto anterior, mas ainda assim é um precioso relato.
O livro contém duas histórias ou novelas: a primeira que dá título ao livro, “Bastardos do Sol” (escrito em 1959) e “Os Pregos” (novela extraída do livro Estrada de Morrer – 1971). Em ambos os casos, pode dizer-se não existir uma trama propriamente complexa, no entanto, Urbano Tavares Rodrigues oferece-nos verdadeiros poemas em prosa. Contava despachar o livro num instante, mas a escrita poética surpreendeu-me ao impor um ritmo próprio da poesia, mais lento, uma prosa a baixa rotação. A crueza e autenticidade dos retratos aproxima-nos da dureza das vidas tratadas. As relações de poder e de submissão, a vontade de emancipação de Erisalva ou pelo menos a sua vontade de fugir da prisão em que vivia. A autenticidade dos retratos surge inclusive nas palavras, nas expressões e na linguagem utilizadas. Um livro muito poético, muito humano e, também por isso, muito duro. Amargo. Belo.
"O que está em causa, em Bastardos do Sol, é a própria dignidade do homem, e o sentido do seu devir. Porque aquilo que a ficção recobre, a revolta de Irisalva contra o irmão, é o antigo duelo da felicidade contra a lei, da vontade de viver oposta ao imobilismo patriarcal." (Prefácio de Claude Michel Cluny)
"Ficou só um castelo de cinza crepitando mansamente, num silêncio de redoma. Como era doloroso ver arder uma carta: era como se ardesse também alguma coisa, ainda alguma coisa, de quem a mandara!" (Bastardos do Sol - Capítulo 1)
"Assim era a vida, porca de vida, naquele povoado, não só em casa dele, mas por toda a parte, turva de recalques, alimentada por invídias cruéis e represálias escarninhas,(...)” (Bastardos do Sol - Capítulo 2)
"Mas é tudo tão intrincado e confuso no túnel da consciência! demasiado para se saber de quem se gosta afinal, quando e como." (Os Pregos [novela extraída de "Estrada de Morrer"])
Um dos livros escolhidos da parte de cima do móvel da estante da sala. Daqueles que ficam escondidos ao longo dos anos, à espera que alguém pegue neles. Assim o fiz
Confesso que no geral os escritores portugueses custam-me sempre mais a iniciar na leitura. Não lhe chamaria antipatia. Talvez em parte por estar escrito na língua materna e me custar mais a avaliar a obra. A escrita de U.T.R é bastante adjectivada e mais centralizada, mas não deixa de ter fluidez. A história reflete um drama familiar no Alentejo.
Смайващо силен сборник с разкази на един непознат автор от съвършено непознатата за мен португалска литература. Родригиш описва историите по смайващо истински начин, който те кара да потръпваш. В сжорника ще намерите междучовешки взаимоотношения, секс, насилие, прости ежедневни случки, любов, омраза и какво ли още не. Много, много приятно изненадан съм от този автор.
Pena ser tão curto. Um livro delicioso e escrito com muita mestria. Desconhecia este grande escritor português, bem como a sua história de vida. Não existem edições recentes de muitos dos seus livros - algo que não se compreende.
Urbano Tavares Rodrigues guia-nos neste cantar alentejano, feito de murmúrios. A secura da terra é também a secura das relações, o semear em solo infértil sem perder a esperança de colher o fruto. Depois vem o desapontamento e a amargura, que tanto nos conta.