CRÓNICAS RADIOFÓNICAS INÉDITAS ASSINALAM A DATA EM QUE FERNANDO ASSIS PACHECO FARIA 80 ANOS. Tinha apenas cinco minutos, numa crónica matinal de domingo para a Radiodifusão Portuguesa, entre 1977 e 1978. Mas eram cinco minutos em que Fernando Assis Pacheco conseguia falar do futebol de botões da sua infância, do dia em que se foi casar de bicicleta, lançar adivinhas, pensar um país onde só agora a luz eléctrica chegava a alguns sítios e deixar-se levar com o ouvinte pela «vida, a vida insidiosa e metediça, a vida piolho na costura, comichão na pele, assombração inesperada, sempre a electrizar-nos».
Algumas destas crónicas chegam ao livro directamente a partir do arquivo áudio da RDP, outras estavam dactilografadas, prontas para a leitura semanal, todas feitas com o mesmo cuidado aplicado pelo autor à prosa, à poesia ou ao trabalho nos jornais. E juntas vão celebrar e assinalar o dia em que, quase 40 anos depois de terem ido para o ar, Fernando Assis Pacheco faria 80 anos.
FERNANDO ASSIS PACHECO nasceu em Coimbra, a 1 de Fevereiro de 1937. Licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi poeta, ficcionista, jornalista e crítico. O avô paterno foi redactor da revista Vértice, circunstância que lhe permitiu privar de perto com Joaquim Namorado e outros poetas da sua geração como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos. Publicou o primeiro livro de poesia em Coimbra, em 1963: “Cuidar dos Vivos”, poesia de intervenção política, de luta contra a guerra colonial. O seu segundo livro de poesia “Câu Kiên: Um Resumo” (título vietnamita para escapar à censura fascista), foi publicado em 1972, mas conheceria a sua versão definitiva em “Katalabanza, Kiolo e Volta”, em 1976. No mesmo ano publicou “Siquer este refúgio”, também de poesia. Em 1978 publicou o livro de novelas “Walt ou o frio e o quente” e em 1980 “Memórias do Contencioso e outros poemas” que reuniu poemas publicados entre 1972 e 1980. Em 1987, mais um livro de poesia: “Variações em Sousa”. E outro em 1991: “A Musa Irregular”, onde reuniu toda a sua produção de poeta até esta data. Estreou-se no romance com “Trabalhos e paixões de Benito Prada: galego da província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida” em 1993. Morreu em Lisboa, com 58 anos, à porta da Livraria Bucholz em 1995.
historias menores contadas em prosa maior. relatos que transpiram ternura e solidariedade de uma pessoa de bem. tambem cronica mordaz. dois exemplos: "herdar os repentes da intolerancia é que é para se corrigir." "e logo em Coimbra, onde a gente passava o tempo a cumprimentar respeitosamente Suas Excelencias as nulidades lentaceas!"
Que saudades do Fernando... Estas crónicas permitem-nos voltar a um tempo pré-Europeu da nossa história e à recuperação de memórias de infância (não, não é desse tempo que se tem saudades... sim da escrita do Fernando...).
Este volume reúne crónicas radiofónicas lidas aos microfones aos domingos de manhã, em 1977 e 1978. Através delas chega-nos o ar do tempo, o rumor dos dias, desses dias já longínquos em que se tinham passado apenas três ou quatro anos desde o 25 de abril. Mas chega-nos sobretudo o olhar e as palavras de Assis Pacheco, o cronista, a sua bonomia e o seu bom-humor, uma particular atenção ao que é simples e pequeno, ao anónimo e insignificante. Muitas crónicas têm por objecto a infância e juventude do autor, passadas em Coimbra, e nunca a cidade e as suas gentes são tão belas e fascinantes como nestes textos. E chega-nos sobretudo a escrita de Assis Pacheco, rica, elegante, viva e criativa, irreverente e livre, e sempre perfeita como um mecanismo de relógio.