Tratam-se, aqui, de três ensaios de Paulo Freire, dois dos quais oriundos de falas em conferências e um proveniente de um artigo publicado na Harvard Educational Review. Por esse motivo, a compilação se torna um pouco repetitiva — o que, por se tratar de uma obra curta, não resulta em grande problema.
No prefácio à 1ª edição, Antônio Joaquim Severino sintetiza o fio condutor dos textos coligidos: “[…] a leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.” Por trás disso, o posicionamento firme de que a educação não é neutra — crer o contrário é ingenuidade; advogar o contrário, má-fé.
Assim, de minha parte, com a leitura desses ensaios, passei a enxergar a docência na engenharia muito mais próxima da atividade de alfabetização de adultos. De que adianta sabermos manipular equações se não soubermos o que elas significam? As implicações técnicas, econômicas, ambientais e sociais de seu emprego? Reina na engenharia uma espécie de analfabetismo funcional e que deve ser intensamente combatido.
Alfabetiza-se, portanto, para se ler a “palavramundo”, para agir com e sobre ela. E, se linguagem e realidade estão em constante mutação, alfabetizarmo-nos é um dever sempre por realizar, é um trabalho constante, inacabado e inacabável. É, também, um exercício de humildade aos professores, que devem seguir aprendendo. Afinal, “ninguém sabe tudo; ninguém tudo ignora.”