Pensei que estar com outra mulher traria Kitty de volta, que o ciúme a faria abrir-me de novo a porta do seu quarto. Contudo, duas semanas depois não me deixava lá entrar mais vezes do que antes.
Não gosto de pensar que sou um homem desesperado, mas não percebo porque é a minha mulher tão difícil. Dei-lhe uma vida boa, mas continua infeliz, embora não possa, ou não queira, dizer porquê.
É o suficiente para levar um homem a trocar de mulher, ainda que seja por uma noite.
É do domínio de um bom escritor transformar a história em estória sem ferir a sensibilidade estética do leitor, e eu, pelo menos, não me senti nada ofendida com esta interpretação (simbólica) de Chevalier daquele que é o fim da era vitoriana e o início de um novo século repleto de possibilidades (ou não) para todas aquelas mulheres que aspiravam a ter um lugar numa sociedade desenhada em função do homem e dominada pelo homem.
Entremeado de eventos verídicos ou, no mínimo, plausíveis, Quando os Anjos Caem é um romance muito bem conseguido sobre, é certo, a amizade de várias crianças, sobre as dores do crescimento e da perda, sobre o momento em que a realidade atinge cada um de nós e nos arranca dos nossos alicerces, mas cujo núcleo duro reside na força com que transmite uma mensagem que, desde que pela primeira vez foi passada, ainda não perdeu o seu valor: a defesa da igualdade de género.
- Uma menina precisa de aprender estas coisas. Como vai a costura dela?
-Não muito bem - respondeu francamente a mãe. - Herdou de mim a falta de jeito. Mas lê muito bem. Está a ler Sensibilidade e Bom Senso, não estás, Maude?
Acenei afirmativamente.
- E também Alice do Outro Lado do Espelho. O pai e eu recriámos o jogo de xadrez a partir dele.
- A ler! - A avó empertigou-se- Isso não leva a rapariga a lado nenhum. Só lhe mete ideias na cabeça. Sobretudo lixo, como o daqueles livros da Alice.
A mãe endireitou-se. Ela está sempre a ler.
-Que mal há em que as mulheres tenham ideias, mãe?
-Nada as satisfaz. Como a ti.(...)Queres sempre mais alguma coisa, embora nem tu saibas o quê.
Não será por isso de estranhar que, embora as relações entre as famílias Waterhouse (tradicionalista) e Coleman (mais progressista, ou talvez nem tanto assim) sejam um dos focos da narrativa, e a relação entre as filhas de ambas as famílias sirva de fio condutor da história, seja, na realidade, a transição de Kitty Coleman, de mulher de família a arreigada sufragista o evento que suscita maior interesse e perspetivas de análise em todo o livro.
Ligando a morte da rainha Vitória com o surgimento de um novo século, Chevalier faz despertar na sua anti-heroína desejos de uma vida de maior liberdade intelectual, física e espiritual. Para Kitty, a morte da rainha representa a morte de uma era em que a mulher está subordinada ao papel de mãe e esposa e essa rutura, sentida profundamente, irá ditar o seu comportamento futuro.
Não me atrevo a dizer a ninguém, senão sou acusada de traição, mas fiquei tremendamente animada quando soube que rainha tinha morrido. (...)A viragem do século foi uma simples alteração de números, mas agora vamos ter uma verdadeira mudança de chefia e não posso deixar de pensar que Eduardo é mais representativo de todos nós do que a sua mãe.
Kitty, como se verá, está disposta a pagar o seu preço pelo legado que terá a possibilidade de deixar, mas também pela missão, pelo sentimento de completude e propósito que a iniciativa lhe traz, uma mudança de comportamento que é tudo menos inofensiva, com ou sem morte da rainha.
Esse retrato do que era a mulher que sai de uma era de repressão está muito bem desenhado pela autora que recorre a figuras e eventos míticos da luta pela igualdade de género e pelo direito ao sufrágio, sobretudo porque não se fica por aí e vai mais longe procurando traçar as motivações pessoais, os desafios familiares, as pressões sociais e de classe e o embaraço institucional que cerceia a vida destas mulheres e de um movimento que era tudo menos pacífico para o sistema político, social e familiar estabelecido.
- Aprendeste a lição? - perguntou o pai.
A mãe franziu a testa.
- Que queres dizer com «lição»>?
- Basta. Quando saires podemos voltar à vida normal.
- Depende muito daquilo a que chamas normals.
O pai não respondeu.
- Estás a sugerir que desista da luta?
- Com certeza que não vais continuar.
- Pelo contrário, Richard, acho que a prisão foi a minha realização. É estranho, mas a tristeza transformou-me numa vara de ferro, «o que não me derrota torna-me mais forte»... Uma frase de Nietzsche, sabes?
- Leste demasiado. - disse o pai.
A mãe sorriu.
- Não pensavas assim quando me conheceste. Aliás, quando sair, vou ter muito mais que fazer e ler.
- Discutiremos isso quando voltares para casa. (...) Aqui não podes pensar convenientemente
-Não há nada a discutir. Já tomei a minha decisão. Não tens de te intrometer.
- Claro que tenho... Sou o teu marido!
A luta pelo direito ao sufrágio está assim vinculada à liberdade de pensamento, à liberdade sexual, à liberdade ideológica e de ação, e dela não se liberta nem pode libertar pois é neste emaranhado que se alicerça a missão destas mulheres que, como a fictícia Kitty, ofereceram a sua vida como penhor de tempos mais justos.
- Sinto-me importante - respondeu a mãe - porque talvez pela primeira vez na minha vida tenho uma tarefa, Richard. Estou a trabalhar! Posso não ser optimista como a
Caroline e Mrs. Pankhurst quanto a ver o sufrágio votado ainda durante a minha vida. Mas o nosso trabalho a isso conduzirá. A Maude beneficiará dos resultados, mesmo que eu não os veja.