Wachau, no outono. O Danúbio sob a névoa que um batelão torna mais espessa. E rápida. Os meus olhos. Na sua estação única. Há um nome distante e sem regresso: o verão. Esta é a pátria dos nomes sem regresso. Vai de Grein a Krems. De Melk a Mautern. Tem duas margens, três ou quatro pontes. E um rio perdido entre nascente e foz. : Depois de Castelo Branco, até à serra da Estrela. A pátria de uma das minhas infâncias. De metade de todos os meus nomes. Os da terra. Que proliferavam. Uma coisa era sempre nova. Um nome acrescentava a outro uma espécie de alegria. Dizê-los. Ligavam-se pelo olhar perguntador e formavam extensas frases. As mais extensas da vida. Gosto da memória da infância. De a escrever. Porque as palavras ainda não tinham encontrado a denúncia. Nem a traição. Avô, como se chama esta árvore? E esta pedra? E este bicho? E a palavra única surgia, da indiferença de todas as árvores, de todas as pedras, de todos os bichos. Um pássaro, de todos os pássaros. Entre a Gardunha e a Estrela, a pátria tinha o tamanho de uma casa, via-se onde começava e acabava, apanhávamos rãs nos seus ribeiros e cágados nos seus poços. Armávamos aos pássaros, sob as oliveiras. E ouvia-se a morte no som dos costilos a fecharem-se. Meus avós estavam parados na eternidade da velhice. E o tempo era uma repetição fulgurante.»
Escritor português e professor de Filosofia, Rui Nunes nascido em Novembro de 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa e enveredou pela actividade de escritor em paralelo com a de professor de Filosofia, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa. Na década de 60, passou pelos jornais, tendo visto censurados muitos dos trabalhos. Com muitas dificuldades, publicou o seu primeiro livro As Margens em 1968, tendo que suportar as despesas da edição. Contudo, a sua actividade literária só assume continuidade a partir de 1976, quando, depois de ter regressado da Austrália, em 1974, publica Sauromaquia. Imprimindo à sua escrita um discurso de características próprias, Rui Nunes não nega a influência de escritores que a vida lhe foi permitindo conhecer, nomeadamente Kafka. Temas como a dor, a doença e a morte são recorrentes nos seus livros. Porém, e apesar desta temática recorrente que flúi na sua obra, o autor assume o acto de escrita como uma forma de sublimar a dor e com preciosos e comprovados (por ele) poderes terapêuticos. Por isso, gosta e tem prazer em escrever. Leitor da obra de Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol e de José Saramago, entre outros. Rui Nunes aprecia também outros géneros artísticos, nomeadamente o cinema (Bergman) e a música (Barroca e Jazz), admitindo que estes podem suscitar-lhe o gosto pela escrita. Premiado, em 1992, com o Prémio do Pen Club Português de Ficção, atribuído ao seu livro Osculatriz, os seus novos títulos foram sempre, saudavelmente, apreciados pela crítica literária. Considerado por Manuel Frias, membro do Júri que atribuiu ao seu livro Grito, em 1998, o Prémio GPRN (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE)), "uma das estrelas mais brilhantes da constelação literária portuguesa - ocultada, tantas vezes pelas nuvens do fácil e do óbvio", Rui Nunes entende que o sucesso de um livro não se prende com a quantidade das vendas, mas sim com o "espaço de cumplicidade" entre autor e leitor que é capaz de criar.
«Estão sempre a recomeçar as palavras de qualquer fome. Estão sempre a recomeçar qualquer fome. Anónimas. Tornam anónimas todas as bocas. Todas as mãos. Todos os gestos. As palavras só prolongam palavras. Até ao túmulo. De um rosto»