A terra é de quem a possui ou de quem a trabalha? Debate antigo mas sempre actual a que Ivan Cankar, escritor e activista político do início do século XX, não ficou imune.
O Yerney trabalhou durante 40 longos anos. Deus abençoou o seu trabalho, que produziu frutos maravilhosos. De quem é a labuta, de quem são os frutos? Agora, diz-me: que lei humana é essa, que divinos mandamentos são esses, que eu nem sei onde descansar a cabeça, apesar de ter ceifado feno suficiente para fazer uma pilha tão alta como a montanha além? E não tenho nem uma côdea de pão, eu que enchi celeiros enormes com trigo.
Posto na rua após a morte do seu patrão, Yerney, um lavrador ingénuo e ignorante das leis mas com um forte sentido de moral e honra, parte em busca de alguém que lhe dê razão e o apoie, primeiro na sua aldeia, junto do presidente da câmara, do juiz local, de outros camponeses e até de um andarilho, homem vivido e sábio que tenta levá-lo a resignar-se.
Não discutas acerca de direitos e injustiça das leis dos homens e dos mandamentos de Deus. Já o fiz e olha: agora sou vagabundo e não tenho amigos. Tentei mostrar aos homens a injustiça do mundo e as suas leis; e chamando-me rebelde, empurraram-me para a rua. Engole a injustiça, Yerney, e nunca chames pelo seu nome.
É um conselho e uma profecia a que Yerney, na sua obstinação, não dá ouvidos. Parte, então, para Liubliana para pedir um parecer ao tribunal, onde a resposta é sempre a mesma e o leva a perder a cabeça, com repercussões inesperadas. E volta a encontrar pessoas mais desiludidas e cínicas que tentam demovê-lo da sua demanda.
Acredito perfeitamente que não roubaste; aquele que acredita na justiça nunca roubou nem matou. Mas, pouca sorte a tua, que, apesar de inocente, te cruzaste com a justiça! A justiça é uma senhora severa e exigente e não gosta que lutes contra a sua vontade.
Desesperado, decide pôr-se a caminho de Viena, primeiro a pé e depois de comboio, transporte em que nunca andara, para falar com o imperador.
Tendo recorrido a todas as instâncias, resta-lhe apelar ao topo da hierarquia.
Ficou acordado durante longo tempo... a conversar com Deus. Mas agora não falou com ele como um criado para o patrão; pelo contrário, falou como um credor para o devedor.
-Cumpre agora as Tuas promessas. Tu deste a justiça aos homens e elas esconderam-na. Não a recebi de polícias, nem de juízes, nem mesmo do Imperador.
Gostei bastante deste pequeno manifesto social com um desfecho apoteótico, o meu primeiro contacto com a literatura eslovena.
- Endoideceste, Yerney?
Yerney, fingindo não compreender, olhou fixamente para o orador.
- De que estás a falar? Eu não te perguntei nada acerca do meu espírito; perguntei-te acerca dos meus direitos. E imaginemos que eu era demente. (...) Até um doido tem os seus direitos!