Um interessante (e temporalmente apropriado) mergulho na formação de um extremista. Recheado de fontes e muito bem argumentado, o livro recorta um período da trajetória de Hitler para explorar como este se tornou a figura conhecida, na Munique de entre 1918, logo após a guerra, e 1924, durante sua prisão após o putsch de 1923.
O foco no contexto político alemão da época dificulta um pouco a leitura, mas o autor ainda é claro o suficiente para guiar o leitor pelos detalhes. Um alerta ao leitor: você não encontrará aqui muitos detalhes estritamente pessoais, ou da infância e juventude de Hitler, ou mesmo uma análise psicologizante dele. O foco, muito mais, é em Hitler como uma figura política. Ao mesmo tempo, o autor não cai em problemas comuns como meramente considerar o protagonista como um fruto de seu tempo, ou uma pessoa burra, mas sim como alguém simples, oportunista, que soube ler os momentos e foi um operador político astuto.
Embora o livro se refira especificamente à vida de Hitler, e o autor seja bem específico quanto à impossibilidade de colocar todos os autocratas no mesmo balde, lendo este livro em 2025, algumas relações com o momento político contemporâneo saltam aos olhos (certamente mais do que eu esperava antes da leitura):
- Um dos principais motivadores de Hitler era seu nacionalismo, mais do que o anti-semitismo, que se acoplou ao nacionalismo
- Anti-semitismo, aliás, que nunca veio sozinho. Estava aliado com o anti-bolchevismo, mas, principalmente, com um anti-capitalismo arraigado. Note-se também como o austríaco não inventou o anti-semitismo, mas o cooptou por múltiplos motivos: parar criar uma lente pela qual ler o mundo, e o desenvolvimento da Alemanha; para se diferenciar do resto do mercado da direita na Munique da época; para usar uma referência comum ao seu público. Embora tenha com certeza sido estratégico, se engana quem pensa que ele não era, pessoalmente, também terrivelmente antissemita.
- Hitler era lido por alguns de maneira simbólica, mas não literal, principalmente em relação ao seu anti-semitismo. Muitos acreditavam que ao falar dos judeus usava mais figuras de linguagem, embora, como o autor demonstre, seus planos genocidas já estavam claros desde o início da década de 20. Hitler foi uma das figuras responsáveis por direcionar esse pensamento metafórico a um antissemitismo radical, racial e biologizado.
- Era extremamente mentiroso, tendo uma carreira medíocre no exército, mas usando seus discursos e livros (principalmente Mein Kampf) para criar uma imagem idealizada de si. Soa familiar?
- Hitler se aproveitou da noção social de “gênio”, muito comum na Alemanha da época, que descrevia um individuo naturalmente bem capacitado para liderança, que não precisasse se esforçar para sê-lo. Embora não pudesse expor diretamente que era um gênio, conseguiu construir a imagem para comunicar essa ideia.
- Comunicação, aliás, que foi fundamental na sua gênese. O autor trata seu principal período de radicalização como os cursos de formação de lideranças de que participou em 2019, explicitando a importância da formação de base. Sua força se dava principalmente nos discursos, não na escrita. Seu principal trabalho no NSDAP era o de propagandista.
Novamente, autocratas vêm em diversas embalagens e sabores, mas essas características permitem uma leitura mais profunda do cenário político atual. Sobretudo, autocratas, dos mais radicais, podem se esconder facilmente à luz do dia.
Recomendado para quem quiser conhecer mais sobre uma figura ímpar e transtornada, mas sem mergulhar numa biografia completa, mais longa.