“Preciso que me escutem!”, é o que diz Medeia em sua primeira fala na peça. E entre expatriados e imigrantes, em estado febril, ela fala. Para e pelas mulheres — a síria, a cubana, a paulista, a judia, a haitiana —, suas cúmplices. À luz do mito de Medeia, somos convidados a visitar diferentes territórios numa reflexão sobre nosso tempo e suas fronteiras, criando um novo final para o mito.
Muitas vezes ler teatro me soa mais excitante que assistir o produto acabado. Se pudesse ver Mata Teu Pai eu certamente veria, mas dar a minha própria dimensão a loucura (lucidez!) da Medeia moderna de Grace Passô e Debora Lamm é um exercício muito interessante. Monólogo virulento sobre a violência e o feminino e tantas coisas mais, é um texto tão pequeno que impressiona por seu poder, de síntese e discurso. Impressiona inclusive pelo seu clamor de urgência, essa mulher precisa, ainda depois de tanto tempo se arrastando pela história, gritar para se fazer ser ouvida numa geografia e pontuação sentimental predominantemente masculina. Gritar e matar.
"Mata teu pai" é uma leitura contemporânea de Medeia, ou, antes, da energia da personagem clássica. Jogada na contemporaneidade, nos são apresentadas estâncias de um monólogo de uma mulher em febre, a exortar que outras mulheres a escutem - das suas filhas a outras refugiadas, suas vizinhas.
Séculos se passaram, mas o mapa e o território ainda são masculinos. Medeia é, antes de mais nada, a recusa e a resistência.
Os pequenos monólogos oscilam em qualidade literária: há imagens belíssimas, há passagens não tão inspiradas - mas o conjunto tem força. (Lembrando que eu só li a peça; infelizmente não vi a montagem). Tanto a cena de abertura quanto a cena final me parecem impactantes o suficiente para valer a leitura e o ingresso.
Acho que o livro faz uma releitura inusitada ao inicialmente focar na condição de imigrante da Medeia, algo que costuma passar batido, inclusive nas análises feitas da peça. A princípio, existe uma tessitura de sororidade entre a personagem e suas vizinhas estrangeiras, misturando as saudades que ela sente de casa com sua postura de auxílio às necessidades econômicas e aos impasses morais enfrentados por algumas vizinhas. Essa sororidade, aliás, é levada ao limite quando Medeia nomeia as mulheres da plateia de suas filhas e as convoca a matarem o pai.
Diferentemente de "A gota d'água", cuja construção é extremamente machista, Mata Teu Pai tira, inclusive, o foco na ira de Medeia contra Glauce, caracterizada como uma mulher negra e importante, que merece o seu reconhecimento. O foco agora é numa vingança contra o marido, o verdadeiro traidor. Gosto dessa intimação das mulheres a reagir, do envolvimento da própria plateia a tomar medidas drásticas para não se calar. Interessante também apontar o relato da atriz que interpreta medeia, Débora Lamm, quando observa que as mulheres da plateia têm ficado cada vez mais confortáveis em segurar o revólver fictício e o possível assassinato de Jasão. Foi um final, digamos, mais justo, pois nem os filhos, nem a nova esposa de Jason foram punidos. No entanto, acho que a peça original traz uma questão importante, pois, Medeia destrói tudo aquilo que era caro a Jasão, fazendo-o pagar na mesma moeda o que ele fizera: destitui-la de seu lar, que seria o maior bem da mulher, criada e limitada a ter esse único espaço de mínima autonomia.
A transição do tema da imigração meio solto na narrativa, embora tenha percebido que ela o tingiu de tons de sororidade feminina, da mulher como esse "segundo sexo", uma estrangeira na sociedade. No entanto, acho que esse tema não ficou bem integrado com o próprio conflito de Medeia com Jason, e as questões que parecem unir as mulheres a princípio ficam meio de lado e não são retomadas.
Interessante a loucura relatada da personagem e como ela usa do senso de justiça dela para explicar sua loucura. Achei muito forte a mensagem, principalmente, por trazer temas referente ao que se espera de uma mulher na sociedade e as diferenças de tratamento quando um homem faz o mesmo que ela.
Peça/performance viceral, que fala sobre o que é ser mulher na atualidade e desde sempre. Maravilhoso, mas deve ser muito bem pensando na hora de ser representado nos palcos. Grace Passô escreve brilhantemente.