"whatever happens
to the world around
show me your purpose
show me your source
even if the world
is Godless and in chaos
show me your anchor
show me your love
if there is hunger
if there is famine
show me your harvest
show me your resource
if life is bitter
everywhere snakes everywhere poison
show me your garden
show me your meadow
if the sun and the moon fall
if darkness rules the world
show me your light
show me your flame
if i have no mouth
or tongue to utter
words of your secrets
show me your fountain
i'll keep silence
how can i express
your life when mine
still is untold"
Whatever Happens
Rumi
(translated by Nader Khalili)
***
Mesmo não sendo uma pessoa religiosa, não posso esconder que a relação do indivíduo com o divino me interessa (seja ela mais ou menos harmoniosa); interessa-me o ser humano na sua solidão, procurando sentidos e respostas para as questões que o afligem — sejam elas triviais ou estruturantes. A poesia mística (e, sobretudo, a poesia sufi) acaba, no entanto, por me atrair por outro motivo: tal como o Budismo, o Sufismo pode ser encarado como uma Filosofia que qualquer pessoa, independentemente da sua religião, pode seguir e essa abertura e democratização de saber e de sentir é-me muito mais apelativo do que sistemas de ideias fechados em si (dogmáticos, castradores, limitadores da acção e do pensamento).
Do pouco que vou conhecendo da poesia mística (e ainda tenho tanto por descobrir), parece-me haver uma carga de sensualidade que só encontro na poesia erótica. O desejo da fusão do "eu" com algo que o transcende, a ideia da abnegação, o dirigir-se a uma entidade divina como quem se dirige a um amante: este êxtase apaixonado é tão ardente que as palavras do poeta se transformam em palavras de amor. E digo "amor" no sentido mais amplo e agregador possível: Eros, Psyche, amor erótico, sensual, fraterno, paterno, maternal, sexual, que tudo convoca e que tudo contém.
Outro aspecto que me seduz constantemente nesta poesia é a procura de um espaço interior onde se crie um deserto. Há uma solidão indizível na maioria destes poemas, mas de uma solidão que não se coaduna necessariamente com a dor, antes uma solidão necessária e apaziguadora: o caminho é feito individualmente, de dentro para fora, em silêncio, convocando a contemplação (de nós mesmos, dos outros, do mundo que nos envolve); a relação do indivíduo com a Natureza é naturalmente exaltada, sendo que esta se apresenta muitas vezes como um mestre que indica e aponta respostas.