Dos seis contos que compõem o livro, destaco dois: o primeiro, que lhe dá título, e "O nó estatístico".
Em "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho", Clio, musa da História, adormeceu por instantes e os fios da "tapeçaria milenar" que então tecia enlearam-se, originando momentânea desordem na cadência temporal. As datas de 4 de junho de 1148 e de 20 de setembro de 1984 confundiram-se, levando a que neste último ano, na Avenida Gago Coutinho, em Lisboa, surgisse, em plena hora de ponta, a tropa do almóada Ibn-el-Muftar, composta por cerca de dez mil homens, muitos deles a cavalo.
Ibn-el-Muftar preparava-se na ocasião para montar cerco a Lixbuna, tomada no ano anterior (1147) por "hordas de nazarenos odiosos". É vê-lo pasmado, mas nem por isso impressionado, ante os "objetos metálicos com rodas", de "cores faiscantes" e dirigidos por gente de roupagens estranhas e ar assarapantado. Já os automobilistas que entravam na avenida nessa amanhã não ganharam para o susto: seriam aqueles homens sanhudos, armados e montados a cavalo, figurantes de um filme ou anúncio publicitário?
Um chimpanzé criança de nome Golo é a personagem central do segundo conto, "O nó estatístico". Deixado aos cuidados de um jovem casal, Golo não é um chimpanzé que se limite a descascar amendoins e a fazer momices pela casa; Golo, pasme-se, é capaz de datilografar, e não apenas garatujos. No meio das letras ao acaso, Daniel e Catarina, o casal que o acolhera, descobrem, incrédulos, trechos de "Menina e Moça" de Bernardim Ribeiro. Sempre que atacava o teclado da máquina de escrever, o chimpanzé lá ia despejando o texto com uma precisão de vírgulas. De errado com Golo, segundo um professor de Matemática amigo do casal, nada haveria; tratar-se-ia tão somente de uma questão de estatística, um "nó estatístico", isto é, "o ponto em que se concentravam todas as probabilidades de um macaco algum dia escrever a "Menina e Moça". O "único caso, num universo de quatriliões de macacos, desde os tempos mais remotos(...)"
Morreu de pneumonia fulminante, o chimpanzé, não sem antes digitar o último trecho da novela pastoril.