Ia começar por dizer que, se tivessem de escolher um só volume deste díptico de Antonio Altarriba e Kim, aconselharia “A Asa Quebrada” sem pensar duas vezes, mas pensando duas vezes, creio que é preciso ler “A Arte de Voar”, a história do pai de Altarriba, para se poder apreciar verdadeiramente a história da mãe e para se perceber como esta é superior em conteúdo e no traço, sendo este muito mais amplo e expressivo, longe daquilo que apelido de desenhos à mitra e que tanto sucesso fazem (“Persépolis”, “Árabe do Futuro”).
Terminei “A Arte de Voar” extremamente irritada com a representação das mulheres na obra, pelo que foi com espanto que vi que Altarriba, alertado por uma leitora (claro) para o papel secundário da mãe, admitiu que tinha sido injusto, pelo menos, no retrato que tinha feito desta.
A figura da minha mãe não merecia o tratamento que lhe dei na BD, contraponto beato e frígido da trajectória épico-rebelde-trágica do meu pai. Parecia que estava ali só para o engrandecer a ele.
A trajectória do pai, combatente e vencido na Guerra Civil, o idealista que viu os seus sonhos políticos e sociais a esfumarem-se, pareceria muito mais apelativa para ser contada, enquanto a da mãe, aquela que toda a vida serviu, primeiro o pai, depois os patrões e por fim o marido e o filho, seria à primeira vista um pálido contraste. A verdade é que o percurso de Petra é o de muitas mulheres, sempre nos bastidores, a fazerem uma casa funcionar, a tratar das pequenas coisas do dia-a-dia sem alarido, a levarem a vida por diante, resignada e firmemente, por mais difícil que ela se revele. Petra é, de facto, uma protagonista que vale a pena conhecer e, através dela, vivemos também um episódio menos conhecido da história da Espanha franquista.
Não sonhou com altos voos, como o meu pai, nem de dispor do céu inteiro para o atravessar. Mais modestamente, com a sua asa quebrada, limitou-se a saltar de tronco em tronco. Pode ser que, dessa forma, tenha chegado mais longe.
Comigo sem dúvida que chegou.