Inspirado no conto Adolescendo Solar, de Luizan Pinheiro, o romance gráfico Castanha do Pará reconta, em forme de fábula, uma situação cada vez mais comum nos dias de hoje; Castanha é um menino-urubu que vive suas aventuras pelos cenários do tradicional mercado público Ver-o-Peso, em Belém. Mora sob o céu aberto e sobrevive dos furtos e das migalhas de atenção que sobram do mundo ao seu redor. O romance gráfico de estreia de Gidalti Moura Jr. abusa da expressividade na pintura para dar a vida a este conto urbano, criando uma visão lúdica e ritmada para a poesia da dura realidade.
Automaticamente quis começar tudo de novo. Incrível . A montagem do Gidalti é absolutamente interminável . É um livro que tudo acontece ao mesmo tempo com a velocidade que as suas trocas de páginas permitam .
A primeira coisa que você perceberá sobre Castanha do Pará é que ele é um livro lindo. A arte é estonteante.
Na primeira cena da história (caso a capa lhe escape), o personagem Castanha apanha de cinto, sendo golpeado diretamente no rosto. Logo, a segunda coisa que você perceberá é que o livro trata de violência. Violência parental, violência do Estado, violência no futebol, violência gerada pela pobreza, violência de todos os lados.
Muitas vezes, quando a arte se propõe a tratar de temas sociais importantes (como é o caso aqui), eu concordo e aplaudo a politik mas a arte em si acaba parecendo um panfleto, fica sem vida e esvaziada. Não é o caso. A história de Castanha do Pará é construída de forma muito interessante: Uma vizinha do menino chama a polícia para contar que ele está desaparecido, e vai narrando eventos de sua vida e de como o menino foi parar na rua. Ao mesmo tempo, vamos acompanhando essas cenas ilustradas por uma visão mais imparcial (sem a influência da narradora).
Castanha e seus amigos, ao contrário dos adultos, são antropomorfizados, metade humanos, metade animais, e o resultado disso na arte, na linguagem e na esfera interpretativa da história é esplêndido.
Castanha do Pará (2017), ambientado nos arredores do mercado Ver-o-Peso de Belém, é a interpretação em quadrinhos de um conto do paraense Luizan Pinheiro. O professor e quadrinista Gidalti Jr. trabalhou o conto em uma de suas aulas, gostou e resolveu tomá-lo como ponto de partida para um romance gráfico. Hoje, uma simples busca no Google revela que o conto inicial pouco aparece na mídia, exceto em referência à obra de Gidalti.
Castanha do Pará se passa em dois planos narrativos: de um lado, acompanhamos o relato convoluto de uma vizinha do menino Castanha para um policial que procura o menino; do outro, vemos fragmentos da vida de Castanha nas ruas. O que me chamou atenção na HQ foi a maneira como Gidalti articula um diálogo entre esses dois planos. Um exemplo é o da página 38. O policial, Seu Peixoto, tenta ouvir o jogo de futebol por um rádio emprestado da vizinha, Dona Iracema. Nas ilustrações propriamente ditas, vemos Castanha andando pelo mercado em um dia de sol, mas a cena é narrada perfeitamente pelo diálogo distanciado de Seu Peixoto e Dona Iracema que aparece em caixotes nas margens dos quadrinhos. “Parece que tava no sol quente o dia todo”, “se esquentar muito escangalha”, dizem sobre o rádio que não funciona. Enquanto isso, as ilustrações mostram o menino suando debaixo de um sol brilhando forte. “É [pilha] daquelas miúdas, sabe? Não aguenta nada.” Castanha, uma criança, segura a cabeça com as mãos, passando mal. “AM parece que fica fora do ar, seu Peixoto!” e o menino desmaia. Outro elemento interessante que perpassa todo o romance é o futebol: é dia de um grande jogo entre Remo e Paysandu. No plano da vizinha e o policial, isso aparece quando seu Peixoto pede o rádio para ouvir o jogo. E já na primeira descrição de Castanha, na página 12, Iracema o caracteriza para o policial dizendo que “Vive usando uma camisa do remo. Toda velha”.
Ao longo do romance, o futebol aparece em uma espécie de delírio de Castanha, quando ele desmaia, e também depois em uma brincadeira do menino na chuva. Assim, a temática do futebol funciona como fio que aproxima os dois planos narrativos. Além disso, os vendedores na feira se vestem também com camisas de times diversos, e ao fim, Castanha é chamado para um bar para uma aposta justamente por ser torcedor do Remo. Assim, o futebol também aproxima o menino de rua dos adultos que o cercam e desprezam. Mostra que no fim do dia, ainda que não percebam, são todos humanos e semelhantes.
As crianças com cabeças de animais pareceram uma referência a Maus. Achei que funcionou.
Uma coisa que não ficou completamente clara para mim foi o título, relacionado à cena do homem assistindo jornal na TV. Criativo, mas não entendi exatamente o por quê.
Não é bem meu estilo, pois se trata, de grande parte do quadrinho, da história de um menino pobre.
No geral, apesar da minha crítica ao tema meio "clichê", tem a parte técnica muito boa: ótimos desenhos, ótima progressão de história e, principalmente, diálogos com regionalismos espetaculares.
Aprendi uma nova gama de palavras populares exatamente por causa desse quadrinho. Fenomenal quanto a isso.
Minha grande crítica: faltou arriscar mais! Porém, é um autor que merece ser seguido!
Não à toa, Castanha-do-pará ganhou o prêmio Jabuti de quadrinhos em 2017. Com uma arte incrível, Gidalti faz uma crítica sensacional a realidade paraense. Não teve como não se emocionar com as expressões e locais utilizados para compor a história.
Há uma reflorescência do quadrinho nacional acontecendo. Um novo iluminismo artístico que quem segue e está ligado está a par e curtindo muito. Descobri a pouco e estou correndo atrás do tempo (obras) perdidas. Uma das estrelas desse novo ápice da contracultura nacional é o Guildalti Jr., diretamente de Belém, com seu premiado HQ Castanha do Pará. Como as outras histórias desenhadas nacionais que se destacam na atualidade, lida com temas sociais, desta vez, no norte do Brasil. História tocante, triste, acompanhada por uma arte (aquarela) de primeira. Recomendo muito.
Una novela gráfica que retrata la crudeza con la que son tratados muchos niños en Latinoamérica y el mundo, sin tener en cuenta las difíciles condiciones que deben afrontar.
Una muestra de la influencia de los prejuicios en el desarrollo de una persona, y de la realidad de miles de familias que han sido marcadas por la violencia de sus miembros.
Duro, descarnado, real, con una buena ilustración. Una historia muy común al tercer mundo, muy triste, muy cotidiana, por desgracia. La elección del gallinazo, y el resto de animales, para identificar a estos adolescentes resulta muy acertada.
Castanha reflete a realidade de muitas crianças, adolescentes e jovens vagando pelas ruas de todo o Brasil, pelos mais diversos motivos pessoais e/ou familiares. Castanha é o típico estorvo social. Sem ter tido uma verdadeira educação ou base familiar e por conviver muito tempo com a violência doméstica, sua maneira de reagir ao mundo é através do ódio e da violência. E mesmo assim, percebemos que os sonhos e as brincadeiras de criança ainda estão dentro dele, conseguindo vir à tona em uma das cenas mais bonitas e ao mesmo tempo mais tristes de todo o quadrinho, que é o momento onde o vemos brincar na chuva. A (semi?) fábula que é Castanha do Pará mostra-se uma realista e terrível fotografia social e uma reflexão sobre o abandono e sobre a perdição de uma vida. Uma caminhada pelo centro de qualquer grande cidade nos mostrará algumas dezenas de meninos iguais a Castanha: famintos, cometendo pequenos crimes, arrumando brigas, entrando no mundo das drogas, se ferindo e muitas vezes também ferindo outras pessoas. E a narrativa de Gidalti Jr. torna isso ainda mais próximo de nós, pelo vocabulário que ele utiliza (com gírias, expressões e flexões típicas de Belém).
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