Já imaginou ler um livro de moda e auto-ajuda idealizado por Pasolini ou Sade? Já imaginou ver uma espécie de fusão entre Charles Manson com Gisele Bündchen?
Glitter é tudo isso.
Bruno Ribeiro, autor do conto premiado no Brasil em Prosa "A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero" nos apresenta uma visão delirante e violenta da indústria da moda com "Glitter".
Guilherme de Boaventura, um estilista e escritor, contrata vinte modelos problemáticas para conceber o La Poésie Vivant, um desfile kamikaze. As modelos se exilam em um shopping por um ano e no final deste exílio, elas desfilam e se matam na frente de uma plateia fashionista.
Texto de orelha do livro por Ricardo Lísias:
"Fazia bastante tempo que eu procurava um romance vigoroso e radical sobre a frivolidade que alguns setores da cultura contemporânea se tornaram. "Glitter" mostra com sarcasmo e força narrativa como o tal “mundo da moda” se aproxima da morte. É um livro sobre pessoas que acham que vão entrar para a história, mas estão apenas abreviando seu desfile rumo ao cemitério.
Com Tom Wolfe, autor de "A Fogueira das Vaidades", Bruno Ribeiro aprendeu a descrição precisa e surpreendente. Nenhum detalhe fica de fora. O leitor também vai encontrar o rigor histórico, cheio de imagens fortes, de Luchino Visconti e a observação crua das perversões que fez do nosso Nelson Rodrigues um dos maiores escritores do século passado. De bastante original, "Glitter" tem uma análise refinada e cheia de nuances do discurso conservador que aos poucos foi se entranhando na nossa realidade e a tranquilidade com que transita nos vários gêneros.
Outra marca forte do livro é o tom impiedoso da narrativa. Apesar dele, porém, nada é exagerado: qualquer um que já esteve em um desfile de moda sabe que tudo é demais, sobretudo a artificialidade dos rostos, a irreverência falsa e mal disfarçada de todo mundo ali e a pulsão de morte que domina o espetáculo.
"Glitter" deixa o leitor atônito, por fim, porque junta tudo isso em uma narrativa fluida, inteligente e muito crítica. Não é fácil achar um romance assim por aí."
Bruno Ribeiro (1989), nasceu em Pouso Alegre/MG e é radicado em Campina Grande/PB. Escritor, tradutor e roteirista. Autor do livro de contos Arranhando Paredes (Bartlebee, 2014), traduzido para o espanhol pela editora argentina Outsider, e dos romances Febre de Enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2018 / Finalista da 1° edição do Prêmio Kindle e Menção Honrosa do 1° Prêmio Mix Literário de Literatura LGBTQI+), Zumbis (Enclave, 2019) e Bartolomeu (Autopublicação, 2019). Mestre em Escrita Criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF), venceu o Prêmio Todavia de Não Ficção com o projeto de um livro-reportagem sobre um feminicídio no agreste paraibano. Foi também semifinalista do 3º prêmio Aberst de Literatura e um dos vencedores do concurso Brasil em Prosa, promovido pelo jornal O Globo e pela Amazon, com o conto “A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero”. Edita o blogue: brunoribeiroblog.wordpress.com
“[Bruno Ribeiro é] um Nelson Rodrigues contemporâneo, com mais virulência e menos pudor para o macabro.” (Marcus Lima Martins)
“Tinha jurado para mim mesmo nunca mais ler uma narrativa sobre um escritor em conflito com o mundo ou com bloqueio criativo, mas não contava com Bruno Ribeiro, o príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante.” (Alfredo Monte)
“(…) Glitter deixa o leitor atônito, por fim, porque junta tudo isso em uma narrativa fluida, inteligente e muito crítica. Não é fácil achar um romance assim por aí.” (Ricardo Lísias)
"(...) Bruno Ribeiro se consolida como importante nome do meio literário por sua percepção crítica e pela capacidade de apurar a banalização da morte e a mercantilização dos corpos que, infelizmente, caracterizam o comportamento da sociedade pós-moderna, transformando-as em matéria para sua literatura tóxica, denunciativa e potente.” (Literatamy)
“Bruno sabe como deixar o leitor desconfortável, mas também sabe fazê-lo rir (ou de nervoso, ou de alívio). Eu mesmo ri até ficar com dor nas costelas (de nervoso e de alívio). Quem gosta de humor negro não pode deixar passar.” (Roberto Denser)
"A literatura de Bruno Ribeiro vem para nos dizer isso mesmo: escrever será impossível, mas também inevitável. Essa é a magia. Sem essa batalha, não haverá literatura." (Mariana Travacio)
O mito de Fausto parece ser central na obra de Bruno Ribeiro. Se, em "Febre de Enxofre", temos o poeta e dj Manuel di Paula aliciando o colega Yuri Quirino a segui-lo até a Argentina, a fim de escrever sua biografia, em "Glitter", temos o artista performático Guilherme Boaventura, idealizador do La Poésie Vivant, cooptando um séquito de modelos, produtores e estagiários em sua obra suicida: um misto de desfile de moda, sarau e reality show no qual as participantes, confinadas num shopping center fechado especialmente para a ocasião, desfilam numa passarela perante o público, declamam seus poemas e se autoflagelam num autêntico banho de sangue. Boaventura é esta figura a princípio ausente, que paira no depoimento de três sujeitos de sua loucura: Viddi, seu braço direito, um produtor egocêntrico e mau caráter; Eva, uma ubermodel, figura influente no círculo de modelos de La Poésie Vivant; e Lana, o estereótipo da modelo de carreira, vinda do interior, com grandes aspirações, confrontada pela nem um pouco glamourosa indústria do glamour. Nesta espiral verborrágica, Bruno se alterna entre a crítica ao status quo da moda (há frases emblemáticas: "A moda é um cadáver que ri", "A morte não é a melhor metáfora da eternidade?") e à própria sociedade do espetáculo, na qual ser não é mais ter: é mostrar, e sobretudo aparecer - e ele não nos poupa de toda a horripilância e escatologia que há por trás dessa capa reluzente de maquiagem e de flashes. Ocorre que, em certo momento, esta crítica acaba ficando um tanto repisada, e a apoteose do La Poésie Vivant, que poderia funcionar como o grande clímax, o ponto alto deste espetáculo que vemos ser construído a partir das lembranças do produtor e das modelos, acaba perdendo sua força - já que a performance é dada logo no início, e os desdobramentos acabam ficando a cargo do "segredo" de Eva e das histórias de personagens incidentais que são introduzidas a partir dos poemas (que têm a dupla função de apresentar as outras modelos e atuar como um "respiro" em meio às divagações alucinadas de Viddi, Eva e Lana).
"Glitter", com toda certeza, não era o que eu esperava. Partindo apenas da sinopse muito breve que havia lido anteriormente, eu não imaginava que iria me deparar com uma decadência pútrida tão fora de qualquer controle - além, é claro, do controle notável do autor sobre a narrativa. Fica nítido durante a leitura que Bruno sabe desenvolver uma história e, principalmente, personagens marcantes para integrá-la, revisitando clichês e fazendo deles algo memorável (o que chega a soar quase metaficcional, já que é exatamente esse o desejo de todas as figuras que permeiam "Glitter": tornarem-se memoráveis). Um livro essencial para quem busca conhecer mais do lado grotesco e bizarro-em-cima-de-mais-bizarro da literatura brasileira contemporânea.