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Os Canibais

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— De que servem, continua ela, de que servem certos enigmas, que inventa quando me fala, como se quisesse martirizar-me? Depende de mim a sua felicidade? Venha recebê-la, que é toda sua. Não imagine então distâncias, nem dificuldades, que eu tenho coragem para me mostrar ao clarão dessas luzes, em frente de quantos aí têm lábios para o sarcasmo, ainda que o rubor haja de me queimar as faces, para dizer — aqui me tem, pertenço-lhe.
— Impossível.
— Impossível!
— O cego adivinha as maravilhas da natureza e adora-as, mas sem poder contemplá las. Eu sou como o cego, Margarida; adoro-a, sem poder mais nada.
— Quer matar-me?
— Quero-lhe muito para a deixar numa vida de quimeras.
— Então que quimeras são?… Fale. Não vê que estou aflita?
— Resume-se tudo numa palavra, que teria a gravidade da situação, se não fosse consagrada pelo abuso ao desenlace de colisões romanescas. Essa palavra é…
— Diga-a.
— Mistério.

46 pages, ebook

First published January 1, 1866

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About the author

Álvaro do Carvalhal

12 books1 follower

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3 (3%)
Displaying 1 - 20 of 20 reviews
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
July 20, 2017
Álvaro do Carvalhal (1844-1868) morreu aos 24 anos de um aneurisma. Os Canibais é o seu conto mais conhecido e serviu de inspiração para um filme de Manoel de Oliveira, com o mesmo título. A prosa não é de fácil interiorização como se pode constatar no exemplo seguinte:
“… supunha o mancebo utopia a pudica resistência numa mulher; supunha-a flexível a seus carinhos como a junça ondulante ao sopro morno dos ventos. Margarida, porém, incumbiu-se de vingar o afrontado sexo. Com o desdém assanhara a vaidade do mancebo, e infiltrara-lhe no peito, vazio de crenças, o mais perigoso dos sentimentos — o amor capricho, que, à maneira da ebulição, põe em alvoroço as fezes adormecidas no fundo esterquilínio das humanas paixões.”

O conto vale pelo enredo, que é do melhor humor negro que já li. Cruel, grotesco, assustadoramente hilariante.


A leitura d’Os Canibais libertou-me de um pequenino e traumático problema, que passo a relatar. Alerto, no entanto, para a necessidade de revelar partes do enredo do conto, sem as quais o episódio – sem qualquer interesse (alerta 2) - de que fui protagonista não pode ser compreendido.
Em 1988, assisti ao meu primeiro (e último) filme de Manoel de Oliveira – Os Canibais. Trata-se de um filme-ópera, o que muito me entusiasmou por reunir duas artes do meu agrado. A sala estava cheia mas, durante a primeira hora, muitos espectadores abandonaram a sessão (incluindo o que me acompanhava); ficaram os eruditos e sensíveis (onde eu tinha a presunção de me incluir).
A história começa num baile da alta sociedade; onde se encontram a bela Margarida, o misterioso visconde Henrique de Aveleda, e Don João, cuja pretensão ao amor da jovem é desprezada a favor do obscuro visconde.
Na noite de núpcias, Henrique sofre, lamenta-se das suas “leprosas e sangrentas chagas…” e, sempre cantarolando, decide acabar com a vida “já te mostrei o veneno que escolhi. Deixar-te-ei viúva e virgem, e rica, muito rica.”

Na penumbra da sala de cinema, o meu coração estremece de emoção…
E eis que, subitamente, os braços, as pernas, os dentes do visconde tombam pelo tapete e o pobre, somente cabeça, tronco e cotos, jaz numa poltrona.
E eu comecei a rir…
A noiva, espavorida, escapou pela janela (que era alta).
E eu sem conseguir parar de rir…
Henrique, com alguma dificuldade, porque já despido das próteses, rolou para o fogo da lareira, e começou a assar - sem um pio, sequer…
Explodi em gargalhadas incontroláveis e pirei-me da sala antes que os chorosos espectadores me trucidassem pela minha insensibilidade e falta de erudição.
Como saí antes do fim, nunca soube como terminava a história. Hoje, ao ler o conto de Carvalhal, fiquei a perceber duas coisas 1) o título, 2) o meu riso (ainda bem que não vi o fim do filme). O que nunca irei compreender é porque no cinema aquela gente fungava tanto. Estariam todos a chorar a rir?
Profile Image for Jujuba.
156 reviews
April 30, 2021
(3,5)
Comecei a leitura com poucas expectativas, visto que não tenho me dado tão bem com os exemplares do romance lusitano. (LP, por que choras?) Contudo, fui surpreendida com uma narrativa intrigante. A escrita é, ainda que levemente lírica, concisa (o que é lindo pra uma beletriste completamente atolada por leituras). Para além da metalinguagem- o contar sobre a escrita do conto, que é também feito de forma agradável-, a narrativa é construída pela união magnética de temas comumente opostos: o sombrio e o cômico. O autor conseguiu fundir muito bem a uma história de horror grotesco a inscrição cirúrgica da ironia e da crítica aos costumes. Além disso e como consequência, é claramente possível destacar a obra como um exemplar da transição romântica à fase realista.
Não dou 4 estrelas completas porque, para tanto, a história teria de me tocar de algum modo (é uma maneira de classificação pessoal), o que não ocorreu (já que não há tanta carga psicológica e emocional como eu gosto shs). Mas, devo dizer, superou o esperado. (Valeu, Helder!)
Profile Image for Vanessa.
147 reviews3 followers
May 7, 2021
Horrível. Belo. Intrigante. Triste. Genial.
Completamente surpreendida pelo desenrolar da história, totalmente extasiada com a maneira como o autor trabalhou a metalinguagem e profundamente feliz com a fluidez da leitura.
Profile Image for Fantasymundo.
408 reviews65 followers
September 14, 2015
La recuperación de uno de los cuentos más representativos de Álvaro do Carvalhal nos abre los ojos ante la historia del fantástico ibérico, al tiempo que supone una mirada a cómo las sociedades peninsulares del s. XIX afrontaban el profundo cambio social que tantos fenómenos políticos de trascendencia causaría Seguir leyendo
701 reviews78 followers
May 30, 2015
Relato de los pocos que pudo escribir su autor. Se trata de un cuento sarcástico y grotesco, que tiene más en cuenta los precedentes románticos que las referencias a Poe. Muy meta literario, quizás involuntariamente, el relato de los hechos queda diluido en todo ese entramado.
Profile Image for David.
1,690 reviews
January 5, 2024
“Rien n’est beau que le vrai” Boileau

Nothing is beautiful but the real. But what really is real? Beauty? Or how about something wicked comes this way?

Álvaro do Carvalhal was a young man when he wrote this “dark” side of high society. You know the story, a beautiful girl Margarida loves to go to those fancy balls. Good food, good wine, lots of dancing, and plenty of available young men. All eyes were on the elegant, handsome and very mysterious Visconde de Aveleda. In particular Margarida. The Visconde was aloof and hard to catch. Also filthy rich.

Dom João had his eyes on Margarida. He loved wine, women and money but was not so good with women. He liked her a lot. Too much. He spied on Margarida and the Visconde in the garden, kissing under the tree. João’s jealousy got the worst of him. He made a threat, “marry the Visconde and I will kill him.” Not too subtle, was he?

Very quickly the book falls into a gothic horror. Think Edgar Allen Poe. Mutilated bodies, cannibalism and lots of treachery. Dom João really shows his dark side. Of course, the ending has a catch.

Carvalhal died of an aneurysm at the age of 24 in 1868.
Profile Image for Priscilla.
1,929 reviews16 followers
January 4, 2023
Não é desconhecido o fato de que autores lusitanos adoram escancarar a alma do povo português e reproduzí-la da forma mais honesta (e tragicômica) possível. Embora seja um conto gótico, com os amores fadados e o clima de terror, é fácil relacioná-lo com outra obra improvável: Tito Andrônico.

Em ambas, famílias são despedeçadas por valores sociais-governamentais e uma jovem é destroçada física e emocionalmente falando. Deixarei de me referir ao final mesmo o tal sendo bem previsível pelo título.

Apesar de todo o horror que a história evoca, Carvalhal se esmera no humor negro como se quisesse arrancar do leitor risadas politicamente incorretas ao mesmo tempo que o choca com o tema.

É uma leitura diferente que pode ser aproveitada mesmo por quem nunca leu Shakespeare.
Profile Image for Víctor.
229 reviews8 followers
December 17, 2018
Fantástica (en varios sentidos) novela de un autor que desconocía completamente y que sí recuerda, en lo macabro al menos, historias leídas de autores como Poe. Un desenlace tan trágico como cómico y una interesante forma de incorporar la voz del narrador.
Profile Image for Nadia Valero.
42 reviews8 followers
July 20, 2020
a mí me ha gustado bastante, puede que la voz del narrador en el relato no sea del agrado de todo el mundo, a mí me hace gracia el "yo, aprovechando mis privilegios de narrador, me río entre bastidores".
21 reviews3 followers
January 29, 2024
É um livro que requer uma determinada concentração para que se perceba bem o português, visto ser um português antigo. É bom, mas em geral eu prefiro livros compridos que me agarrem e tenho um início, meio e fim, com explicações das personagens mais detalhadas
Profile Image for Panicador.
14 reviews
April 17, 2019
I would say it could pass as Poe story or even one of the random Lovecraft tales.
As a Portuguese author, Carvalhal is one of the few that ave ever dared writing horror fiction.
Profile Image for John Alvarez.
169 reviews2 followers
June 13, 2021
No me creo fue escrita en el siglo 19. El narrador es bakan y la idea de novela vs cuento es genial.
Profile Image for Juan Jiménez García.
243 reviews45 followers
June 17, 2014
Álvaro do Carvalhal. Efímeros encantos

Álvaro do Carvahal no vivió mucho. Escritor efímero, muere apenas cumplidos los 24 años. Ni tan siquiera pudo ver recogidos en un único libro sus cuentos, trabajo al que se dedicó cuando tuvo la certeza de que ya no le quedaba mucho. Sus cuentos: seis cuentos. De él, pues, no hay mucho que contar. Simplemente vivió lo suficiente para dejarnos al menos una obra inmortal, uno de aquellos relatos: Los caníbales. Hay dos cosas seguramente innegables: el buen gusto del nada efímero Manoel de Oliveira para elegir los libros en los que basa tantas de sus películas, y el buen gusto de Ardicia para encontrar todo aquellos que habíamos perdido allá entre finales del siglo XIX y principios del siglo XX. Que ahora veamos aparecer en su edición la obra que aquel llevó al cine, solo puede querer decir que estamos frente a algo muy especial.

¿Lo estamos? Sí, claro, lo estamos.

Los caníbales es un largo relato de amor y de horror. Si unimos este último con el humor, el resultado es lo grotesco (ver las palabras iniciales de Fernando Iwasaki). Y ahí es donde se instala nuestro joven escritor portugués. Ahí y en todos sus referentes, que son muchos y variados, pero que andarían buena parte de ellos por el género fantástico que se cultivaba por aquellos años y que podemos resumir en dos nombres: E.T.A. Hoffmann y Edgar Allan Poe. Álvaro do Carvahal no oculta nada ni se desliga de nadie. Al contrario. Aquí, el narrador no deja de ser un actor más del drama, un observador irónico, si se quiere, un tipo que observa la fiesta desde una esquina del salón. Su preocupación es contarnos la verdad, porque como dice citando a Boileau, nada es más bello que la verdad. Y desde esa primera nota de humor negro, se ocupará de acompañarnos con sus apuntes, no solo sobre esa realidad de la historia, sino también sobra la suya como escritor enfrentado a ella.

La historia podría ser sencilla. Una farsa. Margarida, mujer fatal (sin especial práctica), se enamora perdidamente de un personaje muy especial, el vizconde de Aveleda (con un cierto parecido, dicen, con la estatua del comendador). Quien dice esto (lo del parecido con la estatua) es don João, que no solo es un don Juan de nombre sino de espíritu. Por supuesto, está perdidamente enamorado de Margarida. Y además, no tiene buen perder. Y más frente a un hombre tan, tan… extraño. Un hombre extraño que además se reconoce extraño. Un misterio, como él mismo dice. Pero el amor de la muchacha no conoce inconvenientes. Le daría igual todo. Sea lo que sea. Bueno, eso se dice.

Manoel de Oliveira adaptó este relato con forma de ópera, y seguramente no andaba especialmente desencaminado. Todo en este relato tiene algo de desmesura, de esa desmesura necesaria para lo grotesco, avanzando hacia su delirante final, muy instructivo con respecto al sentido práctico de la nobleza. Do Carvalhal tiene la juvenil habilidad y la frescura de quien está descubriendo todo, también el regocijo de la escritura. Desde aquel rincón en la fiesta, sonríe, y tal vez piensa, como escritor efímero, en el destino como motor de las cosas. En lo ridículo que puede ser lo sublime, y lo sublime que puede ser lo ridículo. Ahora diríamos que tiene algo de surrealista, pero como aún no había llegado André Breton para inventar la palabra, pues no lo decimos. Igual es que el surrealismo fue otra manera de llamar a cosas que ya existían. Puede ser.

Escrito para Détour.
Displaying 1 - 20 of 20 reviews

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