O quarto romance do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro” Tiros na noite e um crime: são misteriosas as circunstâncias que envolvem o assassinato de Domitila, filha do coronel Chico Eugênio, dentro da chácara da família no Catumbi. A investigação fica a cargo do detetive Tito Gualberto, primo da vítima e hábil capoeira, que tentará completar o quebra-cabeça do crime. De tão real, a ficção de Mussa encontra sua crônica familiar numa ponta da história. Os muitos suspeitos do crime vão sendo revelados aos poucos, levando o leitor num redemoinho que confunde, aprisiona e inquieta. “A hipótese humana” é o quarto romance do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de romances policiais, um para cada século da história carioca, já composta por O trono da rainha Jinga, A primeira história do mundo e O senhor do lado esquerdo. Utilizando-se com primor da paisagem geográfica do Rio do século XIX e unindo mitologia indígena e africana para criar um cenário mítico tipicamente brasileiro, Alberto Mussa comprova a sua tese de que uma cidade não se define pelo temperamento de seu povo ou pela sua cultura, mas pela história de seus crimes.
Born in Rio de Janeiro in 1961, Alberto Mussa studied mathematics and percussion before dedicating himself to linguistics. After obtaining a Masters degree from UFRJ with a thesis on African languages in Brazil, Mussa worked as a teacher and authored a dictionary then published his first novel, Elegbara, in 1997, followed by O trono da rainha Jinga (1999), which won the National Library prize. O enigma de Qaf (2004) was awarded the Casa de las Américas APCA prize. He has translated stories by African and Arabic storytellers for the magazine Ficções, and a collection of pre-Islamic poems Os poemas suspensos, not yet published.
Mais simples que os anteriores, com uma ambientação mais fácil de visualizar pela proximidade histórica, pelo menos para quem é do Rio de Janeiro. As informações sobre nações africanas e capoeiras dá um toque extra bem legal. Colocaria em algum ponto entre "A primeira história do mundo" e "O senhor do lado esquerdo".
Um romance policial de assunto histórico, segundo o próprio escritor. Rio de Janeiro, século XIX. Um crime não solucionado, e um desfecho um pouco óbvio. Em A Hipótese Humana, o quarto livro do compêndio mítico sobre os séculos da história do Rio. De fato, mítico. Não li os três livros anteriores, mas neste o mito está bem presente. Assim como as crenças e rituais místicos daquela época. Domitila, filha do coronel Francisco Eugênio, é encontrada morta em seu quarto. Mas sabemos que Tito Gualberto lá esteve antes do assassinato (?) da sua prima, e amante. O coronel escuta barulhos vindos do quarto provisório da filha, situado no térreo ao lado da biblioteca, e adentra-o tarde demais, pois só vê um vulto além da janela e dispara contra quem quer que seja. O detetive, ou investigador, como você queira chamar, é o próprio Tito, amante da vítima. Suspeita primeiramente do marido de Domitila, Zé Higino. Mas tudo parece muito confuso, e o caso mostra ser bem mais complexo do que se imagina.
O narrador, não se sabe quem, mas que sabe de tudo e conhece a todos, explica ao leitor fatos e curiosidades de um Rio há muito distante. Discorre sobre as diferenças entre os escravos, como, por exemplo, suas religiões, fraternidades e nacionalidades. Conta um pouco sobre a história dos principais locais da trama, além de falar sobre algumas lendas e mitos daquela época. Voltando ao investigador do crime, Tito trabalha para o que o hoje nós chamamos de serviço secreto, mas da Corte – pois em 1854 a monarquia ainda reinava. Era um capoeira, tinha espírito de serpente. Sortudo, mas não tanto. O leitor perceberá certa ironia quando o crime for solucionado e o assassino for, implicitamente, descoberto. Não darei mais detalhes, embora queira muito, pois seria acusado de um crime quase mortal: o do spoiler.
Imaginar uma cidade como o Rio, se bem que podemos imaginar o Brasil, tranquilo e sem essa espantosa violência de hoje é quase impossível. Mas ao ler este romance policial, lemos um retrato de um Brasil onde a violência não massacrava o seu povo, nem roubara a sua liberdade.
"A verdadeira onda criminal que engolfava o Rio de Janeiro, os crimes que ocupavam as autoridades do tempo eram aqueles cometidos pelos famigerados capoeiras. Embora provocassem grande pânico, deixando na cidade uma sensação de insegurança, era uma criminalidade essencialmente endógena: capoeiras vitimavam capoeiras, membros de grupos rivais, durante conflitos de rua, do que resultavam alguns feridos e uma ou outra morte ocasional. […] o nível de violência era baixo para uma cidade já tão desenvolvida como a então capital do Império. […] a cada mil prisões efetuadas naquela década, apenas uma envolvia homicídio – e somente seis os casos de assalto à mão armada."
Uma leitura agradável e instigante. O primeiro livro do Alberto Mussa que leio, e que acho muito bom.
Mussa realiza uma proeza. Num romance curto, resume o Rio de Janeiro da metade do século 19 dentro de uma história de detetive colocando todas a mazelas marginais da então capital do Império. Becos de traficantes de escravos, redutos de seitas espíritas, alcovas de aluguel para amantes e toda a sorte de fofocas e rivalidades entre etnias africanas que só mais tarde se tornaram cultura negra brasileira. Tudo isso fluindo como se fosse uma conversa numa roda de amigos. É tão agradável de ler que parece fácil de escrever. Esse é o segredo do bom escritor. Uma prova evidente de que o simples é evolução do complexo, e não o contrário.
Este é o quarto romance do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de romances policiais, um para cada século da história carioca. O personagem principal é Tito Gualberto, “secreta” da polícia carioca, hábil capoeira e apaixonado por Domitila, mulher casada, filha de um poderoso dono de terras. Tito e Domitila se tornam amantes e após uma noite particularmente tórrida, Tito é obrigado a fugir às pressas do quarto da amante. Posteriormente ele descobre que ela teria sido assassinada após a sua saída do quarto. Tito, então, é incumbido pelo coronel Chico, pai de Domitila, a esclarecer as circunstâncias do assassinato. Tito, então, mergulha numa trama que envolve muitos personagens e muitos segredos e intrigas que inclusive podem implicá-lo no crime. A trama é complexa e envolve muitos personagens. Esse pormenor exige do leitor uma atenção redobrada que exigirá, amiúde, retornos a passagens já lidas. Mas tal “complicador” não deslustra este fascinante passeio pelo Rio de Janeiro do século XIX.
Eu costumo tomar muito cuidado para não exagerar nos elogios. Então, vou tentar dizer o que penso de forma bem comedida: Alberto Mussa é, hoje, o maior romancista do Rio de Janeiro. Digo isso e percebo que a frase tem dois significados: na minha opinião, ele é o maior entre os romancistas que nasceram ou vivem no Rio, e é também é quem melhor romanceia essa cidade.
Da série sobre crimes na história do Rio, A hipótese humana só não é melhor que O senhor do lado esquerdo. Mesmo assim, em alguns aspectos chega a levar vantagem na comparação. Mussa está aprimorando o estilo, radicalizando a sua postura de narrador que dialoga com o leitor sobre o livro que está escrevendo. E aproveita isso para construir uma sobreposição de camadas, em que três investigações acontecem ao mesmo tempo: a de Tito Gualberto, o detetive; a do narrador Alberto Mussa, um tijucano que tenta reconstituir as histórias ouvidas na sua casa; e do escritor Alberto Mussa, que persegue a natureza do romance policial e da ficção como um todo.
Da série de Alberto Mussa sobre crimes famosos no Rio de Janeiro, A Hipótese Humana é quase um relatório jornalístico sobre a morte de Domitila e a investigação de um parente seu, Tito Gualberto. Revelando pistas ao pouco, conforme as suspeitas vão se aclarando, o mais interessante do livro é o cenário do Rio de Janeiro no século XIX, em 1854. Talvez se tivesse dado mais ênfase a essa paisagem humana e geográfica do Rio de então, o livro teria sido bem melhor. O ponto de vista do policial secreto é ínfimo frente à riqueza que a trama poderia apresentar.
O autor emprega um estilo de narração similar à forma oral de se contar história, lembrando peculiaridades de Guimarães Rosa ou de Mário Palmério. Assim, o texto flui a favor do entendimento e do interesse do leitor, fazendo-o enveredar pela tensão da trama como se fosse íntimo de todo o cenário e dos personagens. Uma leitura repleta de fruição sem fastio.
Um bom policial deixa a verdade para as últimas linhas. Esse foi o caso. E Mussa é também um bom historiador, ao nos levar ao Rio de Janeiro de meados do século XIX, para testemunhar os conflitos entre os capoeiras, as inúmeras diferenças entre os escravos e a necessidade de se manter a honra, sempre.
Uma história surpreendente sobre um crime que acontece na casa de uma pessoa importante, que se desenrola no Rio de Janeiro do século XIX, e mostra os diversos ângulos da investigação através dos pontos de vista das testemunhas.
O livro narra um crime no Rio de Janeiro do ano de 1854. As descrições históricas são interessantes mas a história em si nem tanto. De qualquer forma gostei da leitura.
Dit is een tamelijk raadselachtig boek. Een jonge vrouw wordt vermoord in het Rio de Janeiro van de XIX-eeuw dat de allure had van de hoofdstad van een keizerrrijk maar aan de andere kant veel slaven uit Afrika met hun gewoonten en spiritisme. Volgens de auteur heeft de moord werkelijk plaatsgevonden en nooit opgelost. Nu is het de vraag wat is hier fictie en non-fictie. Wat moet je geloven en wat niet. Wat voor Rio krijgt de lezer te zien? Het is duidelijk meer dan een eenvoudige politieroman. En eerlijk gezegd een boek dat je niet snel weglegt voordat het uit is, en ik heb het nota bene in het Portugees gelezen met het woordenboek ernaast. Ik heb inmiddels twee andere boeken gevonden uit de reeks over mythisch Rio van dezelfde auteur. Ik ben venieuwd.