“39 dos mais distintos juizes de Portugal encontravam-se reunidos à nossa volta, de entre os quais sete, além do Doutor Simão, seriam escolhidos para participar no julgamento. O método de seleção fez acudir sorrisos aos lábios de todos: o filho do Doutor Simão, de 9 anos, extraiu os nomes de um chapéu.”
O livro “O Homem de Lisboa” trata de Alves Reis, uma personalidade que marcou a realidade económica portuguesa dos anos 20 com a ínclita burla fiscal que engendrou para dominar o Banco de Portugal e a antiga colónia angolana. A obra enaltece o demo de Alves Reis, no entanto, na minha opinião, deve-se inferir, por contraposição, que os níveis alarmantes de corrupção que conspurcavam a justiça portugesa, a perniciosa deficiência na segurança e controlo da circulação económica portuguesa (debilitada também, como é óbvio, pela corrupção mencionada), a desastrosa circunstância de o Banco de Portugal ser uma instituição maioritariamente privada, o que possibilitaria a Alves Reis adquirir as suas ações e, consequentemente, subordinar o Estado à sua autoridade, como também a sua contínua sorte inexplicável se terem constatado circunstâncias muito favoráveis à exequibilidade dos seus ardis (não renuo, todavia, a sua astúcia e inteligência). Julguei particularmente interessante o facto de o Banco de Portugal alguma vez ter sido, em grande medida, privado. Até eu, com 20 anos, consigo concluir que concretizaríamos uma economia periclitante ao positivar tal realidade, pelo que, quando li isto, pesquisei na Internet para confirmar a veracidade do facto (é surreal, mas já foi esse o estatuto do Banco de Portugal). É uma obra que revisitarei com certeza, uma vez que os herméticos esquemas financeiros de Alves Reis eram, por vezes, e isto devido à circunstância de eu não ser o indivíduo mais entendido das questões económicas, de difícil apreensão em todos os seus detalhes. Em seguimento deste último ponto, considerei que o autor, do mesmo modo, não lograva explicar, ocasionalmente, as estratégias do conhecido “homem de Lisboa” e a lógica por detrás destas com clareza. Ademais, surgiam cortes esporádicos na diegese que obstavam à sua coesão. Contudo, o verdadeiro calcanhar de aquiles da obra consiste nas veementes infrações à língua portuguesa na sua tradução, servindo de exemplo a omissão de pontos finais em vários parágrafos (por amor de deus…eu até consigo perceber a eventual omissão de virgulas, mas de pontos finais?????).
Para concluir, é insofismável que a obra é interessantíssima, visto que, para além de retratar a vida de Alves Reis, também retrata com casuísmo a realidade portuguesa dos anos 20, em especial a realidade financeira do império português, e o quotidiano paradigmático da sua elite.
PS: Recomendo vivamente a leitura da obra a estudantes de Direito ou de Economia.