O que dizer? Mau demais para ser verdade … pura perda de tempo com algo que nada acrescenta, muito pelo contrário, faz-nos pensar na natureza humana na sua pior conceção. Nada que se compare com “Pudor e Dignidade”, uma narrativa muito bem construída à volta de uma personagem que aborda o “isolamento do ser perdido entre o passado e o futuro, entre aquilo que o presente lhe oferece, preso naquilo que poderia ter sido e não foi”.
Este romance de Dag Solstad intitulado, enigmaticamente, “Romance 11, Livro 18”, é, sobretudo, aborrecido e só não desisti da leitura logo no início primeiro porque não gosto de deixar livros a meio, se comecei, para o melhor e para o pior, vou até ao fim e segundo porque sempre esperei àquela volta na narrativa que nos faz ficar suspensos no drama. Isso aconteceu mas as razões são, de todo, absolutamente patéticas.
Bjorn Hansen vive em Oslo, é formado em Economia, funcionário público na administração central do Estado norueguês, trabalha num Ministério qualquer, casado com Tina Korpi de quem tem um filho de dois anos. É assim que o protagonista se apresenta ao público leitor. Até aqui, não vislumbramos razões para continuar pois nenhum autor começa um livro com pormenores absolutamente banais sobre a sua personagem principal, sem que nos venha a transportar para esferas mais elevadas, mais sinistras, menos óbvias, mais interessantes. Mas, pelo contrário, conduz-nos para trivialidades:
1. Bjorn Hansen arranja uma amante. Fascinado pela sua beleza, pela sua forte personalidade, “anti burguesa em todo o seu ser”, pelos seus gestos afrancesados, pela forma com que se expressava, Turid Lammers vivera sete anos em Paris, o que lhe proporcionava uma aura superior e glamorosa àquilo que Bjorn Hansen estava habituado;
2. Bjorn Hansen abandona a família para ir viver com a amante para Kongsberg, cidade natal de Turid, situada a sudoeste de Oslo, porque, se não o fizesse, poderia vir-se a arrepender;
3. Aí, Bjorn Hansen torna-se no tesoureiro municipal, o que denota um retrocesso na sua vida profissional;
4. Bjorn Hansen, por pressão de Turid, começa a fazer parte da Associação de Teatro de Kongsberg, onde figuravam amadores Encenando operetas famosas, para gáudio do público, os associados, através da intervenção de Bjorn Hansen, decidem o suicídio da companhia: encenar “O Pato Selvagem” de Ibsen – ponto de contacto com “Pudor e Dignidade” -, cujo falhanço deixara feridas no grupo e na relação de Bjorn Hansen e Turid Lammers;
5. Bjorn Hansen decide acabar com a relação com Turid pela sua postura em “O Pato Selvagem” o que salvara a horrível encenação mas também porque esta ficara velha e seca … Por favor, Mr. Solstad, isso é argumento que se apresente para uma separação??? O protagonista não sabeia que, ao mesmo tempo que ele próprio envelhecia, também aconteceria o mesmo à amante, à qual resolveu dedicar a sua vida?
6. Bjorn Hansen vai viver sozinho. De repente, traça um plano macabro porque, pura e simplesmente, a sua vida deixou de ter sentido; aqui começamos a ficar mais interessados;
7. Bjorn Hansen, recebe o filho, já com 21 anos, que vive em Oslo com a mãe mas que vai cursar Óptica na Escola Superior de Engenharia de Kongsberg;
8. Bjorn Hansen não sabe como lidar com o filho, petulante e arrogante tendo percebido a sua enorme solidão, sem ter feito nada para atenuá-la; talvez por medo ou vergonha de efabular uma conversa com o filho que abandonou aos dois anos de idade;
9. Volta o plano macabro que Bjorn Hansen traçou para seu destino;
10. Tornar-se uma pessoa dependente de uma cadeira de rodas sem que tivesse qualquer motivo. Um complô com o médico local e com um medico de Vilnius, onde se deslocara em trabalho, pagando do seu bolso o silencio de ambos para que possa surgir em Kongsberg paralítico;
11. E porquê? Nem o próprio Bjorn Hansen sabe.
Enfim, para uma pessoa que decidiu tirar um curso de Economia pois sabia que seria melhor, do ponto de vista financeiro, para o seu futuro, do que se dedicar àquilo que realmente lhe importava, “Arte, Literatura e Filosofia”. A um homem que lê Dostoievski, Puchkin. Thomas Mann, Céline, Borges, Marquez, Proust, Sartre, Kafka, Kundera, Freud, Kierkegard, Camus, nada faz sentido nesta narrativa.
Ou talvez eu própria não tenha compreendido o alcance do livro, a sua essência.
Ou talvez tenha sido um devaneio psicótico de Solstad.
Ou prefira, ente os noruegueses, os clássicos, como Knut Hamsun que, em muito mais, me acrescentou.
Um livro, na minha perspetiva, a evitar.