Obra vencedora do II Prémio Antón Risco de Literatura Fantástica.
Lisboa engole aqueles que a pisam. A calçada abre buracos para depois os fechar, como se nada tivesse acontecido. O desaparecimento inexplicável de cidadãos comuns em Lisboa é o ponto de partida para várias dimensões ficcionais entrançadas, como se cidade e texto fossem uma coisa só: um labirinto.
Enquanto o desconforto e a desorientação instalam-se na capital e os personagens procuram entender e resolver o problema dos desaparecimentos, Lisboa revela-se enquanto sistema vivo, com vontade própria, impossível de controlar.
Dormir com Lisboa é uma história que em vez de contar, pretende ouvir o que a cidade tem para dizer. É um abraço a uma cidade velha num contexto económico que a transforma todos os dias.
Fausta Cardoso Pereira is an award winning writer. “Dormir com Lisboa” her third book was awarded with Antón Risco prize for Best Fantasy Novel in Galicia, Spain. She is also the writer of another fiction book “O Homem do Puzzle” and the travel book “Bom Caminho”.
Este é um livro curioso. De autora portuguesa, publicado apenas na Galiza por ter sido vencedor de um concurso literário galaico, leva-nos a uma Lisboa de todos os dias que, repentinamente, parece revoltar-se com os seus habitantes e aqueles que por ela passeiam e passa-a a engoli-los, aleatoriamente. Buracos inesperados que se abrem nos pavimentos e devoram transeuntes insuspeitos.
Estará a cidade a revoltar-se contra os seus habitantes? Será um reflexo da descaracterização e transformação em parque temático provocado pelos excessos do aproveitamento turístico? Será o último grito da ideia que temos da cidade clássica face às transformações da modernidade? Políticos, militares e cientistas procuram explicações e soluções, mas não as encontram. A cidade fica em estado de sítio, só saem à rua os mais incautos ou corajosos, a qualquer momento, em qualquer rua ou beco, pode-se abrir um buraco devorador. Nada se sabe dos desaparecidos, que não deixam qualquer rasto. Enquanto se agudiza a confusão dos responsáveis políticos, a razão dos desaparecimentos vai-nos sendo revelada, envolvendo a encarnação de uma entidade que se assume como o grande arquitecto da cidade e que rapta temporariamente lisboetas para lhes lher os sonhos, interpretando-os em Lisboas que nunca existiram, ou que já existiram mas desapareceram. Encontrará aqui traços do que é a cidade, e para onde ela se poderá desenvolver.
É aqui que o livro falha um pouco. O foco centra-se muito nas discussões e decisões dos políticos que tutelam, os cientistas que investigam, e os militares que policiam. O retrato é bastante expectável, naquele registo de ironia fina que retrata a mesquinhez, pequenez e competência duvidosa que projetamos nestas personalidades. Muitas páginas com isso, e comparativamente poucas onde o livro consegue ser espantoso, nos retratos oníricos de uma Lisboa que poderia ter sido. É nesses momentos, retratados nos depoimentos dos desaparecidos que reapareceram tão misteriosamente como tinha desaparecido, que esta história ganha asas, força e envolve emocionalmente o leitor.
Lisboa é aqui revista num toque de realismo mágico, próximo do fantástico. Uma forma diferente, inesperada porque vinda de fora, apesar da escritora ser lisboeta, de imaginar a cidade de que tanto gostamos.
O prémio Antón Risco pretende distinguir obras de literatura fantástica, concedendo-lhes um prémio monetário e a publicação através da editora galega Urco. A primeira edição deste prémio foi realizada em 2015 e a segunda foi ganha por esta obra, Dormir com Lisboa.
Num dia, sem qualquer aviso ou razão, a cidade de Lisboa começa a engolir pessoas. Apenas algumas. Pontualmente. Abrem-se burados no chão que duram o suficiente para fazer desaparecer alguém, mas não mais do que isso. Nada parece unir os alvos de Lisboa. Os locais em que desaparecem são diversos, as idades e costumes também. Alguns moram na cidade, outros apenas lá trabalham, outros, ainda, estão apenas de passagem.
Instala-se o pânico. Que fenômeno estará por detrás dos desaparecimentos? E quem? Reúne-se um grupo de emergência composto por diversas entidades – ministros e presidente da câmara, general e cientistas. Cada um tem a sua própria visão dos acontecimentos e cada um tem ideias muito diferentes de como controlar a situação.
A investigação policial parece não descobrir muito, para além dos factos. Nem motivos, nem causas. Antes de cada desaparecimento ouve-se um estrondo. De seguida, abre-se um buraco e a pessoa desaparece. Alguns não deixam quem dê por falta deles, mas são dados como desaparecidos por quem viu a ocorrência.
Tecendo um fenômeno na cidade, a autora transforma Lisboa na personagem principal, uma personagem presente mas silenciosa que se expressa de formas nem sempre perceptíveis pelos seus habitantes. Cada pessoa tem a sua própria visão da cidade, vendo-a como uma mulher misteriosa que pode fugir facilmente ao poder de um político ou como uma velhota de múltiplos retalhos.
Dormir com Lisboa explora a pluralidade da cidade – a diversidade dos habitantes e dos locais, uma cidade que foi construído ao longo de séculos e que possui restos de todas as suas fases. Não é uma cidade homogénea, mas uma cidade que abriga diferentes habitats, de amores e humores, com locais de lazer e introspecção e com locais frios de passagem apressada.
Non sei ben explicar as miñas sensacións sobre este libro pero vouno intentar. Cando o merquei imaxinaba unha historia ben diferente. Dormir com Lisboa, trata, simplificadamente, das sensacións e emocións que xera en diferentes persoaxes a cidade. Hai moitas referencias, por tanto, a Lisboa: os seus barrios, monumentos, historia... que se non es lisboeta ou vives/viviches nela fan que parte da historia non a entendas e non a vivas. Ise foi o meu caso.
A trama en sí non me interesou, a desaparición de persoas na cidade só é o pretexto e nada máis que o pretexto para que diferentes visións do que é e debería ser a cidade saian a luz dende diferentes perspectivas idealistas; polo que a historia é, case na súa totalidade, unha recompilación de sentires sobre a cidade, facendo que a trama das desaparicións se concentre no principio e final da historia, deixando todo o demais a reflexións que non me resultaron interesantes. Algo que si me gustou: en dúas partes da novela, as testemuñas ante a policía recollen pequenas historias de persoas normais e correntes entre as que houbo algunhas que me pareceron moi bonitas e conmovedoras. Porque persoas normais e correntes hainas en Lisboa e en todas partes e durante algunhas desas historias sí conseguín enfrascarme na novela.
"A sinopse expõe bem a premissa da obra: Lisboa começa a engolir quem a pisa. Não apenas habitantes, mas também quem nela apenas trabalha e inclusive um turista. Em suma: representações da várias facetas populacionais que a constituem, tanto os fixos quanto os de passagem. A cidade é um organismo vivo, em reacção e que necessita de ser compreendida. Mais do que conhecer as causas e modus operanti do evento – que despoleta assim que se inicia a leitura – o enredo expõe as reacções e as hipóteses levantadas pelas personagens. (...)"