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182 pages, Paperback
First published January 1, 1978
Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal.Nem sempre é fácil navegar as águas desta inteligentíssima crítica da nossa identidade, reconheço-o, nem a todos será agradável a desconstrução da nossa história glorificada que Lourenço empreende; mas quer se concorde ou discorde com cada ponto que ele faz, não pode deixar de se considerar, numa indagação da identidade portuguesa, a forma disruptora como Eduardo Lourenço a optou por abordar neste livro.
Em O Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço colige onze ensaios sobre cultura e literatura portuguesas, esclarecendo, desde o seu ponto de vista, a forma como mutuamente uma e outra se influenciaram. Tem-se em atenção os variados contextos políticos sob os quais Portugal (e o antigo império) ora se edificou, ora se desmoronou, sendo que foi a par desses contextos que se desencadearam movimentos literários e, mais do que movimentos, Autores.
Os onze ensaios, que optamos por não avaliar individualmente – por acreditarmos que neste caso estamos perante ensaios que se sucedem e que não devem ser considerados apenas dessa forma – estão extremamente bem escritos, disso não há dúvida – ainda que por vezes as frases devessem ser mais pequenas e menos parentéticas, não só para permitirem um encadeamento mais claro das ideias, como também para não darem lugar a pequenas incursões um pouco prolixas. No entanto, julgamos que, defendendo-se a ideia de que a identidade nacional portuguesa – o grande problema tratado neste volume é este – não é propriamente sólida e vive muito daquilo que «era o termos sido», de «mitos» e «milagres» religiosos, não é justo partir para generalizações ardilosas como «(…) nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe…», não só porque isto não diz nada acerca de solidez e muito menos corresponde àquilo que é a realidade do povo português. Como esta, há outras.
Por outro lado - notoriamente bom - a escrita de Eduardo Lourenço não acontece, definitivamente, para com ela se concordar. Pelo contrário, convida muito ao debate, sendo questionável num bom sentido. Recomendo O Labirinto da Saudade, mas não é genial. Fico com a impressão que é obra a ser relida.