Com prefácio de André Seffrin 'Menino Antigo' reúne poemas que articulam visões da infância e da adolescência de Drummond. São lembranças que o poeta não despeja diretamente no papel mas como que usa o verso e a metáfora para ir buscá-las num passado refeito (poeticamente) reconstruído. É então que somos como que convidados a participar do mundo que fundou a sua poesia. O pai que mourejava na sua fazenda próxima à cidade da qual saía todas as manhãs uma mulazinha puxada por um empregado para ir levar o leite produzido até Itabira. A rigidez desse pai contrastando com a doçura da mãe. Os bichos plantas e árvores cuja a vida a natureza é que ia levando sempre igual mas nos quais a sutileza do olhar do poeta enxergava episódios a se destacar no cotidiano.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
In this new book of poems, Carlos Drummond de Andrade continues with the temporal recreation he started in Boitempo, now in its second edition Sabiá-José Olympio: a dip into the childhood past and even before his birth, inscribed in atavistic memory. No nostalgia, no self-complacency, and no archives. Thanks to the technique of compositions, the past becomes present, and things happen again, poignant or comic. The author deliberately did not want to make a memoir; he preferred to live the lived experience, with the tension of the moment in which the fact and the sensation of the fact took place. This dramatic vision discovers the man of today as a child and makes the child a companion of the mature man. Although the voluntary stripping of historical notations and geographic and social setting, an entire extinct period of semi-rural Brazil had projected in these dry poems, many of them severe, and all burning with a secret flame - the inner flame of an "old boy" who already felt in conflict with everyday life and with himself. This conflict is the root and explanation of his poetry, contained in the ten books of Reunion, another José Olympio edition.
– Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres. São só 24 volumes encadernados em percalina verde. – Meu filho, é livro demais para uma criança!... – Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo. – Quando crescer, eu compro. Agora não. – Papai, me compra agora. É em percalina verde, só 24 volumes. Compra, compra, compra!... – Fica quieto, menino, eu vou comprar. – Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel. Me mande urgente sua Biblioteca bem acondicionada, não quero defeito. Se vier com um arranhão, recuso. Já sabe: Quero a devolução de meu dinheiro. – Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro, fino caixote de alumínio e pinho. Termina o ramal, o burro de carga vai levando tamanho universo. Chega cheirando a papel novo, mata de pinheiros toda verde. Sou o mais rico menino destas redondezas. (Orgulho, não; inveja de mim mesmo) Ninguém mais aqui possui a coleção das Obras Célebres. Tenho de ler tudo. Antes de ler, que bom passar a mão no som da percalina, esse cristal de fluida transparência: verde, verde... Amanhã começo a ler. Agora não. Agora quero ver figuras. Todas. Templo de Tebas, Osíris, Medusa, Apolo nu, Vênus nua...
Nossa Senhora, tem disso nos livros?!... Depressa, as letras. Careço ler tudo. A mãe se queixa: Não dorme este menino. O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!Espermacete cai na cama, queima a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca antes que pegue fogo na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca a paciência e te dê uma sova. Dorme, filhinho meu, tão doido, tão fraquinho. Mas leio, leio... Em filosofias tropeço e caio, cavalgo de novo meu verde livro, em cavalarias me perco, medievo; em contos, poemas me vejo viver. Como te devoro, verde pastagem!... Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta à casa a qualquer hora num fechar de páginas? Tudo que sei é ela que me ensina. O que saberei, o que não saberei nunca, está na Biblioteca em verde murmúrio de flauta-percalina eternamente.