Contos holandeses (1839-1939) é a primeira antologia do conto holandês publicada no Brasil e, na prática, a primeira da América Latina. Em dezoito contos de dezoito autores, percorre-se cem anos da mais alta literatura dos Países Baixos, partindo da primeira metade do século XIX até meses antes do começo da Segunda Guerra. Temos aqui os principais representantes do cânone holandês: Hildebrand, Multatuli, Jacobus van Looy, Arnold Aletrino, Herman Heijermans, Jacob Israël de Haan, Carry van Bruggen, Louis Couperus, Marcellus Emants, Theo Thijssen, Jan Jacob Slauerhoff, Edgar du Perron, Aart van der Leeuw e Hendrik Marsman. Alguns, inclusive, concorreram formalmente ao Prêmio Nobel de Literatura: Frederik van Eeden, Albert Verwey, Arthur van Schendel, Simon Vestdijk, este último foi indicado 15 vezes ao prêmio sueco. Perfazendo uma ampla amostragem dos mais diversos gêneros – do cômico ao fantástico, do trágico ao experimental –, estes clássicos da literatura holandesa são quase todos inéditos em português, e alguns ganham aqui a sua primeira tradução mundial.
É difícil dar uma nota para uma antologia de contos. Isso porque é esperado que alguns contos vão agradar mais do que outros. Dessa forma, a nota é escolhida com base no conjunto da obra. No caso de Contos holandeses, achei a organização e a escolha dos contos impecável. São dezoito contos dos principais representantes do cânone holandês e escritos em um período de cem anos (1839-1939). O trabalho de Daniel Dago ficou realmente muito bom e o leitor consegue perceber o empenho do organizador para fazer uma antologia de excelência. Daniel faz uma apresentação inicial de cada conto, relatando um pouco sobre o autor, contexto histórico e curiosidades sobre a aquela obra. Isso, em conjunto com as notas de rodapé, me permitiram absorver mais sobre o que estava sendo lido. A escolha dos contos também me agradou muito, com temas dos mais diversos, podendo destacar “Um homem desagradável no Bosque de Haarlem”, “No escuro”, “O incompreendido”, “Um excêntrico” e “Larrios”. Recomendo muito! Obrigado @editorazouk pelo envio da obra!
Coisa linda a dedicação do tradutor Daniel Dago com os escritores holandeses. Quem dera houvesse um Daniel Dago no Brasil para cada literatura ainda desconhecida por essas bandas.
Nessa coletânea de contos holandeses, a primeira da América Latina, eu recomendaria ao leitor, entretanto, que começasse o livro não pelo começo, mas pelo conto “O monstro da China”, de Jacob Israäel de Haan. Não porque esse seja um conto fantástico, mas porque os contos anteriores, mais antigos, são, de maneira geral, muito difíceis, alguns deles extremamente enfadonhos, e se alguém começar a ler do começo é bem possível que fique com uma imagem nada boa da literatura holandesa. “O monstro da China”, embora um tanto bizarro, é bem mais compreensível que os contos anteriores e marca o início da melhor sequência do livro.
Já em seguida, há “O incompreendido”, da Carry van Bruggen. O conto dessa mulher (a Virgínia Woolf da Holanda) não é apenas uma joia da literatura holandesa, mas da literatura MUNDIAL. Um conto realista e comovente, digno de figurar em antologias mundiais. Se fosse para escolher um único conto do livro para ler, eu recomendaria esse.
Na sequência, “Leonard e Juliaan”, de Albert Verwey, também é interessante e perfeitamente "lível", assim como “O binóculo”, famoso conto de Louis Couperus que eu já havia lido. Vem então “Um excêntrico”, de Marcellus Emants, outro grande momento, uma pérola niilista, um soco e tanto na cara do leitor. Incrível como em poucas páginas ele consegue juntar tantas "verdades inconvenientes" e alcançar um densidade filosófica, digamos, dostoievskiana.
Depois dessa sequência, o leitor pode ir alternando contos do começo e do fim do livro. Há uma série de experimentos formais ou estéticos e nem todos são muito fáceis. “O drama da pensão Casa na Praia”, de Edgar du Perron, chega a resultados interessantes nessa proposta. “Um dois três quatro cinco”, de Simon Vestdijk, é mais complexo, mas conta com uma trama cruel que desperta a atenção.
Um outro destaque, já perto do fim, é “Teresa Immaculata”, de Hendrik Marsman, texto sobre o incesto de dois irmãos e que o próprio Thomas Mann havia considerado forte demais para publicar.
O primeiro conto do livro, “Um homem desagradável no Bosque de Haarlem”, de Hildebrand, começa muito bem, a gente percebe um admirável e galante bom humor, mas em seguida, pareceu-me, perde-se em descrições que tornam difícil a leitura. “A morte da minha gata”, de Jacobus van Looy”, foi, honestamente, um conto que, perto do fim, eu fiz uma leitura dinâmica dos parágrafos, porque não adiantava prestar atenção.
Mas veio depois aquele sequência de que falei e, no fim das contas, a gente também gosta dos holandeses.