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216 pages, Paperback
First published January 1, 2010
Por humanidades científicas, Bruno Latour (1947-2022) entende a composição de forças políticas, filosóficas e científicas. Trata-se de romper a barreira que separa a demonstração da retórica, como queria Platão no Górgias. Notem o uso do termo ciências no plural, e não epistemologia, que tende a isolar uma disciplina da outra.
Como um exemplo dessa composição, ele apresenta, na sua primeira carta, a ação coletiva que deu origem à pílula anticoncepcional. No campo político, as feministas falavam pelas mulheres que não queriam engravidar, no campo científico, um químico pesquisava esteroides. As feministas não eram químicas, mas conheciam esse químico. Associados, feministas e químico, não tinham verbas para a pesquisa, mas, juntos, conseguiram o apoio financeiro para a pesquisa que deu origem à pílula anticoncepcional.
Será na terceira carta que o autor apresentará o pensamento como “ação coletiva”: “coletivo de pensamento” (que ele encontra no autor Ludwik Fleck, 1935). Assim ao invés de eu penso (cogito); nós pensamos (cogitamus). A partir da quarta carta, ele vai então retomar o termo de William James, multiversos, para pensar as diversas composições, destacando a pluralidade na qual o universo seria um caso particular.
Para Latour, é moderno quem foge do passado no qual a verdade dos fatos e a ilusão dos valores se mesclam de um modo indissociável. É moderno quem pensa que, no futuro, a ciência vai subtrair-se da confusão arcaica com o mundo da política, dos sentimentos, das emoções e das paixões. O moderno é aquele sempre em fuga em direção a um futuro radiante.
Na sexta carta, Latour cita Darwin e Uexküll (1864-1944). Em Darwin, o que foi esquecido: o que permite a adaptação é a pequena invenção singular, isto é, entre cada ser e o seguinte, existe uma descontinuidade que supõe em cada geração uma invenção única e singular. De Uexküll, cabe destacar a noção de Umwelt (mundo entorno): “Se nos atemos à ficção de um espaço englobante, não se deve, simplesmente, ao fato de que tal convenção nos facilita a comunicação, não há espaço independente dos sujeitos e, portanto, não há res extensa, mas entrecruzamento dos Umwelt [no plural]”.