Dos escritores, esperamos tudo: universos desconhecidos, personagens surpreendentes, finais inesperados. São eles que olham o mundo, transformam a realidade e transformam-nos a nós. Mas que trabalho é este, feito de palavras? Como nascem os livros? Que é isso da inspiração? Escrever será assim tão diferente de plantar sementes, esculpir pedra ou desenhar estradas? Entrámos em casa de 11 escritores portugueses e não saímos sem saber como acontece essa coisa que nos faz sonhar, ter medo, questionar e mudar de vida: os livros e a literatura.
Manuel António Pina tinha um plano secreto: reunir, num jantar, os leitores portugueses de poesia. Todos os leitores portugueses de poesia. Achava que facilmente encontraria um restaurante onde coubessem 200 ou 300 pessoas. Num país com cerca de 10 milhões de habitantes, num país que se diz de poetas, as tiragens dos livros de poesia oscilam entre os cem e os mil exemplares.
Neste ensaio, ao italicizar parte da pergunta do seu livro, Inês Fonseca Santos sublinha o carácter polissémico da palavra “pena”, num jogo de palavras bem escolhido. É lógico que vale o uso da pena e que vale a pena escrever, como os entrevistados deixam bem evidente e como nós, leitores, bem sabemos. E reiteramos essa certeza com o testemunho de autores como Patrícia Portela, Catarina Sobral, Helder Macedo (que venceu o prémio Vasco Graça Moura há dias), Mário de Carvalho, Afonso Cruz, Luís Quintais, Paulo José Miranda, Álvaro Magalhães, Miguel Real, António Cabrita e António Mega Ferreira. Do leque dos intervenientes disponíveis para esta conversa, lamento que só haja duas autoras, gostei da diversidade de géneros a que cada um se dedica, mas a presença de tantos boomers deu-me a sensação de um clube restrito e, às vezes, à margem da vida actual.
António Cabrita recorda o momento da morte de Pierre Boulez (…): “Boulez ficará na História da Música, os U2 num rodapé de uma História do Rock, que é um dos ramos da História do Mundo.”
Não me parece! Longe desta pose está António Mega Ferreira (entretanto falecido), cujos comentários pertinentes e ponderados constituem um dos pontos fortes desta obra.
Esse tipo de discurso apocalíptico sobre o destino da literatura ou da cultura é tantas vezes posto em cheque por coisas extraordinárias: livros incríveis que todos os anos saem no mundo inteiro. Muitos deles nós nem sequer sabemos que existem. Porém, existem! (…) Sei que todos os anos em todo o mundo se vão publicando livros extraordinários e que a literatura continua a ter a capacidade de surpreender e de fazer diferente, embora seja certo que fala sempre de três ou quatro temas. Não faz mal nenhum. Fala sempre de três ou quatro temas porque são os temas que importam à humanidade inteira.
São várias as questões que Inês Fonseca Santos coloca a estes seus interlocutores, como o que é feito dos intelectuais, literatura versus entretenimento, o espaço para a criação, o mercado editorial, os prémios, a formação dos escritores e os seus honorários.
“A leitura é uma espécie de celebração mágica. É a maneira de paradoxalmente descobrirmos que a realidade é aquilo que sonhamos e não aquilo que temos entre mãos. É essa espécie de travessia de continentes. Que não existem. E nos quais reconhecemos aquilo que é mais profundo em nós e que não pode ser dito.” - Eduardo Lourenço
Esperava encontrar entrevistas e diálogos com escritores nas quais pudesse conhecer algumas das suas visões sobre literatura, processo criativo e o mundo das ideias, mas o que encontrei foi um texto de jornalismo literário, no qual a autora vai integrando as ideias que os escritores com ela partilharam, ou seja, em vez das entrevistas temos os relatos pessoais das interações da autora com esses escritores. Esta interposição da voz da autora como filtro dessas conversas com os escritores mencionados ao longo do texto, sacrifica, na minha opinião, a proximidade com o leitor e a autenticidade dos seus discursos, transferindo o protagonismo para o entrevistador e não para o entrevistado. Nesse aspeto é um livro algo frustrante e que, pensando bem, até reforça algo que condena: reduz as vozes dos intelectuais ao relato da autora. No entanto, embora a obra apresente limitações no seu formato, há que reconhecer mérito às questões levantadas, que dialogam com algumas das tensões mais prementes da atualidade cultural, tal como a necessidade de devolver espaço aos verdadeiros intelectuais, os desvios do mercado livreiro e a distinção de livros e literatura. Aqui somos chamados a olhar para as vicissitudes do atual mercado livreiro, cada vez mais focado no lucro e inevitavelmente menos preocupado com a qualidade, pressionando o livro para a categoria de produto de consumo. Nesse aspeto foi bastante gratificante acompanhar estas questões fundamentais. Merecem ser pensadas e cuidadas. Os escritores não podem ser produtores de escrita, têm que ser artistas das palavras e das ideias, pelo menos aqueles que eu desejo continuar a ler.
“Convém não confundir os livros com literatura. O mercado do livro próspera por razões extra literárias.” “A escolha dos livros a editar depende do cálculo da sua provável rentabilidade e e mais dependente do parecer do diretor de marketing do que do diretor editorial.” “O património literário não reside no papel, mas nas palavras que são nele impressas, E essas resultam do trabalho do escritor” “Não se estranha, por isso, que, quando o assunto é vendas, o resultado seja o nome de José Rodrigues dos Santos, considerado, numa votação pública de 2016, o melhor escritor português. Apenas porque atualmente o melhor não se distingue do que mais vende”.
"a escrita não é um trabalho, é uma trabalheira. Exige que se escreva todos os dias. Ser escritor é como ser atleta de alta competição: o que se come, o que se dorme, o que se lê, o que se escreve, tudo no dia contribui para o treino altamente especializado, com o objetivo de se chegar ao Olimpo. Não é possível sem trabalho nem persistência. As musas são preguiçosas e nós é que estamos ao serviço delas." (p. 54)
Gostei bastante deste ensaio sobre o que significa ser escritor nos nossos dias. É um retrato bastante objetivo sobre a profissão.
"Ciente de tudo isto, Manuel António Pina tinha um plano secreto: reunir, num jantar, os leitores portugueses de poesia. Achava que facilmente encontraria um restaurante onde coubessem 200 ou 300 pessoas. Num país com cerca de dez milhões habitantes, num país que se diz de poetas, as tiragens dos livros de poesia oscilam entre os 100 e os 1000 exemplares. Proliferam as pequenas editoras, é certo, mas essas não publicam seguindo a lógica do mercado; publicam, sim, para satisfazer a vontade de ler desses 200 ou 300 portugueses que se interessam por poesia."
Este é um dos livros que eu gostava de ter escrito. Através de entrevistas a autores e autoras portugueses, Inês Fonseca Santos procura explicar várias vertentes da leitura, da publicação de livros e da venda dos mesmos. Sublinhei muito este livro e, a partir das reflexões dos entrevistados, escrevi muitas páginas de pensamentos que podem, um dia, ser as minhas próprias reflexões.
Recomendo a todos os interessados em meta literatura, especialmente jornalistas que entrevistem autores, como é o meu caso.
Ocorre-me agora uma resposta certeira de George Steiner numa entrevista publicada na Visão e já aqui citada:«Vivemos numa grande época de poesia, especialmente entre os jovens. E, muito lentamente, os meios electrónicos estão a começar a retroceder. O livro tradicional voltou, as pessoas preferem-nos ao Kindle… Preferem pegar num bom livro de poesia em papel e tocá-lo, cheirá-lo, lê-lo. Mas há algo que me preocupa: os jovens já não têm tempo… De ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas vitais foi tão forte como hoje. E é preciso ter tempo para procurar tempo.»
"Estará esse leitor em vias de extinção? Ou será apenas, como o Patinho Feio, um cisne nascido no meio de patos, uma criatura que falha o meio e assim perde a relação com os pares? Sem ele, vale a pena escrever?"
Que prazer encetar o novo ano com um livro que é, na sua génese, uma carta de amor à arte de escrever e àqueles que a ela se dedicam. Enquanto um desses seres que "não podem deixar de escrever" e que "continuarão a fazê-lo, seja qual for a circunstância" recebi com gratidão as interrogações que povoam o texto, tendo para com as respostas "às perguntas com outras perguntas" a naturalidade que teria para com um céu azul ou um gato que mie: ser escritor é viver de interrogações ("escrever o tempo interrogativo"), existir nesse estado de perene e infinda curiosidade próprio das crianças, exprimir "a possibilidade da verdade" e saber da inquietude, da insurgência e do desassossego uma inevitabilidade, certa como o nascer e fatal como o perecer. Que livro! Obrigada pela dádiva de privar nestas linhas com o íntimo que todos os "fazedores de Literatura" partilham (quer as suas opiniões divirjam ou não). Não posso evitar aqui deixar este poema de Manuel António Pina que tão bem cabe nesta obra (tanto que a encerra):
"Vê se há mensagens
no gravador de chamadas; rega as roseiras; as chaves estão na mesa do telefone; traz o meu caderno de apontamentos (o de folhas sem linhas, as linhas distraem-me). Não digas nada a ninguém, o tempo, agora, é de poucas palavras, e de ainda menos sentido. Embora eu, pelos vistos, não tenha razão de queixa. Senhor, permite que algo permaneça, alguma palavra ou alguma lembrança, que alguma coisa possa ter sido de outra maneira, não digo a morte, nem a vida, mas alguma coisa mais insubstancial. Se não para que me deste os substantivos e os verbos, o medo e a esperança, a urze e o salgueiro, os meus heróis e os meus livros? Agora o meu coração está cheio de passos e de vozes falando baixo, de nomes passados lembrando-me onde as minhas palavras não chegam nem a minha vida Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
Vale a pena? Sim, vale a pena ler este livro, uma colecção de pareceres de alguns escritores portugueses muito conhecidos e aclamados. Não é um estudo científico, mas não deixa de ter algum valor no estudo de como se faz livros e literatura em Portugal e como pensam os autores/escritores do século XX-XXI. Até correndo o risco de ser tendencioso, este livro traz uma nova perspectiva desta arte e mercado em Portugal.
Vale a pena sim!! Livro curto mas de grande peso. Leva a um questionamento, uma interrogação sobre a escrita, o escritor, o leitor, o que lemos e como lemos, assim como o que nos é “atirado” para ler. Muito actual, facilmente esta análise sobre o estado dos livros e acto de escrever leva a um debate interessante!
uma excelente recolha de ideias e entrevistas sobre escrever. sobre quem escreve. quem lê, quem vende, quem compra. e sobretudo, pela importância que são os escritores num mundo automatizado. não li até agora nenhum livro tão completo sobre o ofício da escrita quanto este. recomendo. barato também, seu forreta.
O lado dos bastidores fascina-me, por esse motivo, parti para o livro da Inês Fonseca Santos com expectativas elevadas e fui surpreendida.
Um dos aspetos que achei mais entusiasmante nesta obra foi sentir que, independentemente da minha perspetiva, também tinha lugar, que a minha visão seria bem acolhida e validada, porque em nenhum momento há julgamentos. Muito pelo contrário, há escritores de coração aberto a falar sobre algo que lhes é tão querido, de um lugar emotivo e sem certezas. Ou melhor, com as certezas que funcionam para cada um deles, mas sem imposições.
Acredito que a literatura se enriquece na partilha e na honestidade. Portanto, também apreciei a franqueza dos testemunhos aqui contemplados. Vale a Pena? é daqueles livros que sabem a abraço apertado.
Achei que o livro me ia dar algo, mas sinto que me disse muito mais do que imaginava e dei por mim a sublinhar longos excertos num livro tão curto. É exatamente o tipo de livro que me interessa sobre escritores: ficar a conhecer a forma como veem o mundo, mesmo que não concorde, dá-me muito mais sobre literatura e escrita do que todas aquelas dicas semelhantes que encontrava nas pesquisas da internet.
"A vida de escritor, aliás, a vida de qualquer um que tenha uma missão neste século, seja a de salvar o mundo, escrever, desenhar, cozinhar ou dedicar-se à beleza ou à felicidade alheias, está a extinção, enquanto o resto do mundo trabaha que nem louco e tem na arte o único escape possível para a escravatura." – Paula Portela (. 73)
Um ensaio curto e fascinante sobre a vida de escritores em Portugal. Foi super interessante aprender acerca das diferenças entre o mercado literário português e o anglo-saxónico (figura do editor, questão dos subsídios/bolsas de escrita e dos prémios financeiros literários, hábito ou falta dele de os escritores serem pagos por participarem em entrevistas e programas/festivais literários, etc.), sobre o funcionamento das editoras em Portugal, bem como dos contratos entre editora e escritor (como, muitas vezes, infelizmente, os escritores são explorados e recebem uma percentagem mínima das vendas, e como certas condições nem sempre são respeitadas), etc. Destaque ainda o debate sobre a profissionalização/mercantilização da profissão de uma escritora ou escritor: se, por um lado, traz um aumento no número de vendas (os autores guiam-se então pelas exigências do mercado), por outro, apaga em parte o aspeto romântico da autenticidade de um autor, do ato da escrita "just for the sake of it". Outro aspeto referido é o facto de os escritores muitas vezes se desdobrarem em múltiplas profissões para conseguirem sustento enquanto escrevem. Não fazia ideia de que fosse relativamente comum um escritor ser também guionista de séries, filmes ou novelas para ganhar dinheiro.
Gostei das entrevistas aos autores portugueses. Foi como mergulhar um pouco no mundo deles, conhecendo melhor o seu processo criativo. Gostei do que foi dito sobre a literatura ser o ato de dizer o que ainda não se disse, ou de dizer algo que já foi dito mas formulada de uma maneira diferente. Gostei também do que disse Mário de Carvalho sobre ter começado a escrever devido à Revolução: numa época em que a sociedade portuguesa estava tão agitada e a ser alvo de mudanças profundas, em que, "de minuto a minuto, sem exagero, estão a acontecer coisas, [em] que a situação se está a deslocar, a situação socia e política, [em] que há surpresas a toda a hora, que há gente na rua, que há os maiores disparates, as maiores alucinações, que toda a gente está a fazer qualquer coisa, que ninguém dorme, que está toda a gente desperta, em frenesim, semanas, meses, nuna vida colectiva intensíssima", ele precisava de espaço, e encontrou esse espaço na escrita. "Até em reuniões escrevia. Fazia de conta que estava a tomar apontamentos e, afinal, havia duas personagens que estavam a descer uma escada." (pp. 100-101)
Algums factos interessantes: - Por norma, um escritor recebe apenas 10-12% do valor dos seus livros vendidos; - Teoricamente, um escritor não recebe nada até 6 meses depois de publicar um livro e geralmente está um, dois, três anos a escrever um livro; _ Um novo livro geralmente "vive" durante dois meses (ciclo de hype); – São editados 40 livros por dia em Portugal; – Eça de Queirós, em vida, só teve uma segunda edição, "O Primo Basílio". Isto porque nesse livro aparece a primeira cena de sexo da História da Literatura Portuguesa, que fez corar Ramalho Ortigão.
Mais citações incríveis:
"É preferível haver mais livros, ainda que muitos sejam desinteressantes, do que haver poucos livros, como acontecia antes do 25 do Abril." (p. 93)
"Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objectos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis." – Italo Calvino (p. 101)
"Vivemos numa grande época de poesia, especialmente entre os jovens. E, muito lentamente, os meios electrónicos estão a começar a retroceder. O livro tradicional voltou, as pessoas preferem-nos ao Kindle... Preferem pegar num bom livro de poesia em papel e tocá-lo, cheirá-lo, lê-lo. Mas há algo que me preocupa. Os jovens já não têm tempo... De ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas foi tão forte como hoje. E é preciso ter tempo para procurar tempo." – George Steiner (p. 86)
A jornalista e escritora Inês Fonseca Santos publica, na colecção “Retratos da Fundação” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, um pequeno grande livro sobre a literatura e a profissão de escritor em Portugal numa época de acentuado declínio do intelectual perante uma cultura multimédia onde predomina, em quase todas as esferas da nossa vida, a velocidade. Esta e outras questões servem de pretexto para uma série de conversas com 11 escritores (Mário de Carvalho, Luis Quintais, o falecido Manuel António Pina, Patrícia Portela, Álvaro de Magalhães, entre outros) que norteiam e enquadram todo o livro: a independência criativa e as agruguras da pressão do mercado; as dificuldades de viver apenas da escrita num país pequeno, onde toda a “máquina” editorial secundariza a renumeração do autor; como é o percurso formativo os escritores… poderá haver uma espécie de escola das “Belas-Letras”? Estas são apenas algumas das problemáticas abordadas num livro que se lê num ápice e só peca por saber a pouco.
Uma leitura densa apesar de breve. Analisa, através de entrevistas e citações de escritores, o que é isto da literatura, da escrita, de como se vive dela ou se se deve viver dela, como funciona o mercado editorial e qual o lugar do escritor nele, e no fundo, se vale a pena escrever quando o mercado é pequeno, os rendimentos baixos e o reconhecimento aquém da dedicação que exige. Só aponto de negativo a falta de diversidade na seleção de entrevistados (9 homens, 2 mulheres) que na verdade não é um problema da autora mas uma reflexão do próprio mercado editorial que não tem criado espaço para a diversidade de vozes.
Talvez dos melhores livros que li nos últimos tempos. Deu-me imenso gosto ler esta coletânea de opiniões, pedaços de conversas, frases complexas sobre assuntos aparentemente simples. Foi um livro que me deu uma nova perspetiva sobre aquilo que é um escritor e a escrita em Portugal, e aquele que é o papel tanto do escritor, como do editor e, principalmente, o papel do leitor. Toda a gente devia ler este pequeno livro de grande conteúdo. Toda a gente desde leitores ocasionais a leitores vorazes, desde escritores que escrevem todo o santo dia, a escritores que (ainda) só escrevem na sua cabeça.
«Precisamos deles (livros) para dar um sentido à Natureza e ao Homem. Eis porque a literatura sobreviverá.», responde-me finalmente Álvaro Magalhães, nunca desfazendo o enigma: «Precisamos dela (literatura), ou não continuaremos a ser humanos. ... »
Um livro muito interessante para quem quer ouvir os escritores a falar sobre o panorama literário português, sobre as pressões do mercado e sobre o liricismo que deve orientar a criação de cada um.