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Nadar na Piscina dos Pequenos

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Encontrámos as partes, mas ainda não o conjunto. Falta-nos esta última força. Falta-nos a esperança como uma espuma branca que nos proteja e nos una. Procuramos esse sustento salutar: conviver, perseguidos por uma espécie de incontinência verbal. Na juventude, começámos com uma boneca de corda, a que demos tudo o que tínhamos. O fracasso estava, no entanto, treinado para receber-nos, com luvas gigantes, como se fôssemos bolas de basebol. Continuamos calados. À procura. Com fome. Não podemos fazer mais. Nadar na Piscina dos Pequenos de Golgona Anghel

72 pages, Paperback

Published May 1, 2017

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Golgona Anghel

19 books8 followers
Golgona Anghel (1979) is a portuguese poet born in Romania.

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3 (3%)
1 star
2 (2%)
Displaying 1 - 19 of 19 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,668 reviews567 followers
November 1, 2022
Em “Nadar na Piscina dos Pequenos”, Golgona Anghel dá voz aos feios, porcos e maus, porque a beleza da poesia também pode ser a sua ausência sobretudo se vier acompanhada de humor negro.
Tal como no livro com que me estreei na irreverência desta autora, “Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho”, na primeira parte achei-a ainda titubeante...

Hoje, vieram buscar-me cedo.
É a tal história, tiram-me do sono,
passam-me para a maca e ninguém quer saber das minhas vontades.
Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço.
Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças
e, com este péssimo aspecto,
fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente
que acorda de madrugada
e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
a rins e pulmões
Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
como os cavalos na feira.
Por isso, puxo com os dois braços
uma fralda que encontro por perto
e enxugo o meu rosto pejado de medo,
porque tudo isto é mesmo uma merda,
mas depois melhora um pouco
quando me enchem de morfina
e me devolvem, à saída, o telemóvel.


...na segunda, avançando num passo mais firme...

Sentes-te bem ao ar livre
Ainda assim, preferes o ataúde.

Descansa, minha vida,
mesmo se tu até em sonhos acredites
que todos merecemos salvar-nos.
Sobrevivermo-nos.

Dorme, meu estupor,
enquanto as jarras de lírios
dissimulam a porta do teu breve inferno.

Já sei.
Tens medo.
Estás perdida na tua condição de mulher
e queres agora encontrar uma saída.

Relaxa, meu amor,
a meta é simples:
cair no esquecimento.
Tu vais chegar lá antes.


...mas, por fim, na terceira, desenfreada em quase todos os poemas.

Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
Profile Image for Luís.
2,376 reviews1,372 followers
March 31, 2024
Golgona's poetry is only for some. Although she writes very well, her texts involve elements of humor that will appeal to only some readers. Still, she knows how to use language well to create high-quality poems.
Profile Image for Alexandra Machado.
62 reviews15 followers
June 7, 2017
http://gira-livros.blogs.sapo.pt/opin...

Nadar na Piscina dos Pequenos ainda não tinha sido anunciado e eu já andava por aqui a pedinchar um novo livro de poesia de Golgona Anghel. Estava muito ansiosa por lê-lo e com as expectativas muito elevadas o que, neste caso, correu bastante bem. Golgona não desilude nem um pouco, pelo contrário, fez-me gostar ainda mais da sua escrita. Por muito que queira escrever sobre este livro, as palavras custam a sair, é preciso ler e sentir o que está escrito no papel e que, muitas vezes, fica gravado no nosso coração e na nossa mente. Resta-me aguardar pelo próximo.

Hoje vieram buscar-me cedo.
É a tal história, tiram-me do sono,
passam-me para a maca e
ninguém quer saber das minhas vontades.
Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço.
Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças
e, com este péssimo aspecto,
fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente
que acorda de madrugada
e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
a rins e pulmões.
Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
como os cavalos da feira.
Por isso, puxo com os dois braços
uma fralda que encontro por perto
e enxugo o meu rosto pejado de medo,
porque tudo isto é mesmo uma merda,
mas depois melhora um pouco
quando me enchem de morfina
e me devolvem, à saída, o telemóvel.

Sempre me pareceu um pouco cobarde
chamar sonho à morte,
dizer negros em vez de pretos,
tia em vez de sogra,
idosos em vez de velhos,
pessoas com rendimento mínimo
em vez de esfomeados, pobres, nós.

Deveria ser completamente proibido
ler amor onde está escrito Roma,
comer com o garfo quando se deve usar palitos.
Os dicionários têm razão.
Precisamos de mais definição.
Não muda nada adocicar a água dos afogados.
As metáforas podem até impressionar
mas não são nada práticas.

Olhem aqui a nossa senhora da verdade, o senhor director,
só figuras, só estilo:
todos trajados de fatinho,
e depois nadam na piscina dos pequenos.
Profile Image for Sofia Dias.
50 reviews5 followers
December 15, 2024
não estava à espera de ser tão violento e triste. livro muito marcado pelo capitalismo e pela emigração. ela é muito perspicaz e irónica, gostei disso. são poemas muito inteligentes e que doem como um murro no estômago.

usamos fato e gravata. falamos de coisas que soam inteligentes, sem saber de 1/4 do que se tratam. na realidade, nadamos na piscina dos pequenos e caímos sempre de chapão na água.
Profile Image for Lucas Sierra.
Author 3 books604 followers
July 20, 2020
Presentación del ridiculum vitae

Toma mucha seriedad el acto de no tomarse en serio. Demanda aceptar la realidad con la sonrisa de Demócrito martillada en la boca, la astucia de Diógenes para enfrentar la sombra de Alejandro. Pero Demócrito y Diógenes son filósofos, no poetas, y aunque podamos afirmar cercanía entre ambas cosas sabemos —Platón lo dijo— que hay distancia, diferencia, que en el oficio de poeta aparecen, como mosquitos en la temporada de lluvias, las palabras, y reclaman su lugar, y piden atención, y te descubres en la noche, con la luz de la habitación encendida, de pie sobre la cama, cazándolas a aplausos en inútil enfrentamiento porque consiguen, siempre, evitarte.

De ahí que en un verso proponga Golgona Anghel la idea de ridiculum vitae, la enunciación de nuestro ridículo como forma de arar la vida, de presentarla en surcos fértiles donde las anécdotas de semilla resistente han sobrevivido al invierno y muestran, en la distancia, los brotes de una poesía donde podemos reconocer la sencillez de una tristeza íntima, pero también el humor, el desparpajo de asombrarse ante el presente portando la embriaguez capaz de incendiarlo todo. Un vaso de fuego que basta para derretir cualquier iceberg. La potencia de lo humano, desde su patética consciencia con la que tranza bendición o maleficio según su ánimo, esgrimida como un norte, un destino inevitable porque ponerse en marcha es descubrir que llegamos mucho antes.

En la poesía de Anghel está esa certeza, visitada ya claro, pero matizada a su tiempo, a su mundo, a sus colas de desempleados y a su país con crisis económica. Todo en la realidad es escenario poético porque, afirman a través de Anghel las tradiciones de la mímesis, no hay un acto más poético que existir. En eso, en insistir en la vida dentro del caos que nuestra ridiculez hace manifiesto al tiempo que lo forja, se resume el papel de la literatura. Anghel lo sabe, primero como lectora (insiste en otras obras, en otros lenguajes, en inscribir su texto dentro de una tradición donde resplandecen, así lo dice, nombres y letras más importantes), y luego como escritora. Luego como aquella que encarnará el papel de soñar los mitos mientras mantiene, en la vigilia, la piel permeable a la absurdidad de nuestros tiempos. La mitología del absurdo, del doméstico oráculo donde las serpientes se aparean y a bastonazos la pitia es mujer y luego hombre y luego mujer de nuevo.

Para Anghel la lectura es posibilidad de decir “leo” como un puente para decir “escribo”. Ambas cosas ancladas en la necesidad de desprenderse de las metáforas, de no caer en el juego de las imágenes como un lastre que estorbe en mostrar lo que desea mostrar: el cotidiano esfuerzo de separar lo bello de lo otro con el tamiz del ojo. Aquí la realidad, lo real, está siempre como pregunta. Una pregunta que se constituye en matiz de desafío: lo importante es el reto de narrar el mar, de contarlo, de expresar las olas encabritadas contra la playa. Lo importante es saltar a lo profundo sabiendo que todo nadador en aguas abiertas es la fotografía de un ingenuo, de un torpe, de un ridículo por fuera de su elemento. Sí, pero mejor eso a nadar en la piscina de los niños. Mejor el riesgo del tonto a la seguridad del listo. Mejor abismarse con posibilidad de hallazgo que flotar, tan tranquilos, con las rodillas apoyadas en el fondo.

Quizás esa sea la invitación de Anghel, que el mundo sea mar, que cada tema, desde despertarse a estudiar poesía, hacer la fila del paro, conocer a alguien, hasta contemplar el fin del mundo en una pradera cubierta de atardeceres, sea un océano. Sea inmenso. Y que en esa inmensidad nos reconozcamos diminutos, tan, pero tan pequeños con nuestros grandes dramas. Dignos de amor, por supuesto, no sólo a pesar sino, quizás, gracias a nuestra ridiculez.
Profile Image for Ana Marinho.
602 reviews31 followers
June 18, 2025
"Deveria ser completamente proibido
ler amor onde está escrito Roma,
comer com o garfo quando se deve usar palitos.
Os dicionários têm razão.
Precisamos de mais definição.
Não muda nada adocicar a água dos afogados.
As metáforas podem até impressionar
mas não são nada práticas.

Olhem aqui a nossa senhora da verdade, o senhor director,
só figuras, só estilo:
todos trajados de fatinho,
e depois nadam na piscina dos pequenos."

Para mim, toda a poesia é bonita. No entanto, nem toda é inteligente. Neste caso, é as duas.
Golgona mostra-nos a poesia dos que não merecem poesia; dos que vivem da miséria (dos outros).
O poeta explora os adultos que, apesar de se acharem muito adultos, ainda nadam na piscina dos pequenos.
Absolutamente fantástico.
Profile Image for Inês .
20 reviews4 followers
Read
October 19, 2020
"O silêncio resigna-se
e adopta um ar póstumo:
o antónimo de uma sala de partos."
Profile Image for Fortuna Estudios.
196 reviews8 followers
July 11, 2020
Antiguamente los bisontes eran personas
y se enamoraban de las chicas
más hermosas de la aldea. Página 13
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews63 followers
February 8, 2022
(2.5*)

"Foi como naquele filme da Lucrecia Martel,
«O pântano». De regresso a casa,
na auto-estrada, bati contra algo.
Era quase de madrugada. Estava cansado.
Não parei.
Pensei que tivesse atropelado uma pessoa.
O embate pareceu-me muito forte.
Estava escuro. Ninguém à volta.
Apenas um corpo como um seixo
e o tiquetaque da dúvida.
Tinha caído na cama."

***

"Ficámos tanto tempo em silêncio,
que conseguimos,
até que enfim,
confundir-nos com a noite.
Vínhamos, é certo, de sonhos distintos
e ainda não tínhamos aprendido a adormecer
sem que isso não parecesse uma queda no vazio.

Aceitávamos, no entanto,
que os nossos corpos continuassem um caminho
para o qual nós não tínhamos explicação."
Profile Image for Inês.
1 review
August 4, 2017
"Encontrámos as partes,
mas ainda não o conjunto.
Falta-nos esta última força.
Falta-nos a esperança
como uma espuma branca que nos proteja e nos una.
Procuramos esse sustento salutar:
conviver,
perseguidos por uma espécie de incontinência verbal.

Na juventude, começámos com uma boneca de corda,
a que demos tudo o que tínhamos.
O fracasso estava, no entanto, treinado
para receber-nos, com luvas gigantes,
como se fôssemos bolas de basebol.
Continuamos calados. À procura. Com fome.
Não podemos fazer mais."
Profile Image for Luiz M.
7 reviews
Read
December 11, 2018
Neste livro de Golgona Anghel, encontramos poemas eivados de ironia em diferentes níveis que colocam lado a lado situações graves e banais, indiciando contradições do tempo presente. Ao longo da leitura, percebe-se que a aparente segurança de nadar na piscina dos pequenos não se mantém. Há um desajuste flagrante entre os corpos presentes nos versos - já há muito distantes do universo infantil - e o espaço que os circunda. A recorrência de temas, como a medicalização e o falhanço das relações sociais, reelabora dinâmicas imunitárias, que estão em voga em diversos discursos contemporâneos
Profile Image for Inês  Fonseca.
131 reviews
June 4, 2024
Em Golgona Anghel, há o contrabalançar de uma poesia simples e sentida ("Como uma flor de plástico na montra de um talho") com uma poesia preenchida por segredos que obrigam a mais do que uma leitura para serem revelados ("Nadar na piscina dos pequenos").
Gostei bastante do processo de escavação deste livro. A procura de sentido tornou-o em algo mais além do anterior (ainda que tenha sido o meu favorito).
Profile Image for Jéssica.
64 reviews3 followers
April 23, 2024
Olhem aqui a nossa senhora da verdade, o senhor director, só figuras, só estilo: todos trajados de fatinho, e depois nadam na piscina dos pequenos.
Profile Image for Carmo.
130 reviews6 followers
November 23, 2023
Do melhor que a poesia portuguesa atualmente tem.
Recomendo muito a leitura desta autora.

"(...)
as coisas solidificam para não mudarem de lugar.(...)"

"(...)
Há regressos que nos tiram pedaços dos corpos
em troca de um lugar para sentar-nos."
2 reviews1 follower
November 7, 2024
«Y yo, que del mercado venía cargado,
dejé las bolsas en el pasillo,
guardé las coles y las latas,
vestí la bata y esperé de pie
un tanto asustado»
Profile Image for Bibs.
68 reviews6 followers
September 29, 2023
Este foi um dos três livros que comprei na FLL de 2022, tendo-o lido em poucos dias.

Sabem quando estão apenas a andar enquanto passam os olhos pelos livros de relance, e do nada há um que vos chama mais à atenção, por alguma razão? Foi o caso desta compra. E uau, o meu instinto acertou! Foi o primeiro contacto que tive com a autora, e decerto deixou-me com vontade de explorar mais o seu trabalho.

Esta obra divide-se em três grandes partes:
1. Um rebanho de boas intenções
2. Há passos em falso nos mais caros sapatos
3. A minhoca está cansada de torcer no anzol

Ao longo destes, são-nos apresentados poemas coesos, densos, pensados, reais e um tanto de ironizados.

Falam-nos do que somos e, quando lido entre linhas, do que poderíamos ser. Do passado e o seu impacto no presente, dos hábitos perdidos e dos que, feliz ou infelizmente, ficaram.

É uma obra repleta de emoções, dimensão e profundidade, metáforas às quais podemos atribuir o nosso próprio julgamento, e situações nas quais podemos ver refletidas as nossas próprias experiências.

Um livro que vou reler, pois sinto que me terá mais a dar para além daquilo que dele tirei na primeira leitura.

((se gostavas de ver mais reviews assim, eu e as minhas amigas temos uma conta conjunta de livros no instagram, passa por lá! @insideourbookshelves))
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