Eu não estaria exagerando se falasse que a autobiografia de Mauricio de Sousa foi minha obsessão da última semana.
O que eu mais gostei
• A escrita em forma de conversa informal! Isso pode decepcionar quem espera um livro 100% bem estruturado (apesar de não ser uma bagunça também), mas eu amei sentir que cada capítulo era como estar sentado ao lado do Mauricio, ouvindo suas histórias.
• Conhecer os primeiros anos do Mauricio e entender que a Turma da Mônica sempre teve um apelo grande, mas demorou anoooooos para fazer o sucesso que faz hoje.
• A história do gibi no Brasil. A trajetória do Mauricio está ligada à popularização do gibi no Brasil e à luta pela valorização do artista nacional de quadrinhos. Associações, projetos de lei, parcerias com políticos, conversas com donos de jornal... Está tudo aqui. Como alguém que não é tão próximo do mundo dos quadrinhos, fiquei encantado com cada curiosidade.
• Entrar um pouco na mente do artista. Mauricio é muito criativo e tinha uma nova ideia de personagem, revista, história e produto toda hora! O jeito que ele se doava para cada uma dessas ideias e colocava a possibilidade de ver o projeto saindo do papel acima de interesses financeiros é lindo.
• Os bastidores por trás da criação de cada personagem, e como cada filho influenciou uma criação.
• O processo de confiar seus queridos personagens nas mãos de outros artistas, essenciais para manter o ritmo de produção de só crescia.
• As histórias em geral envolvendo Turma da Mônica e a recepção dos fãs. A mobilização gerada pelos fãs do Cascão, quando o personagem sumiu dos quadrinhos em época de fortes chuvas em São Paulo, me fez dar boas risadas.
• A paixão do Mauricio pelas histórias e o respeito que ele tem pelas crianças. Várias vezes ele diz que decepcionar crianças é um crime. Acho isso lindo.
• "Por que não?": as aventuras pelo mundo do cinema e da tecnologia, sempre visualizando novos e grandes horizontes para a Turma da Mônica.
• Ver que nem tudo são flores, como o contrato com a Rede Globo para programas e até um canal exclusivo da Mônica que nunca deu certo (além de vários outros projetos que foram por água abaixo).
• A prova de que artistas nacionais merecem mais reconhecimento e espaço, e que leitores brasileiros não preferem os gringos – apenas precisam de uma chance para conhecer quem faz arte aqui. Por exemplo, na Abril, TdM vendia 1 milhão de exemplares por mês. Supõe-se que, devido a um contrato com a Disney, a empresa não queria apostar ainda mais no Mauricio para não correr o risco de a Disney perder o primeiro lugar nas vendas. Quando foi para a editora Globo, sob promessa de condições melhores, TdM chegou a vender, em média, 5 milhões de exemplares por mês. Se esses números não provam nossa força, eu não sei o que vai.
• Ler sobre os bastidores de projetos, como o Turma da Mônica Toy e a Graphic MSP, que não surgiram da cabeça do Mauricio e que deram muito certo.
• A alegria de ter uma equipe que sabe proteger a TdM e guiá-la na direção que o Mauricio quer. Ele se sente seguro que sua turminha estará em boas mãos quando morrer.
• A não recusa pela mudança!! Mauricio abraça as mudanças na TdM conforme o mundo muda. Os novos gibis da Turma Jovem têm discursos feministas (liberais, imagino, rs) e personagens antenados às redes sociais.
O que eu não gostei
• O marabalismo para tratar os gibis como apolíticos, sem se comprometer com pautas de esquerda ou direita (já esperava). Aqui, preciso dar um pouco de contexto: Mauricio viu a loja de seu pai ser destruída após o pai ser acusado de ser comunista. Depois, foi expulso da Folha de S. Paulo por suspeitas de ele próprio compactuar com os "esquerdistas". Acho natural que tente se afastar ao máximo da política, mas discordo quando fala que não representa um lado ou o outro. Isso não é possível. Ou você compactua com o sistema, mesmo por omissão, ou você é contra ele.
• A famosa justificativa de que não tem personagem gay na Turma da Mônica Jovem porque a sociedade ainda não evoluiu o bastante (até entendo o medo de perder as vendas, mas para alguém que já tomou tantos riscos... Complicado)
• Alguns posicionamentos sobre licenciamento dos personagens, como os que ele diz que, para a indústria de alimentos, a equipe garante que o alimento é nutritivo e adequado ao paladar infantil. Faz-me rir.
• As críticas ao politicamente correto, que ele considera como algo bom, mas vê exageros. O lado bom seria o desuso de expressões ofensivas no gibi. Mas aí ele não explica direito o lado ruim, porque começa a falar de quando foi criticado por um trecho fora de contexto (???) ou do "patrulhismo" pelas críticas das armas nos gibis do Chico Bento.
EU PODERIA FALAR SOBRE ESSE LIVRO POR HORAS!!!!!!! O fato é que o lado negativo diz mais respeito à discordâncias de posicionamentos que tenho com o Mauricio do que com a experiência de leitura. Além disso, tenho esperança de que a equipe dele ouse mais nas histórias quando ele não estiver mais aqui. Por isso, cinco estrelas + favorito. Esse livro certamente me mudou e me fez enxergar os quadrinhos com outros olhos.
Obrigado por ser gigante, Mauricio!