«Nas memórias que marcaram o meu mundo e nas nossas memórias colectivas, do nosso mundo português, só duas coisas que, entre tantas, me afligiram…, mas mesmo apenas uma ou duas, porque as lembranças de lugares marcantes como o bar do Rick, em Casablanca; o teatro Capitólio; o Santini, em Cascais; o irrequieto mar do Guincho; a redacção do Diário de Lisboa; a tertúlia do café Monte Carlo; o pequenino mundo que começava e acabava no boulevard Richard Lenoir, em Paris, não me afligiram. De todo.
Entraram na minha vida e insistiram, teimosamente, em aí ficar a morar, acompanhando-me dia a dia, como fiéis e indefectíveis companheiras de viagem. Relevantes e nunca aflitivos são igualmente os relatos das minhas viagens quase diárias pelo mundo dos livros e das palavras, onde me cruzei com o Astérix e a Alice (a do País das Maravilhas); onde falo sobre contendas como a dos postais de viagens versus SMS; calcorreio frequentemente bibliotecas e feiras do livro.
E passo em revista alguns dos dias que comemoramos como se fossem nossos - Dia dos Avós, Dia da Mulher, o 5 de Outubro, Dia dos Namorados -, bem como aquelas coisas que são muito nossas (portuguesas) - o chá levado para Inglaterra, a crise, os ilustres que nos deixam e nos marcaram. Só duas coisas que, entre tantas, me afligiram… são breves estórias, do meu e nosso dia a dia, muitas delas publicadas no Jornal de Mafra on-line, que nos reconduzem às memórias e nos fazem reflectir sobre o mundo de hoje.»
Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa. É licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1958 iniciou a sua colaboração no suplemento «Juvenil» do Diário de Lisboa e a partir de 1969 dedicou-se ao jornalismo profissional. Desde 1979 tem vindo a publicar regularmente livros tendo, editados na Caminho, mais de cinco dezenas de títulos. Recebeu em 1979, o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com "Rosa, Minha Irmã Rosa", em 1983, com "Este Rei que Eu Escolhi", o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil e em 1994 o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. Trata-se do mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens, atribuído a um autor vivo pelo conjunto da sua obra. Alice Vieira é uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens, tendo ganho grande projecção nacional e internacional. Foi igualmente apresentada por duas vezes, como candidata ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award).
Normalmente diria que não aprecio particularmente a leitura de crónicas ou contos, mas como em tudo há sempre aquela exceção à regra.
Alice Vieira tem o dom de me fazer gostar, sempre e muito, das suas crónicas.
Com “Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram “ ‘invadimos’, uma vez mais, as “Pequenas Memórias” da escritora e, também uma vez mais, partilhamos de muitas das suas memórias e fazem parte da nossa memória coletiva, relatadas em tom mais sério ou com um fino sentido de humor.
Classificar e escrever sobre um livro de alguém por quem se tem enorme apreço pode sempre redundar num subjectivismo sem qualquer laivo de objectividade, mas justifica-se tentar esboçar alguns argumentos para que estas "pequenas memórias" sejam colocadas na vossa lista de livros "a ler". A primeira conclusão, após uma leitura que se revelou rápida e cheia de sorrisos, é que estas deliciosas crónicas cumprem de forma integral o propósito da Autora. A prova disso está inclusive no facto de que, não estando indicada a data de publicação original de cada texto e conseguindo-se descortinar que não são todos recentes, a verdade é que a mensagem ínsita a cada um deles mantém toda a sua actualidade e premência. É portanto uma leitura altamente recomendável, sobretudo para tempos onde não há "tempo para perder tempo" (p. 85). Uma leitura "enxuta" como é apanágio da Alice, focada no essencial, nos afectos, relembrando-nos da importância da simplicidade, mas que não deixa de oferecer-nos também reflexos da vida e personalidade de Maria de Jesus Pereira (P. 197) - urge pensar numa autobiografia - e simultaneamente pistas para pensar no que foi, é e será Portugal.
Várias pequenas estórias deliciosas pela minha escritora de infância preferida <3 Muitas me ensinaran curiosidades do passado e tantas outras me fizeram rir :D
Este título chamou-me de imediato, a mim que também tenho apenas duas, entre tantas, coisas que me afligem. Mais uma vez, refugiei-me em Alice Vieira para recuperar energias nativas. Tal como O Que Se Leva Desta Vida, este também é um livro de textos curtos. Neste caso, muitos foram publicados no Jorna de Mafra, onde Vieira escreve assiduamente, e incluem memórias, crónicas correntes e também alguma escrita criativa (poucos). Bastante interessante para quem aprecia este tipo de leitura.