Manuel de Freitas was born in 1972 and has lived in Lisbon since 1990, where he took a degree in Modern Languages and Literatures, majoring in Portuguese and French. He made his debut as poet in 2000, with Todos Contentes e Eu Também, and since then has published eighteen further books of poems and chapbooks, a number of essays on contemporary Portuguese poetry, as well as an anthology provocatively entitled Poetas Sem Qualidades [Poets without Qualities], in which he brings together some of the most significant names of his generation such as Rui Pires Cabral, José Miguel Silva and Ana Paula Inácio. He is also a translator, a literary critic for the weekly Expresso and runs the small Lisbon Publishing House, Averno, with Inês Dias, which not only publishes books by national and foreign poets, but also the most interesting Portuguese literary magazine to have appeared in a number of years: Telhados de Vidro. Considering the importance of his own poetry and also his activities as an essayist, critic and editor, it wouldn’t be too far-fetched to predict that he will come to be considered the central figure in Portuguese poetry of the first decade of the 21st century.
"Ao escrever ave não estou a escrever cigarro, tinteiro, vazio.
O real é contundente, de acordo, mas que dizer das palavras? (De resto, será o «real» assim tão real?)
Tinteiro é coisa que já não se usa, ave ainda - mas nem sempre bem.
E o cigarro entretanto ardeu."
Arte Poética I
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"Durante anos, aturámos hipérboles, quiasmos e anacolutos, sem repararmos que os corpos se sujeitavam afinal tão mal ao sujeito nulo das orações finais.
Não bebíamos dos mesmos vinhos - era outra a noite, sepulcro ou delírio: para ti os livros, um hábito de família, enquanto eu, de Rimbaud fechado no bolso, me embebedava apenas, habituado a estar triste.
Antes de nunca mais nos vermos percebi que era demasiado tarde e baleei-te devagar com um rosto que poderia ter-te amado, se tivesse podido, e tu, uma correria vã, inóspita e desajustada em busca do tempo perdido que se perdeu para sempre e nenhum de nós esteve lá."
Música de Perder
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Parece-me que a maioria destes poemas foram escritos de um lugar onde a dor se tornou confortável: por mais desconcertante que seja o sofrimento, quanto mais dura e quanto mais o conhecemos, mais ele se presta a tornar-se uma zona de conforto da qual não queremos sair. Há, no entanto, uma espécie de incisões nas palavras de Manuel de Freitas, e por essas brechas entra a luz... e essa luz, parece-me, tem um nome de uma mulher, da mulher à qual dedica este livro.
“Comecei a escrever um poema sobre ti, mas esqueci-me do teu rosto e do modo como o trazes à altura excessiva do chão. Regressei então aos meus mais comuns lugares e falei (como falo sempre) da morte que pratico sem razão à vista.
Por este andar, não volto a encontrar o meu sonoro estilo adolescente, tão despido de certezas como de comércios literários - e torna-se-me difícil escrever um poema de amor apenas com os restos de quem fui e com o pouco que desse amor não tive.
Hei-de voltar a ver-te, quem sabe?, traficando a imperícia sob o cronómetro dos meus ombros - e saberei então que os eléctricos que se perdem conduzem invariavelmente a um poema alheio e que por isso, embora sem ser por isso, o nosso desencontro é uma estória inútil entre aspas de betão.”