PARA ONDE VAI A IDENTIDADE DE QUEM AMAMOS QUANDO CHEGA O ALZHEIMER?
No momento em que a mãe deu os primeiros sinais da doença, Heloisa Seixas começou a viver diariamente com esta dúvida angustiante. A partir daí, começa uma «espiral assombrada» na vida destas duas mulheres e de todos os que as rodeiam, a mesma espiral que marca a intensidade deste relato corajoso, desassombrado e catártico sobre alguém que vai desaparecendo e se vai transformando no seu avesso. ‘Sua mãe não existe mais. O que existe é uma entidade, que tomou o lugar dela. Não sei que entidade é essa, nem o que se passa em sua mente. Só sei que ela não é mais sua mãe.’
Essa frase foi dita por mim, num dos muitos momentos dramáticos enfrentados por minha mulher, Heloisa, em sua convivência com a mãe, afectada pelo mal de Alzheimer. Foi uma trajetória assombrosa, que acompanhei de perto, e que Heloisa reconstrói nesse livro com uma tremenda força literária e emocional. —Ruy Castro Este livro resgata da obscuridade um tema tabu: a doença que tem vindo progressivamente a ensombrar o mundo ocidental. Uma praga que, não sendo física, é aparentemente impossível de vencer - sobretudo, é impossível de compreender, para quem está «deste lado». Falhas de memória, medos que não sabíamos existirem, paranóias de toda a espécie, velhos que se transformam em crianças, de tão dependentes. E quem cuida vive com desgosto, comoção, repulsa e raiva, por vezes em simultâneo.
Heloísa Seixas (Rio de Janeiro, 26 de julho de 1952) é uma escritora e tradutora brasileira. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense, Heloísa trabalhou como jornalista na agência de notícias UPI e depois na assessoria de imprensa da ONU. Em 1995 estreou como escritora, ao lançar um livro de contos chamado Pente de Vênus: histórias do amor assombrado. Um ano mais tarde, a Record lançou seu primeiro romance, A porta. Desde então, Heloísa Seixas têm escrito romances, contos e novelas. Além disso, Heloísa mantém uma coluna na revista Domingo do Jornal do Brasil, entitulada Contos Mínimos. Heloísa Seixas é casada com o também escritor Ruy Castro
"Foi no dia em que minha filha saiu de casa que minha mãe enlouqueceu", é assim que começa "O Lugar Escuro", um livro onde continuei a explorar o tema da doença de Alzheimer, mas agora do ponto de vista dos que estão à volta. Heloísa Seixas, conta-nos como foram os primeiros sinais da doença da mãe (que foram sendo ignorados ou não entendidos) e descreve corajosamente uma "espiral assombrada, feita de vertigem e dor, que giraria cada vez mais rápido, apagando o real". A mãe da escritora começou no dia 16 de Fevereiro de 2002, a "desaparecer em vida", mas as mudanças de temperamento, os lapsos, as trocas de nomes, os esquecimentos, as perdas de objectos e as desorientações, já lá estavam e foram dando sinais ao longo de 5 anos. De mulher liberal, moderna, generosa, que se sacrificava pelos outros e que suportava as dores físicas e morais estoicamente, transformou-se no avesso de si mesma, "deixando aflorar tudo o que havia passado a vida a negar ou a esconder. "Onde havia liberdade, surgiu um conservadorismo tacanho". Tornou-se uma pessoa manhosa, implicante, "cheia de vontades", exigindo abraços e beijos. Tornou-se medrosa e sensível a qualquer dor.
Enquanto nos apresenta a mãe, Heloísa fala-nos de histórias de infância e adolescência, algumas delas vistas através dos "olhos da memória", de tantas vezes que foram contadas, fala-nos do medo de enlouquecer e "acabar como a "Quiquinha", da incapacidade da mãe em superar o divórcio e dos problemas psiquiátricos da família materna. A própria Heloísa sente que "cresceu cercada de loucos" e desabafa sobre o facto de sempre ter sido uma criança muito solitária, que vivia num mundo só seu e cheio de personagens imaginários, que a tornaram escritora, considerando mesmo que foi "salva pela palavra." É muito corajoso da parte da escritora reconhecer que muitas vezes sentiu raiva da mãe, que achava que ela fazia de propósito só para a chatear e levar à loucura e da culpa que sentia por ter esse tipo de sentimentos e pensamentos. Este é um relato sincero, um desabafo que chama a atenção para todos os cuidadores informais, que tantas vezes são esquecidos pela sociedade. Cuidar dos seus entes queridos quando estes já não são quem eram, a tempo inteiro, sem folgas, pode ser esgotante e este livro é uma voz que devemos ouvir
"O mal de Alzheimer é arrasador para quem o vivencia. Não é, como algumas pessoas pensam, uma boa forma de morrer. «A pessoa enlouquece e não percebe nada», dizem. Mas não é assim. A pessoa sabe que está enlouquecendo. Pelo menos, até certo ponto. Dali em diante, o terror é com o outro. Com o que ficou para assistir".