Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma - e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida. Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária. Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou ideias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.
Nasceu em 1957, em São Paulo. É professora titular no Departamento de Antropologia da USP. Seu livro As barbas do imperador - D. Pedro II, um monarca nos trópicos ganhou o prêmio Jabuti Livro do Ano, em 1999. Além deste, publicou também: O espetáculo das raças, O sol do Brasil (prêmio Jabuti de melhor biografia, 2009), D. João carioca - história em quadrinhos sobre a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em coautoria com Spacca -, entre outros livros.
Sem dúvidas uma das biografias que mais me fez sentir íntimo do biografado. A autora retrata de maneira brilhante o contexto social, político e cultural da vida de Lima Barreto, nascido simbolicamente no mesmo dia (no entanto, 7 anos antes) em que viria a ser assinada a Lei Áurea. Filho de pais negros livres e que, por exceção à época contaram com uma formação educacional de qualidade, o que viria a ser transmitido à Barreto e seus irmãos, o biografado exercia uma literatura militante, por meio da qual, de forma nada sutil -pelo contrário, sempre de modo cortante e com ironias ácidas - possuía como principal objetivo denunciar os estigmas que ainda perseguiam a população negra brasileira, mesmo após a abolição da escravidão. Nesse contexto, Barreto assistiu ao surgimento de novas teorias sociológicas e deterministas que estabeleciam um sistema social de hierarquia que fazia questão de lembrar Barreto e seus similares acerca dos lugares à margem da sociedade aos quais deveriam permanecer limitados. O biografado teria sempre sido perseguido por tal estigma, o que o teria levado ao alcoolismo (causa indireta de sua morte) e a ser internado duas vezes em um hospício. Vale destacar também a maneira incrível com a qual biógrafa lança mão de trechos das inúmeras obras de Lima Barreto para demonstrar como os seus personagens espelhavam a sua subjetividade e serviam como modelos autobiográficos, o que sempre fora alvo de críticas pelos literatos da época. Recomendo fortemente a leitura.
Mais do que uma biografia do Lima Barreto, o livro é um relato encantador da história do Brasil e do Rio de Janeiro. Desde o império ao início do Modernismo, o livro faz um relato fascinante e fidedigno da Belle Époque Carioca, que deu moldura e cenário à vida de Lima Barreto. Possivelmente a melhor obra da historiadora Lilia Schwarcz! Um panorama valioso da literatura pré-modernista e dos conflitos sociais que embalavam o início da República!
Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora e editora. Leciona na USP já tendo atuado como docente em Princeton, Oxford, Leiden, Brown e Columbia. Também é autora premiada de obras como “As barbas do imperador” e “Brasil: uma biografia”. “Lima Barreto: triste visionário” que venceu o prêmio de melhor biografia segundo a APCA (Associação paulista de críticos de arte) em 2017 é um trabalho de fôlego da autora, não apenas, nos conta a história da vida e da obra de Lima Barreto. Ela, amiúde, se afasta do biografado para “biografar” o seu entorno histórico, político, geográfico, sociológico etc o que abrilhanta a obra. É “tristemente fascinante” a história de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881/1922), jornalista romancista, contista, cronista, autor de obras basilares como “O triste fim de Policarpo Quaresma”, “Recordações do escrivão Isaías Caminha” e “Os bruzundangas”, morto precocemente com apenas 41 anos, que não conheceu, em vida, o sucesso e a consagração de que hoje sua obra desfruta. Beatriz Resende, professora titular da faculdade de letras de UFRJ e cientista pela FAPERJ, uma das organizadoras do monumental “Toda Crônica” que reúne a produção de Lima Barreto como cronista, declarou o seguinte acerca de “Triste visionário”:
“Lilia Moritz Schwarcz traz o extraordinário romancista carioca como participante e intérprete de uma república que já surgia carregada de marcas autoritárias, vulnerável à corrupção, ao favoritismo e em um mundo em que a cor atua como discriminador social”
Lilia Moritz Schwarcz não esconde a sua fascinação pela pessoa e pela obra de Lima Barreto o que não a impede de apontar suas obsessões, contradições e mostra de forma bem realista o seu vício em bebida que provocou, em larga medida, a sua trágica morte. Ótima pedida!