Um livro fundamental para quem deseja ser escritor ou está começando na carreira. Embora foque na literatura fantástica, aborda de forma franca e clara questões palpitantes do mercado editorial, como a dificuldade de encontrar uma editora, a publicação independente, as armadilhas a que o autor iniciante está sujeito, as desilusões e as pequenas conquistas. Mais do que traçar a trajetória de uma geração importantíssima de autores, A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil é um documento sobre essa grande quantidade de leitores-escritores surgida com a Era Digital.
Autores, editores e pesquisadores entrevistados:
Ana Cristina Rodrigues • Ana Lúcia Merege • André C. S. Santos • André Vianco • Anna Fagundes Martino • Artur Vecchi • Bárbara Morais • Becca Mackenzie • Camila Fernandes • Camila Guerra • Carlos Orsi • Heidi Gisele (Celly) Borges • Cesar Silva • Christopher Kastensmidt • Cirilo Lemos • Clara Madrigano • Claudia Dugim • Clinton Davisson • Cristina Lasaitis • Duda Falcão • Eduardo Kasse • Eduardo Spohr • Eric M. Souza • Eric Novello • Erick Sama • Fábio M. Barreto • Felipe Castilho • FML Pepper • Gianpaolo Celli • Giulia Moon • Helena Gomes • Jana P. Bianchi • Jim Anotsu • Ju Lund • Karen Alvares • Lauro Kociuba • Marcella Rossetti • Marcelo Amado • Marcus Barcelos • Martha Argel • Nikelen Witter • Peterson Rodrigues • R. F. Lucchetti • Regina Drummond • Richard Diegues • Roberta Spindler • Roberto de Sousa Causo • Rodrigo van Kampen • Rosana Rios • Simone O. Marques • Simone Saueressig • Thais Lopes
Kátia Regina Souza é jornalista, revisora, tradutora e, há alguns anos, tenta ser escritora também. Gosta de contar boas histórias, sejam elas ficcionais ou não. Portanto, escreve livros-reportagem para adultos e literatura fantástica para crianças. Mais informações sobre a autora podem ser encontradas em seu site, katiareginasouza.com.
Conheci este livro por acaso e logo me interessei: "A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil" apresenta depoimentos de diversos escritores e escritoras brasileiros sobre as aventuras e desventuras de quem produz literatura no Brasil. O foco é na ficção especulativa (fantasia, ficção científica, distopia, horror e terror), mas as dores e alegrias podem ser compreendidas por quem escreve e publica em qualquer outro gênero. O conteúdo do livro, produzido a partir de entrevistas, nos leva a acompanhar as peculiaridades dessa carreira desde aquilo que fez com que os entrevistados quisessem escrever - e as respostas são as mais diversas possíveis - até os conselhos para novos escritores. Também estão incluídos nisso os perigos de entrar no mercado editorial sem tanto conhecimento, a dificuldade de conseguir editoras, a visão dos editores, a vida de autor independente (incluindo nisso os fanzines, a publicação paga, os financiamentos coletivos, o Wattpad e a Amazon), entre outros assuntos. É possível, pelos relatos, ter um bom panorama sobre o mercado brasileiro de ficção especulativa desde o fim dos anos 90 (quando se dizia que "isso não vende") até o período pós 2015. Vemos a ficção especulativa sair de um gênero desprezado, passar por um boom otimista após o sucesso de livros estrangeiros traduzidos, ter a criação e o fechamento de editoras especializadas, para o período atual de menor estigmatização no mercado. Esse aspecto é um dos mais interessantes do livro, pois se eu já conhecia (e vivi e ainda vivo) algumas das coisas relatadas pelos autores, pouco sabia sobre como era publicar literatura fantástica no Brasil até 20 atrás. Outra coisa que tornou a leitura melhor ainda, para mim, foi ver os nomes, trajetórias e opiniões de pessoas que leio e admiro, como Anna F. Martino, Eric Novello, Felipe Castilho, Jana Bianchi, Jim Anotsu e Karen Alvares, além de pessoas que ainda pretendo ler. Sem falar no fato de ter conhecido vários outros nomes da literatura brasileira e de ter adicionado muitos títulos à minha lista de leituras desejados. É um livro muito interessante para quem tem pouca experiência no mercado editorial e deseja saber mais e também para quem lê ou escreve ficção especulativa.
Este livro da Kátia Regina Souza não é um livro a ser resenhado, e sim debatido. Ela apresenta uma pesquisa de fôlego feita durante um longo período de tempo voltado para expor ao leitor e a outros autores as dificuldades do processo de criação e publicação de um livro. É uma obra de não-ficção, mas é a primeira que eu vi no país voltada para a divulgação do gênero fantástico. Não me recordo de outros trabalhos com essa temática e possivelmente esse é um dos maiores plus deste livro.
No Brasil, o gênero de fantasia e de ficção científica é visto com muito preconceito pelos leitores. Considerado como coisa de criança ou bobagem literária, não existem muitos investimentos neste setor. O ano de 2017 para quem é fã de livros como Senhor dos Anéis, 2001, Mistborn, Leviatã Desperta e tantos outros foi desesperador. O que começou como um primeiro semestre muito promissor com indicativos de muitos lançamentos incríveis sendo feitos ao longo do ano, se mostrou tenebroso e sem qualquer perspectiva de melhora para o próximo ano. Isso fica ainda pior se jogamos a lupa para as obras de fantasia e ficção científica nacionais. O que era para ser melhor já que não depende da compra de direitos autorais ou de tradução é muito mais deprimente. Não existe um investimento das editoras na figura do autor brasileiro de gênero.
Kátia Regina constrói o livro como se seguisse a jornada do herói em que cada capítulo representaria um dos pontos desta mecânica. Achei genial da parte da autora porque essa ferramenta constitui a essência por trás de mais da metade das obras de gênero publicadas no mundo. São cinquenta e duas entrevistas apresentadas neste livro com os mais diferentes autores e profissionais da área editorial: temos um André Vianco e um Eduardo Spohr, assim como uma Clara Madrigano, uma Anna Fagundes Martino, um Felipe Castilho, um Lauro Kociuba, uma Janayna Bianchi e muitos outros. Não há favorecimentos; a autora age como a mediadora das discussões apresentando tópicos para debate e todos os lados da questão. Me senti como se estivesse assistindo a um documentário narrado por Kátia Regina e contando com depoimentos os mais diversos.
São abordados inúmeros assuntos como a criação da ideia, a publicação de um livro, a busca por uma editora, a autopublicação, o feedback, o pós-publicação, entre vários outros temas. Tudo é explorado com muita seriedade e precisão pela autora. As falas são muito pertinentes e em alguns momentos a exposição fica um pouco mais emotiva quando os obstáculos são apresentados. Uma fala da autora é muito patente da maneira como o livro deve ser compreendido: "este livro é voltado para que os autores que estão com alguma dificuldade entendam que eles não estão sozinhos e que outros já passaram pela mesma situação, tendo (ou não) resolvido seus dilemas". Tenho certeza que daqui a alguns anos este vai ser uma leitura obrigatória.
Um tema que eu acho que a Kátia acabou não explorando tanto no livro são as escolas de escrita criativa. No Brasil elas são praticamente inexistentes. Quando falamos que muitos autores sofrem com uma escrita ou um comportamento muito amador em relação à profissão de autor, isso se deve também ao fato de que o ensino superior não forma novos talentos. Seria de fundamental importância para o Brasil formar escritores do mais alto calibre para que possamos explorar mais o potencial de mentes geniais que temos espalhadas por toda a parte. Se, com a falta de um ensino de escrita criativa somos capazes de formar escritores muito talentosos, imaginem o ganho final que isso representaria.
Apesar de em alguns momentos o livro parecer mostrar muitos obstáculos, senti uma mensagem muito otimista deixada pelos entrevistados. Seria muito complexo se a autora escrevesse um livro que só colocasse tudo abaixo, apesar de que se trata de um livro de não-ficção e não havia motivo para se preocupar com tal. Fiquei com uma boa impressão apesar do momento ruim em que vivemos e isso vindo até mesmo de integrantes de editoras. Ah, sim, a autora trabalhou bem essa parte do outro lado, da editora, e desmistificou a visão demonizada que temos acerca do trabalho deles. Gostei de ter podido ouvir um pouco mais da posição de Arthur Vecchi e do Erick Sama, e até da dupla fundadora de um dos melhores trabalhos editoriais feitos nos últimos anos, o da falecida editora Tarja.
Parece ser um livro voltado apenas para escritores, mas sugiro fortemente aos blogueiros e booktubers darem uma passada de olhos no livro. Aqui é explicado muito acerca da produção de um escritor. Vejo ainda muitos blogueiros que possuem uma postura amadora em relação ao trabalho que fazem na internet. Não podemos jamais esquecer que somos produtores e compartilhadores de conteúdo em todas as redes sociais. Podemos levantar ou afundar um trabalho com a mesma facilidade que idolatramos um bestseller americano. Precisamos entender também o quanto é importante como produtores e compartilhadores de conteúdo, apoiar o mercado nacional mesmo que para isso você adie a leitura daquele livro que você tanto queria por alguns meses. Apoiar literatura nacional é um dever nosso como brasileiros e digo mais: tem muitos livros nacionais que são anos-luz melhores do que muito autor gringo mediano.
A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil é uma ferramenta incrível disponibilizada por Kátia Regina Souza a todos nós. Recomendo este livro a escritores, membros de editoras, blogueiros, booktubers e qualquer outra pessoa interessada na produção de literatura fantástica no Brasil. Uma leitura rápida e inebriante que nos leva para o interior deste difícil mercado que é o dos livros de gênero. Parabéns para a Kátia Regina por nos entregar este livro riquíssimo.
A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil é um livro muito útil para o leitor conhecer mais sobre os bastidores da literatura fantástica nacional. E é obrigatório para o autor que pretende fazer parte dela.
A autora Kátia Regina Souza nos conta, em formato de livro-reportagem, a história recente da literatura nacional de fantasia, terror e ficção científica. Ela entrevistou mais de cinquentas pessoas, entre escritores, editores, críticos e pesquisadores, para falarem sobre suas experiências e avaliações do passado e do futuro dessa parcela do nosso mercado editorial. É uma história de desânimo, derrotas, desistências e prejuízos, por um lado. E de desafio, conquistas, fortalecimento e crescimento, por outro.
A maior contribuição do livro é revelar a verdade nua e crua. Ser escritor no Brasil é difícil. Ser escritor de literatura fantástica é pior ainda. Mas também há outra realidade: o autor nacional de lit fan é muito dedicado, procurando sempre se aperfeiçoar e se profissionalizar; não exatamente para viver de literatura, mas para apresentar ao leitor um produto tão bom quanto os demais livros no mercado, em conteúdo e forma.
Os capítulos de A Jornada Fantástica são divididos emulando as etapas da jornada do herói. Mostra o caminho do autor, do manuscrito à publicação. Na verdade, os caminhos, considerando a autopublicação, a publicação tradicional, as plataformas digitais e a contratação de vanity presses, as polêmicas editoras pagas. O livro também tem um aspecto de utilidade pública. Alerta autores, principalmente, em início de carreira, a refletir melhor sobre suas opções e evitar ciladas. Além de dar preciosas dicas de como deve ser a postura de um autor profissional, que busca reconhecimento no meio e entre os leitores.
A Fantástica Jornada é uma leitura fluida com pouquíssimos erros de revisão. Isso graças ao talento da autora e com certeza de outras pessoas em editar bem o texto, deixando o conteúdo relevante e dinâmico.
Terminado o livro, podemos chegar às seguintes conclusões, principalmente, para quem acompanha a literatura fantástica nacional como leitor: 1) O melhor dessa literatura no Brasil está sendo produzido por autores independentes e pelas pequenas editoras, salvo raras exceções; 2) O mercado da lit fan nacional ainda está atrasado, mas há uma tentativa constante de recuperação, pelo esforço de muitos autores e de algumas editoras; 3) Esse esforço já está chamando atenção, já há algum tempo, do mercado editorial como um todo; 4) Mas isso não é garantia de crescimento no automático. A História ensina que não existe essa coisa de evolução contínua, a oscilação é um quadro mais realista; 5) A lit fan nacional está sendo mais estudada na academia, quebrando, aos poucos, uma barreira de longa data; e 6) O leitor brasileiro, pelo menos, aquele acostumado a ler, cada vez mais, está entusiasmado pelos autores nacionais de lit fan, num universo em que os autores estrangeiros têm um apelo muito forte.
Um apanhado de entrevistas com autores e editores ligados a literatura fantástica no Brasil. Uma delicia de ler, muito pela forma que Kátia organizou as respostas e inseriu seus poucos (porem ótimos) comentários entre elas. Me diverti bastante com a idéia dos capítulos espelharem a Jornada do Herói. É sempre bom ouvir as anedotas de quem esta no mercado, lembrar como os caminhos são múltiplos e as expectativas individuais divergentes.
Minha única crítica: Senti falta de saber mais sobre o trabalho de cada um antes de ler o que a pessoa tinha a dizer. Conhecia somente alguns autores, e acredito que um pequeno trecho do texto de cada seria ótimo para entendermos o estilo individual e o que procuram na literatura. Ajudaria diferenciar as múltiplas vozes.
Em conclusão, um trabalho pioneiro no Brasil, que deve ser lido e apoiado por quem se interessa por Literatura Fantástica!
Esse livro foi uma montanha-russa deliciosa. Explico: montado a partir de entrevistas com 52 autores de ficção especulativa — alguns mais conhecidos; outros, menos —, A fantástica jornada do escritor no Brasil serve tanto como um choque de realidade quanto como uma fonte de esperança para quem o lê. Não se trata de um manual ou livro técnico. Não é um livro sobre escrita, mas sobre a profissão do escritor. Os entrevistados discutem experiências e inseguranças, prós e contras, e o resultado é um trabalho conduzido de forma primorosa, uma excelente apresentação para todos os interessados no ramo.