As novidades tecnológicas que surgiram no fim do século XX trouxeram novos desafios para a gestão da informação. Os acervos físicos perdem sua tradicional importância, uma vez que a internet facilita o acesso à produção simbólica. Então, o que o futuro reserva para o armazenamento de livros, a preservação de documentos e a difusão das ideias? Para Luís Milanesi, há uma resposta: mais do que guardar e emprestar livros, as bibliotecas devem se tornar espaços para discutir e criar conhecimento.
O livro é de 1991, revisto e ampliado em 1997. Aparentemente, a edição de 2003 reproduz a de 1997. Antes de qualquer coisa, torna-se importante contextualizar a área da Cultura no Brasil da década de 1990, cenário analisado na obra.
O autor esmiunça afinco os problemas sociais e políticos brasileiros que remetem a precariedade da área da Cultura, mostrando-nos que as raízes de suas debilidades são claramente histórico-estruturais. Milanesi nos leva à Companhia de Jesus e aos Jesuítas cujos sistemas de ensino eram completamente embasados na reprodução dos dogmas religiosos. Adiante, explana a cerca do encantamento que as autoridades brasileiras têm com a ideia dos centros de Cultura surgidos na Europa da década de 1970, em especial o Centro Georges Pompidou de Paris - autoridades públicas que geralmente são acostumadas a ideia de Cultura ser algo ligado a persona culta e/ou que sirva somente como um signo a ser esbanjado pelo município, mesmo que o próprio não faça uso desses espaços.
É notório perceber que, no Brasil, ocorre uma diferenciação conceitual entre bibliotecas públicas e centros de Cultura, enquanto, na Europa, os centros de Cultura em ascensão não são nada mais que bibliotecas públicas que absorveram todas as demais atividades e espaços culturais como teatro, museu, cinema, auditórios, bares, parques, anfiteatros etc.
Na contramão do desenvolvimento de seus espaços, as bibliotecas começaram qualitativamente a cair em queda livre (ou seja, a ficarem mais precárias do que já eram), muito por causa do surgimento de centros de Cultura criados apenas como apetrechos simbólicos e copistas de algo que estava em pleno desenvolvimento na Europa. Porém, tratar-se-ia duma antropofagia feito às pressas, sem informação e com total desconhecimento de causa. Primeiro veio a forma sem antes definir a função. Pior, sem considerar o que já existia.
O livro desmistifica o que são centros de Cultura e como as bibliotecas são peças-chave desses espaços, além de fazer uma análise muito interessante a respeito de como o Estado é autoritário com os espaços culturais ao aplicar uma certa uniformização e estabelecimento de padrões em algo que, sabidamente, varia drasticamente de uma cidade para outra. Não existe biblioteca pública padrão, a biblioteca é resultado da expressão e necessidades da comunidade a qual faz parte. Os resultados de uma política que exerça uma força esmagadora de cima para baixo, através de um Estado forte e extremamente centralizador, são drásticos e irreparáveis.
A comunidade deve fazer e se sentir parte das bibliotecas/centros de Cultura, inclusive ocupando os espaços de gestão como conselhos, assegurada a total liberdade de expressão. O livro é magnífico e nos provoca muitas reflexões a cerca duma sociedade que necessita cada vez mais de informação para alavancar o desenvolvimento e a própria formação de identidade.
"É um paradoxo: quanto mais pobre é uma sociedade, mais necessita das palavras, das formas e da capacidade de inventá-las; e, por ser pobre, tem imensa dificuldade de produzi-las e torná-las fortes. É, ainda, fundamental que a expressão de uma sociedade se relacione e se integre nas palavras e formas que a humanidade em toda a história produziu. Esse é um processo que uma sociedade que se deseja autônoma deve conduzir: obter o conhecimento e criar novos é concretização de autonomia de um indivíduo e de um país”.
Segundo Milanesi, os espaços culturais, pouco entendidos como tais pelos próprios bibliotecários que fazem parte de seu meio, não devem ser meros espaços de reprodução e imposição, pois, desses, basta a escola tradicional e os meios de comunicação em massa. Os espaços de cultura, inevitavelmente, devem ser espaços de informar, discutir e criar. Tais prerrogativas são essenciais para que ocorra conflitos de ideias, análises do meio em que se vive e revisão do que é considerado verdade, dando espaço para que o inquestionável ceda ao mutável, para que a imposição dê lugar à tomada de posição. Não há formação sem informação, isto é, sem o jogo de conflitos nada poderá ser criado. Sem a tríade (informar, discutir, criar) as bibliotecas não conseguirão alçar voos mais altos no atual cenário em que o país se encontra.
Livro essencial para qualquer profissional ou cidadão envolvido em políticas e construção de espaços culturais no Brasil. A visão de Milanesi sobre o que são os Centros Culturais e o que eles poderiam ser transforma completamente as noções pré-estabelecidas que temos sobre eles.
Gostei bastante, quero uma cópia impressa. Acho que ficcionalizar os conceitos da biblioteca pública, aberta e brasileira rendeu reflexões ótimas. O texto é muito bem escrito e eu ri das piadas com governantes falhos, população reativa e criatividade improvável. Lerei muitas vezes com certeza.