Belfast, 1924. Um homem acusado de assassinato põe um presídio inteiro em pânico: como é possível que nasçam flores e plantas de dentro de uma fria cela de concreto? Na tentativa de investigar o caso, um capitão do Exército vai se deparar com um mundo desconhecido — e com fantasmas que ele desejava ter esquecido.
Em 2019, decidi fazer comentários sobre tudo o que leio. Preciso de um disclaimer para explicar como dou estrelas: eu analiso dentro da proposta do livro e das minhas expectativas e, com isso, decido a nota. Eu paro de ler se estou detestando um livro, então dificilmente tem livros de uma estrela e duas estrelas nas minhas leituras.
5 estrelas
Eu havia gostado bastante de Casa de Vidro e do universo que a Anna criou, mas em Berço de Hera as coisas ficaram ainda mais legais! Não só o enredo é legal, como os personagens parecem mais próximos do leitor, suas dificuldades e angústias bem transparentes no papel. A forma como a Anna vai revelando o mistério é muito interessante também, e ela escreve muito bem.
A casa de vidro foi uma leitura deliciosa no ano passado, então não poderia esperar diferente de Um berço de heras, que faz parte da mesma série. Essa é mais uma história botânica (amo quando esse termo) da Anna Martino, que traz de volta alguns personagens do livro anterior: os descendentes de Eleanor. As fadas continuam misteriosas e incríveis, sendo que, desta vez, aparecem mais poderosas e em maior número.
É um bom livro porém senti mais uma vez a falta de detalhes sobre os seres sobrenaturais. Não há uma explicação. E isso me deixou um pouco sem vontade de continuar a ler o livro. Existe o terceiro e espero que tenha os detalhes que tanto gostaria de saber.
Continuando a história de A Casa de Vidro, Anna Fagundes Martino nos leva para uma espécie de "segunda geração" dos personagens do primeiro volume. Aqui somos colocados diante de um prisioneiro que tem algum tipo de ligação com o mundo feérico apresentado no primeiro volume. Parece que ele e Stella se conheceram em algum ponto do passado e esse contato com o outro lado fez despertar alguma influência feérica em sua vida. Mas, ele está preso em Belfast e sob o olhar vigilante de toda uma guarnição.
Como eu já comentei na resenha do primeiro volume, eu gosto da escrita da Anna. Ela consegue mesclar muito bem o fantástico com o real criando uma amálgama do qual o leitor fica confuso para diferenciar uma coisa da outra. Aliás, previno logo, não são histórias com momentos de ação e tripas voando, não é essa a proposta da autora. Ela nos apresenta histórias de pessoas cujas vidas se entrelaçam com interferências vindas de um outro mundo que não é o nosso. As criaturas feéricas frequentemente visitam o nosso mundo seja por acidente, seja por curiosidade e podem ou não se relacionar com seres humanos. O estranho surge desse entrelaçamento entre humanos e feéricos. A temática proposta pela autora me fez recordar de um livro que eu gosto muito chamado Mythago Wood, escrito por Robert Holdstock. É um autor que faz a mesma brincadeira de entrelaçar realidade e magia, produzindo histórias bem intimistas sobre pessoas e seus desencontros.
Stella e Eamonn são bem desenvolvidos e eu curti conhecer mais sobre a Stella que ficou um pouco no pano de fundo em A Casa de Vidro. Percebemos que Stella tem mais do lado feérico que humano e, portanto, ela é uma pessoa estranha com quem interagir. Esse estranhamento pode causar situações engraçadas e outras bem contrastantes. A autora trabalha bem a questão da diversidade cultural e até uma visão "humanocêntrica" representada por Mark. Isso porque o gerar outro ser possui uma outra conotação para Stella. O apego emocional e afetivo dado pelos humanos não é o mesmo que Stella dá a suas criações. Tem um momento bem forte por volta do segundo capítulo onde Mark diz que Stella entende seus filhos como galhos de uma árvore. Uma passagem forte, mas que demonstra as visões distintas sobre temas que aparentemente parecem simples.
Já Nigel tem uma jornada de arrependimento bem longa por ter sido ele a ter matado Eamonn pela "primeira vez" durante uma batalha na Bélgica. O pano de fundo da Primeira Guerra Mundial caiu muito bem para o romance e a Anna tem uma apuro muito bom para os sentimentos daqueles envolvidos no conflito. O sentimento de tristeza e melancolia transborda pelo ar. Nigel acabou enviando Eamonn para o front por um motivo besta e foi responsável por tudo o que aconteceu depois. Fiquei em dúvida se Nigel sabia ou não de uma certa situação colocada mais para o final de Um Berço de Heras. Digo isso porque uma pequena suspeita que o levasse a concluir aquilo poderia ter justificado o envio de Eamonn em uma situação de morte quase certa.
A novelleta tem uma bela profundidade e conseguimos extrair muitas coisas nas pouco mais de oitenta páginas. Isso só demonstra a riqueza da escrita da autora. Na live que fizemos com ela no último domingo (dia 02/09) a autora revelou que vai publicar o volume final da trilogia agora no final do ano. Estou bastante curioso sobre como ela pretende encerrar a história.
Gostando muito dessa série de contos. A escrita é muito gostosa, e a autora consegue construir uma ambientação muito rica e mágica com personagens complexos mesmo com poucas páginas. Me lembrou um pouco de O Menino Dos Dedos Verdes, de Maurice Druon, com as plantas nascendo no presídio. Vou logo ler o último conto!