Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. O imóvel fica na região centro-sul de Belo Horizonte, no edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer em 1952. Enquanto viveu ali, a inquilina trocou e-mails com o locador. As mensagens, de início, abordavam questões meramente práticas. Mas, depois, se converteram em uma troca de poemas sobre o permanecer e o partir, o morar e o exilar-se, o familiar e o estranho.
Um dos méritos do livro está no fato de que ambos os poetas, apesar de escreverem a partir das provocações e evocações poéticas apresentadas pelo outro, não estabeleceram uma relação simbiótica, de perda da identidade em direção a uma linguagem comum e a uma síntese estilística. Ao contrário, a singularidade de cada um foi plenamente mantida, percepção confirmada pelo poeta Ricardo Aleixo, autor do texto de orelha da obra: “Ana e Eduardo conseguiram a proeza de compor uma obra que não apaga nem relativiza as diferenças estilísticas entre ela (sua rara aptidão para o manejo da camada fônica da palavra, com especial destaque para a composição de frases de diferentes extensões) e ele (a imageria algo desorbitada e o gosto pelas ousadas torções sintáticas)”.
Entre janelas, corredores, cigarros, xícaras de chá e regras de condomínio, os poetas levantam sua morada (e também sua partida) com seu material de construção mais íntimo (e por que não, mais estranho): suas palavras.
Nasceu em Belo Horizonte, em novembro de 1977. Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, é mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Comparada pela mesma universidade. Em 2007, ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria “Poesia — autor estreante”, e, em 2008, recebeu novamente o mesmo prêmio, na categoria “Poesia”.
Gostei de muita coisa, mas estou um pouco cansada dessa poesia brasileira contemporânea de classe média de gente que viaja pra fora do brasil pra escrever pra ficar falando dos lugares gringos e coisas que ngm mais sabe do que se trata.
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Relendo agora nesse período de isolamento dentro de casa 24h por dia.
casa ambulante, redefinir o que chamamos de lar. como construir um lar, como mesmo se mudando a gente leva partes de todos os lares consigo. o processo de reconhecer uma morada, em si, no outro, no espaço e tempo. lindo. quero reler sempre para não esquecer dessas miudezas e para nunca me sentir estrangeira (independente das fronteiras convencionais)
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interessante essa poesia compartilhada por dois autores, diálogo sem compromisso apenas com o fio guia do espaço.
".... fronteiras que me cruzaram minha casa é meu peso minha idade o nome da cidade em que te conheci a roupa que então vestias sim onde moro ainda minha casa é o cão de rua que não é meu, que apenas acontece de estar ali." AMM.
quando a ana martins marques escreveu "entre tantas coisas numa separação é também uma língua que se extingue" e a taylor swift escreveu "you taught me a secret language i can't speak with anyone else"
Queria ficar relendo até decorar todos os versos trocados entre os poetas, até absorver todas as miudezas das entrelinhas, até gravar na minha pele-casa do meu corpo-território todas as emoções que senti lendo esse livro. Há poucos meses fui morar com o meu amor e estamos vivendo esse processo de construir uma casa toda e tão nossa (experiência potencializada pelo isolamento social). Foi impossível não me emocionar... minha casa é meu estar no mundo, é todas as coisas que amei, todos os sentimentos que senti e toda magia que existe no agora.
Gostei muito dos poemas da Ana Martins. Acho que ela conseguiu traduzir bem esse sentimento de mudança de casa e as especificidades de morar em um lugar que não tem mar. Agora os do Eduardo, não me conectei muito. Achava que ele era português até ver, para minha surpresa, que ele é de Fortaleza. Coincidentemente, dois autores de lugares dos quais eu, recentemente, me mudei. Por isso, a experiência deu um toque a mais para a leitura ser cheia de sentido, principalmente as palavras da Ana:
“pensando que não basta se mudar para mudar”
“Este prédio só poderia existir na ausência do mar
Apenas ficar aqui por força ficar aqui até que a palavra morar faça sentido”
Ana Martins é minha poeta preferida e dentre todos os livros dela eu diria que Como se Fosse a Casa está em segundo lugar (logo após o imbatível O Livro das Semelhanças). Poemas leves, reflexivos e também divertidos em troca de cartas de dois amigos sobre o que é o habitar, que é muito mais do que simplesmente ter um endereço.
não sei explicar o quão animada eu fico lendo alguns livros. esse veio em um momento de muita delicadeza emocional, sendo que cada palavra e verso tiveram um sentido diferente do que em qualquer outra época do ano. fico com a angústia e satisfação de ler mais ana mm e feliz de ter um pequeno livro cheio de marcações, sublinhados e anotações queridas.
"(...) minha casa é meu passaporte / minha casa é minha língua / estrangeira / fronteiras que me / cruzaram / minha casa é meu peso / minha idade / o nome da cidade / em que te conheci / a roupa que então vestias..."
“As casas abandonam a si mesmas fogem de si mesmas um dia você retorna e a casa não está lá está apenas seu molde casca ou carcaça sai então à caça da casa em viagem ou fica lá onde já não está”
Tive meu primeiro encontro com a autora quando era calouro, em 2017, na UFMG, universidade na qual ela também se formou. Desde então vinha procurando livros dela e, finalmente, tomei vergonha na cara e comecei a ler.
Bem, posso dizer que estou muito impressionado. Que prosa, que sensibilidade, que maestria na escolha das palavras. Fiquei encantado.
A autora descreve sua vida, em Belo Horizonte, focando na sua estadia no edifício JK, e, através da poesia, busca certo significado do que significa casa para ela. O livro também conta com correspondências a outro poeta, Eduardo Jorge, com o qual há, pelo menos parcialmente, um diálogo.
Ambos são excelentes escritores, e não tenho o que reclamar do livro, o qual é muito bem escrito e bem dividido. Infelizmente é muito curto, mas a qualidade da prosa é altíssima.
Em alguns estados do interior do Brasil, costuma-se chamar uma conversa de prosa. A conversa entre Ana e Eduardo é poesia e das boas. Gosto mais da maneira como se expressa o eu-lírico de Ana, me faz pensar na construção do belo a partir de coisas mínimas, com uma naturalidade de quem já enxerga a poesia antes de escrevê-la. Eduardo, por outro lado, é daqueles que nos colocam diante da tradução do que pensa e a poesia dele acontece depois, não antes. Um livro curtinho e bonito.
Tive que reler o livro pois na primeira vez achei difícil, um pouco elitista talvez? Me peguei o tempo todo esperando pelas páginas brancas, escritas por Ana Martins Marques. O jeito que o texto me transportou para dentro do JK, para as ruas de Belo Horizonte, fizeram esse livro ser tão especial. Poemas sobre aluguel: tudo para mim.
"apenas ficar aqui por força ficar aqui até que a palavra morar faça sentido"
esse livro é puro deleite. o tipo de livro pra sempre ter por perto e ler, reler e ler novamente até que o olhar se encontre com a beleza da poesia dentro do caos do cotidiano.
um livro-casa, um livro-travessia. talvez de uma vida à outra, provavelmente da interiorização das nossas próprias mudanças. Ana e Eduardo, locadora e locatário, em trocas de vivências refletem corpos e almas, vistas e toques, em poemas que tem cheiro, cor, sotaques, carinhos e saudades.