Memórias de Um Sargento de Milícias é talvez das primeiras incursões do malandro e da malandragem (cariocas, naturalmente) na literatura brasileira. Em uma época onde o romantismo e a visão idealizada da nação, tal qual em O Guarani, efervescia, surge uma crônica de costumes satírica.
Diz o prefácio do meu livro, e aí me falta gabarito pra descrer da tese original do cabra, que o livro tem um pano de fundo político muito claro. Publicado em capítulos na Pacotilha, versão bem humorada do Correio Mercantil, o livro seria na realidade uma crítica liberal aos conservadores, expondo a época de Dom João como uma época de figuras toscas e corruptas, como bem exemplificada pelo simpático Leonardo Pataca.
Pataca é um meirinho (oficial de justiça), classe essa que gozava de bastante poder na época. Ele é o pai do protagonista, também Leonardo, e vive se enrolando por amor, sendo inclusive preso na casa duma cigana (rituais eram proibidos na época). Desde tempos imemoriais, as forças policiais do país fiscalizam a fé alheia, cês vejam. Ele acaba expulsando o filho de casa em meio aos seus problemas conjugais (sua mulher trai ele) e Leonardo vai morar com o padrinho, um barbeiro, homem de bem que põe muita fé nele e por acaso desviou uma soma gigantesca de grana pra si. Todo mundo é meio malandro bandido, meio espertinho, e apesar das falas de época, tem um quê de Rio de Janeiro ali já. E o livro é de fato engraçado, coisa que sempre surpreende dada a idade.
Como o livro era publicado semanalmente, os capítulos geralmente acabavam sendo histórias pequenas e isoladas, pra fisgar o leitor mas não afastar completamente quem não acompanhava frequentemente. E nessas historietas se desenvolve uma gama de personagens, a velha rica viciada em processos judiciais, o major Vidigal, temor dos malandros e que literalmente recruta bandidos como punição, e alguns membros próximos à corte. Isso tudo se encaixa, diz a tese supracitada, em um pano de fundo no qual as origens dos vícios da sociedade brasileira vem desde a época de Dom João, e que portanto expõe as teses conservadoras como furadas. É maneirinho, mas não sei se tenho muito mais pra dizer.