Ao terminar esse livro, lembro-me de ter fechado o livro por 5 minutos e olhado para o teto, reflexivo. Pensei: como fazer uma resenha deste romance. Como expressar em palavras a escrita realista de Nelson Rodrigues, ao mesmo tempo em que eu colocava o meu absoluto desgosto por seus personagens. Por favor, gente, o livro não é ruim. O autor não escreve um romance para que você goste dos personagens. Suas histórias servem para mostrar o lado obscuro do homem, aquele que não revelamos abertamente. Não é para você gostar do romance; é para você refletir sobre ele. E aí vem o meu dilema: eu não gostei de O Casamento. Não porque seja um romance ruim, mas porque ele faz com que você olhe para dentro de si e se veja frente a frente com o que temos de mais abjeto.
Todos os personagens são desagradáveis. Não tem um ali que você possa elogiar por algum motivo. E eu acho que essa virada na forma de construir os personagens é o que faz o autor tão interessante. A história começa de uma maneira normal, apresentando o cotidiano de Sabino. Vemos que ele é um burguês típico, que pisa em seus funcionários. Mas, até mais ou menos o final do primeiro terço da obra, ele não tem grandes problemas. Mas, a partir de seu contato com Noêmia é que vemos o início da degradação. E acho que é isso que O Casamento se destaca: pouco a pouco ele vai enfiando o leitor na lama. Começa devagar e vamos nos afogando no que há de pior no ser humano pouco a pouco. No final, eu me senti desesperado para sair daquilo, para encontrar terra firme, mas o autor pegava a minha cabeça e enfiava mais fundo. Acho que o golpe final foi a conversa de Glorinha com sua mãe, Eudóxia comentando sobre o passeio com o pai no Vidigal. Ah, sim... o momento entre Xavier e Noêmia logo em seguida também foi um baque violento. E a maneira como aconteceu.
Só que eu achei que o autor exagera um pouco nesse ponto. Para criar o efeito da reflexão no leitor, os personagens são muito over the top. Eles não possuem características positivas (pelo menos não algo que salte aos olhos) e suas características negativas são muito altas. Incomoda... Provavelmente é o estilo do autor, algo proposital para causar o choque. Entretanto, isso tira um pouco da verossimilhança. Mesmo com todos os nossos defeitos, não somos tão abjetos assim. Porque não existe a possibilidade da redenção na obra do autor. Quando chegamos ao final, não há um final positivo. O momento em que Sabino entra no Instituto Médico Legal é aquele final que o leitor dá aquele sorrisinho maroto meio de lado. Ele não se redimiu daquilo que aconteceu ao longo da trama. E nem foi punido por tal. O encerramento é uma fuga, se formos analisar a partir de um aspecto psicológico.
Nelson Rodrigues não se preocupa em construir uma ambientação muito específica. Eu gostei da naturalidade dos ambientes: o escritório, a casa, a igreja, o quartinho. O que eu achei um pouco complicado foram as localidades que o autor emprega. Eu já morei no Rio de Janeiro e sei onde é a Haddock Lobo, a rua dos Jangadeiros, a Rua Viveiros de Castro. Eu sei porque conheço os locais. Mas, para alguém que nunca morou no RJ, são lugares indiferentes. Pelo que eu entendi, Nelson Rodrigues queria que o leitor visualizasse os lugares tentando captar a dicotomia entre um lugar abastado e outro decadente. Por exemplo, a rua Haddock Lobo é um lugar central que fica logo abaixo do viaduto Paulo de Frontin. Normalmente tem uma série de prédios antigos onde ficam escritórios e pequenos quartos e quitinetes. Quando Sabino leva Noêmia até esse quarto, o autor localiza para fornecer a impressão de utilitarismo que o protagonista quer com a personagem. Ou seja, o lugar é um antro onde o protagonista leva mulheres para transar. A decadência da localização aliado ao uso do lugar. Eu retirei isso da cena porque eu conhecia o lugar. Um leitor de outro Estado não terá essa impressão. Se eu posso usar alguma expressão, é um "regionalismo" voltado para o cotidiano do carioca.
Alguns leitores podem ficar um pouco incomodados com o excesso de diálogos na obra. A leitura fica até rápida devido às conversas que os personagens fazem. Tem capítulos que são formados quase que inteiramente com travessões. O que o leitor precisa ficar atento é que Nelson Rodrigues escreveu inúmeras peças de teatro e para a TV. Portanto, muito da linguagem empregada pelo autor em seus livros é derivado desse contato com outras mídias. Quase tudo que o autor produziu foi transportado para o teatro e para a TV. Portanto, seus livros são quase como roteiros dessas mídias. Até os momentos em que ele faz alguma descrição é como se ele imaginasse a posição da câmera e a disposição dos personagens no cenário. Dessa forma, a sua escrita condiz com a ocupação do autor.
Recomendo o livro com reservas. Acho que o leitor precisa estar no humor ideal para lê-lo. É um livro complicado de ler por conta das ações de seus personagens. Toca fundo em nossos corações e pode te deixar um pouco revoltado com o que ocorre na trama. Mas, ao mesmo tempo, é um mergulho na hipocrisia que é a bela e linda família burguesa. Aquela família de comercial de Doriana.