O Partido com Paredes de Vidro , livro publicado em 1985 pelo histórico líder comunista e então secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, funciona como um guia de apresentação do Partido Comunista Português àqueles que, de fora, o querem entender; e, simultaneamente, como uma declaração de interesses, objectivos, prioridades e conduta moral, ideológica e política dos comunistas portugueses militantes no PCP.
Neste livro, escrito e editado 11 anos depois da Revolução, numa época caracterizada pelo esmorecimento da chama transformadora de Abril e de uma certa recuperação reaccionária, saudosista e monopolista, explicada pelos recuos nas conquistas de Abril possibilitados pelas revisões constitucionais e por uma progressiva desvalorização do projecto ideológico vertido no programa do MFA - projecto de construção do socialismo, Cunhal reafirma a natureza de classe do PCP, a sua profunda identificação com a causa operária e os seus princípios proletários, antimonopolistas e de redistribuição da riqueza e dos meios de produção. Afasta, assim, aquilo que define como "um desvio social-democrata e reformista" perigoso aos partidos de esquerda, operários, socialistas ou comunistas. A ligação com as massas, a participação nos sindicatos e nas organizações de trabalhadores e a orientação da classe operária na persecução das suas mais profundas aspirações afirmam, desta forma, o PCP como a vanguarda da luta operária e socialista.
Quando, nas concepções, na relação com a classe operária e as massas, na ideologia, um partido se afasta da sua natureza e independência de classe, entra num caminho que o leva ao abandono dos objectivos característicos da sua identidade e à conversão num defensor de uma política reformista e de uma ideologia social-democrata ou social-democratizante.
O histórico dirigente comunista, eleito na clandestinidade e mantido preso durante mais de uma década pelo regime fascista do Estado Novo, faz, também, uma análise muito lúcida e justa daquilo que foi a defesa intransigente e heróica da paz e independência dos povos africanos, da liquidação irrevogável do fascismo, da resistência inabalável aos ataques contra-revolucionários no pós-25 de Abril e na representação e mobilização das classes exploradas e oprimidas por parte do PCP.
Mas há muito mais nestas páginas: a recusa firme do culto de personalidade, que Cunhal considera um perigo com prejuízos incalculáveis; o discurso que serve para afastar dogmas de actuação e doutrinas de comportamento por parte do Partido; a negação da sujeição ortodoxa às directrizes da Internacional Comunista, que o Partido abandonou mesmo antes da sua dissolução; a questão do trabalho colectivo e da democracia interna, questão que é cara a Cunhal; a importância da disciplina e da unidade - nunca no sentido militarista do termo - para cumprir os objectivos políticos do Partido; a necessidade de tomar referências políticas não como deuses mas como mestres; a rejeição do conflito de gerações no Partido; a dedicação e militância profunda dos comunistas, a par de uma simultânea rejeição do sacrifício pessoal como regra; entre muitas outras discussões levantadas.
A prática do elogio, da lisonja, do aplauso sistemático e quase obrigatório converte-se facilmente num processo perigoso na vida interna do Partido.
Mal vão as coisas quando o nome do mais responsável não pode ser pronunciado sem que uma salva de palmas o acolha.
Concordo com muito, não concordo com tudo. Duvido da importância sacramental dada à disciplina, por muito não-militarista que seja, ou da afirmação de que "Marx e Lénin são objectivamente inseparáveis [...], é impossível ser-se marxista e não se ser leninista." Ainda assim, admiro o percurso ímpar do PCP na resistência antifascista, na consolidação da Revolução e na defesa intransigente das conquistas de Abril, algumas desvirtuadas e abandonadas pelas políticas de direita. Sou admirador, também, da figura de Álvaro Cunhal, rebelde disciplinado, dor de cabeça maior para o regime que contrariou.
Enquanto o capitalismo, o imperialismo, o chauvinismo, o colonialismo, o neocolonialismo, o racismo, se traduzem no plano moral por conceitos e sentimentos de egoísmo, rapacidade, domínio ilegítimo, desprezo pelos outros seres — a causa operária inspira conceitos e sentimentos de generosidade, de fraternidade, de solidariedade, de amor pelo ser humano.
O ideal político comunista é inspirador de uma moral superior. A prática revolucionária dos comunistas é uma escola de elevada educação moral e de formação do carácter.