Fazendo uso de variados recursos: uma rica visão poética emotiva e a tematização sentimental, social, familiar e religiosa; com coragem, experiência, estilo bem definido e uso de intertextualidades, são enunciadas pela autora a pobreza, a fome, a dor e “a enganosa-esperança de laçar o tempo”; assim como há espaço para a paixão, o amor e o desejo. Nada, porém, é superficial, gratuito ou excessivo em Poemas da recordação e outros movimentos, que se sustenta em crítica social e no profundo de cada experiência, a partir da produção de um conjunto de poesias fortes e criativas, de belo senso rítmico, cuja leitura desperta emoções, graças à empatia que se estabelece entre os que leem os poemas e a expressividade emotiva e literária de Conceição Evaristo, quando faz despontar os “mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”.
Conceição Evaristo was born in a slum in the south of Belo Horizonte, Minas Gerais / Brazil. She had to reconcile her studies with work as a domestic worker, until she completed her first years of study in 1971, at the age of 25. She then moved to Rio de Janeiro, where she passed a public competition for teaching and graduated in Letters at UFRJ.
In the 1980s, she contacted Grupo Quilombhoje. She debuted in literature in 1990, with works published in the series Cadernos Negros, published by the organization.
She holds a Master's degree in Brazilian Literature from PUC-Rio, and a PhD in Comparative Literature from Universidade Federal Fluminense (UFF).
Her works, in particular the 2003 novel Ponciá Vicêncio, address themes such as racial, gender and class discrimination. The work was translated into English and published in the United States in 2007. She currently teaches at UFMG as a visiting professor.
É a primeira vez que leio os poemas da Conceição Evaristo, não vou cair na besteira de dizer que me surpreendeu porque a prosa dela sempre foi suficientemente poética para não saber que a poesia corria em suas veias. Poemas da recordação era exatamente o que eu precisava ler hoje, pura potência, pura resiliência, só reiterando o fato de Conceição ser minha escritora brasileira viva preferida.
Cheguei a escritora brasileira Conceição Evaristo através de amigas feministas, e preciso agradecer a indicação. Tenho por hábito marcar as páginas de livros de poesias quando vejo um poema particularmente bonito ou que me toque. Minha estante de livros de poesia é bastante colorida por causa disso, inclusive, utilizo a quantidade de marcadores para ver o quanto gostei do livro.
Poemas da Recordação não tem um único marcador. Porque não fazia sentido marcar todas as páginas, seria ridículo e um desperdício de material.
É extremamente raro encontrar um livro de poesia que você pode abrir totalmente a vontade e de forma aleatória e garantir que você vai encontrar uma boa poesia. Conceição Evaristo conseguiu essa façanha aqui. E ainda por cima tratando de temas complicados, como a pobreza, o preconceito e o machismo.
Fiquei tão abobalhada com o seu trabalho que mesmo antes de terminar o livro comecei a catar outros volumes da autora. Aguardem muitos livros dessa mineira, mulher, negra e poetiza espetacular.
Conceição é incrível demais! Esse é o primeiro livro de poemas que leio dela (antes, foram só Olhos d'Água e Ponciá Vincencio) e me emocionei demais com cada palavra posta aqui. A cada folha é abordado uma nova perspectiva, é muito mais do que uma escrivivencia de uma mulher ou de uma pessoa negra ou de uma filha ou de uma esposa ou de uma mãe ou de uma leitora. Queria tanto que ela fosse mais lida! <3
"Em meio ao medo instalado e à necessária coragem, ensaiamos movimentos ancorados na recordação das proezas antigas de quem nos trouxe até aqui. E apesar das acontecências do banzo, seguimos. Nossos passos vêm de longe... Sonhamos para além das cercas. O nosso campo para semear é vasto e nínguem, além de nós próprios, sabe que também inventamos a nossa Terra Prometida. É lá que realizamos a nossa semeadura. Em nossos acidentados campos - sabemos pisar sobre as planícies e sobre as colinas - a cada instante os nossos antepassados nos vigiam e com eles aprendemos a atravessar os caminhos das pedras e das flores. É deles também o ensinamento de que as motivações das flores são muitas. Elas cabem no quarto da parturiente, assim como podem ser oferendas para quem cumpriu a derradeira viagem..." p. 111
Conceição Evaristo não cabe em fórmula. Para descrevê-la, é necessário adentrar o processo de escrita da autora.
A primeira técnica marcante na leitura foi a composição de palavras com substantivos, quase neologismos compostos. Parece que a segunda palavra é um recorte da primeira, delimitação, pareceria que a segunda caracteriza a primeira, mas para isso o hífen não seria necessário. O que significa, então? Acontece (ou deve acontecer) uma metamorfose ou um surrealismo, porque as palavras formam encontros insolitamente realistas, como em "A menina e a pipa-borboleta". Esses encontros plasmam a associação em um momento de revelação.
Por composição de palavras quero dizer o mesmo que a música traz de possibilidade para as notas, suas unidades mínimas: as palavras compostas são mais do que um grau combinatório, criando harmonias específicas.
Repito que além das imagens é o processo que prevalece como objeto da autora. A princípio, os poemas ressoam autodescrição. Com alguns mais lidos, é possível perceber, junto com a percepção do eu lírico, que é uma narrativa coletiva na qual o "nós" pode ser simultaneamente interno e externo. Quer dizer, não é eu e o outro, é Estes para o leitor, que é então colocado de frente ao descrito. A participação é voluntária.
A lembrança do rudimentar se mistura com a presença dos arcaísmos nos dias de hoje. Apesar da saudade da recordação, as estruturas opressoras não são só reminiscências. Isso dialoga com temas e intertextualidades com Drummond, Clarice Lispector, Adélia Prado, por exemplo, porém de uma perspectiva nova, a do outro.
Talvez eu sinta falta de uma progressão ou talvez eu sinta falta disso porque justamente não é o que ocorre na realidade. Na recordação, sofrimento e resiliência. Para o futuro, esperança. Porém, para mim, no presente, resta ainda um luto ou algo pelo que lutar.
O triste é que a editora Malê não fez jus à obra, seja pelos erros de digitação, que interferem na leitura não por afetar o sentido, mas pela impressão de descuido que passam, seja pela desorganização visual da capa. O papel e a escolha da fonte tipográfica talvez sejam passáveis, mas acho quase imperdoável tratar a obra desta forma.
Conceição Evaristo é o grande nome da literatura brasileira contemporânea pelo impacto que a sua escrita teve, nas últimas duas décadas, na reconfiguração do sistema literário em termos de temáticas, linguagens e, inclusive, na definição de quem possui a legitimidade da escrita (historicamente cooptada apenas pelas classes médias brancas e urbanas) e de quais os critérios de centralidade.
A poesia de Evaristo compartilha o mesmo mundo estético que a sua prosa. Se nos seus romances e contos a escrita destaca-se pela dimensão poética, os Poemas da recordação desenvolvem plenamente a linguagem simbólica e metafórica que se adivinha naqueles. Estruturado por temáticas, o volume aborda questões como: a memória, que pode ser da infância ou da ancestralidade, mas sempre fixada na ideia de coletivo e comunidade; o amor como abrigo e descanso; a sexualidade como conhecimento e conexão; a evocação de figuras anônimas e cotidianas ao lado dos grandes nomes do pensamento negro, de forma a compor uma densa teia de referências culturais, espirituais, históricas e intelectuais, e a denúncia das macelas históricas da sociedad brasileira, fundamente arraigadas no seu pecado fundacional, a escravidão, e as suas consequências.
“e em meio às lacrimejantes cebolas misturadas às dores apimentadas nos olhos do mundo, Raimunda entre vassouras, rodos, panelas e pó desinventava de si as dores inventadas pelo poeta.”
Se me permite, Conceição sua escrevivência inspirou a minha e escrevi isso:
“Descobri, dentro de mim Palavras-tijolos, constroem mundos inteiros Edifícios de imaginação E sustentam não somente minha devoção à inspiração Mas os próprias fundamentos A base, os pilares De quem eu sou.”
Gostei desses poemas que criam atmosferas tão interessantes para contar uma história ancestral e, ao mesmo tempo, de todos os tempos. Homenageia poetas, vale-se bastante da repetição de versos, cria palavras compostas. Evaristo possui muitos poemas aqui que superam Vozes-mulheres.
Em Poemas de recordação e outros movimentos, a Conceição Evaristo nos traz uma poesia cheia de memória, ancestralidade, luta e vontade de resistir. Os poemas trazem excelentes metonímias e metáforas a respeito das lutas do povo negro, das histórias que nos foram relegadas, dos silêncios. Impossível não se encantar e sentir o pulsar dessa necessidade de existência que resiste. Incrível.
Primeiro contanto com a poesia e a obra de Conceição Evaristo, gostei bastante de como os poemas possuem um aspecto "real", não que outras poesias não tratem da realidade, mas sinto que Conceição Evaristo consegue atingir outro nível dentro dessa a proposta. Parecido com a poesia de João Cabral a linguagem de sua poesia é bastante direta, só um pouco empolada em alguns sentidos, ela usa palavras bem difíceis e com significados complexos, ao mesmo tempo que tenta ser uma poesia popular tratando de dramas sociais vividos pelos negros, mulheres e a população periférica na nossa sociedade, tornando uma poesia muito social e rigorosa. A autora consegue se comunicar muito bem com cultura negra e periférica, acredito que ela é uma das maiores vozes dessa expressão popular na nossa literatura. Meus poemas favoritos são o da ultima parte do livro em que ela parece tratar bastante sobre "o medo", também nessa ultima parte, ela genialmente faz poemas aproximando Clarice Lispector a Carolina Maria de Jesus, sinto que essa sequencia consegue tratar as diferentes e profundas realidades vividas pelas duas escritoras, as aproximando de uma maneira fantásticas. Porem os poemas que eu menos gostei foi relacionado ao corpo e ao sexo, esses eu realmente não consegui entender ou absorver muita coisa, mas acredito que eles sejam destinados a um publico feminino, que possui um outro entendimento sobre o próprio corpo do que eu como um homem.
Muito bom ler Conceição Evaristo em um gênero textual diferente. Na poesia, a experiência de ler Conceição não fica diferente da prosa. Trata dos invisibilizados, da marginalidade, da sensibilidade de mulheres negras e da valorização da negritude. Entretanto, adquire uma nova camada de profundidade pela própria linguagem poética, que se torna o texto mais rico sem perder a simplicidade típica da escrita da autora. Gostei principalmente da intertextualidade feita entre as vidas e obras de Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus nos poemas "Carolina na hora da estrela" e "Clarice no quarto de despejo".
Lido para o Leia Mulheres de fevereiro. Encontro sempre cheio de troca. Palavras trazidas pelo mar, ideias construindo pontes.
"À ave serena não é permitido cultivar o engano, ela sabe que o amor - dom maior da serenidade e do desespero - se realiza ou se anula por um triz."
"se à noite fizer sol, vou me lançar na finitude do momento adentro e me esconder de mim e me esconder de ti só para concentrar na lembrança o teu corpo, templo novo, pois morrerei após o sol se pôr."
A leitura desse livro foi permeada pela vontade de ler com espaço, lento, pensado e a fúria de sorver palavra, sentimento em um respiro. Ia adiante querendo parar para melhor reter; parava, querendo seguir, com necessidade de mais descoberta. De descoberta do que já sabia pelo sentimento, mas que precisava palavra. Obrigada, Conceição Evaristo!
Comovente, mas por momentos repetitivo; sonoro e cheio de jogos de palavras, mas por momentos cacofónico. Meus poemas favoritos foram "Na esperança, o homem" (55), "De mãe" (79), e "Da calma e do silêncio" (121).
“Se à noite fizer sol, Vou me lançar na finitude Do momento adentro E me esconder de mim E me esconder de ti Só para concentrar na lembrança O teu corpo, templo novo, Pois morrerei após o sol se pôr”
É sempre um prazer ler o que se passa na cabeça da minha estimada conterranea: Conceição Evaristo. Eu poderia me sentar a sua frente e ouvi-la descrever com essas palavras tão doces e profundas todo o conhecimento do mundo que eu ainda não tenho.
Preciso dele fisico, sendo também mulher, negra e mineira; foi como ouvir (ouvi pela audible) poemas da minha própria historia e da minha família. Uma preciosidade.
não é sempre tudo, mas não há de se nadificar pelo seu desafio aos organizadores dos sons disrítmicos do mundo. é sobre silêncio mordido e sinas amargas ou docemente raras.