Melhores trechos: "...O deserto é um lugar que transforma tudo e todos, quer estejamos ou não cientes disso. Para muitos, constituise em uma oportunidade de recomeçar, pois nele seu passado conta pouco. Suas competências, seu poder, sua influência, ou mesmo suas mágoas, traumas e receios, nada disso tem lugar ou importância no deserto. O que conta são as escolhas que você faz dentro dessa experiência e como elas vão impactar seu futuro... O deserto revela-se como o símbolo de uma obliquidade transcendente, ou seja, que não possui paralelo de comparação, já que ele é lugar de se perder e de se achar, de estar só e não se sentir só. Da falta para o encontro, da essência e do silêncio para ouvir o ensurdecedor barulho de nossas inquietações. A experiência do vazio provocada pelo deserto por fim é compreendida como essencial e necessária, que alcança, indistintamente, todos que estão passando por profundas transformações espirituais, sempre a nos arremessar numa completa sensação de falta; um buraco que denuncia que necessitamos de algo mais... O deserto nos chama para abraçar o vazio como um modo de aprofundar nossa vida espiritual... No deserto, até Deus parece ausente, sem nos responder às inúmeras súplicas, aos gritos de desalento. Desse modo, num primeiro momento, sentimo-nos sós e vulneráveis. Tão visceralmente desprotegidos que parecemos ter como companhia apenas o medo e a desesperança sem fim... Onde há amor não cabem julgamentos nem culpa... O deserto nos acorda para, em total entrega no encontro com Deus, sermos preenchidos de contentamento. Aprender a ter contentamento é um processo que nos leva à compreensão de que tudo, das mínimas coisas aos grandes projetos, tem a tutela de Deus, nosso Pai cuidadoso, que usa todas as circunstâncias para nos fazer crescer e confiar Nele. Precisamos buscar primeiramente 'o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas nos serão acrescentadas' (Mateus 6:33). Todas essas coisas não se referem apenas ao que se há de comer, beber ou vestir, mas vai além, pois 'sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus'(Romanos 8:28). Mas faz-se mister realçar que Deus promete suprir nossas necessidades, não nossa ganância ou caprichos. Fica explícito o equilíbrio entre aquilo que nos compete e o que compete a Deus. Muitas pessoas dão prioridade a uma falsa ideia de poder pessoal pelo qual acreditam alcançar qualquer coisa, acreditando mais nas capacidades humanas, o que gera muita decepção pessoal e também para com os outros, já que as forças que provêm de nós ou de nossos amigos são limitadas. Por isso devemos nos projetar e esperar sinceramente, sem medo de decepções, 'Naquele que nos fortalece'... É preciso admitir a tristeza e a frustração porque as coisas não saíram conforme gostaríamos. A vida não aconteceu como projetamos. As pessoas não se comportaram como esperávamos, o que nos irrita e entristece. Não somos o que gostaríamos de ser. Mas, mesmo assim, podemos nos alegrar por saber que há um propósito muito maior do que nossa aspiração. Há um projeto de Deus para nossas vidas, muito além do que temos como expectativa... É preciso dar as costas e caminhar para uma estrada que, ao findar, vai dar em nada, absolutamente nada do que julgávamos encontrar . Quando os nossos projetos não representam os projetos que Deus nos reservou, Ele nos leva de volta a um caminho no qual nossos projetos possam finalmente coincidir com os Dele... Só seremos felizes no deserto se admitirmos que a nossa expectativa infantil é uma, enquanto a perspectiva de Deus é outra. Nossa paz começa a acontecer quando, no deserto, aceitarmos abdicar daquilo que esperávamos encontrar, permitindo-nos encontrar Deus, num harmonioso alinhamento com o projeto que Ele tem para a nossa vida..."