o martelo is a book about violence and female sexuality, narrated by a nameless female voice, with an antagonist (the prince) and a ambivalent hero (Humboldt). The book is thus divided in two parts – in the first one, the nameless woman describes her post-rape experience within public institutions and bureaucratic instances; in the second part, she describes her experience as both married and adulterous woman, making questionable, suspicious parallels between husband and lover, and between rape and consensual sex. The division of the book is inspired by Constantine the Great, the first Christian Roman emperor, who created a law establishing that rape and adultery were similar crimes, committed only by the woman, for her being unable to take care of her husband’s property (i.e. her body).
o martelo was first published in Lisbon, in February 2016, by douda correria, with 28 poems and illustrations by xuehka. The second edition was published in Rio de Janeiro by edições garupa, in January 2017 (134 days after the coup in Brazil), with 29 poems and postface by journalist and activist Carol Almeida.
Adelaide Ivánova (Recife, 1982)é poeta e fotógrafa brasileira, lançou os livros Autotomia (Pingado-prés, fotos) e Polaróides (e negativos das mesmas imagens) (Cesárea, 2014, poemas e crônicas), Erste Lektionen in Hydrologie (und andere Bemerkungen) (edição da autora, 2014, fotos) e O martelo (Douda correria, 2016, poemas). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais. Adelaide Ivánova vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. Há ainda mais material que vale a pena conferir no site https://adelaideivanova.com.[escamandro]
corpo de delito é a expressão usada para os casos de infração em que há no local marcas do evento infracional fazendo do corpo um lugar e de delito um adjetivo o exame consiste em ver e ser visto (festas também consistem disso)
deitada numa maca com quatro médicos ao meu redor conversando ao mesmo tempo sobre mucosas a greve a falta de copos descartáveis e decidindo diante de minhas pernas abertas se depois do expediente iam todos pro bar o doutor do instituto de medicina legal escreveu seu laudo sem olhar pra minha cara e falando no celular
eu e o doutor temos um corpo e pelo menos outra coisa em comum: adoramos telefonar e ir pro bar o doutor é uma pessoa lida com mortos e mulheres vivas (que ele chama de peças) com coisas.
A edição brasileira de O Martelo tem a capa coberta por um pigmento vermelho que suja superfícies, dedos e roupas enquanto se lê. Nada supérfluo, esse detalhe específico transforma o livro de Adelaide Ivánova numa outra coisa. De uma coletânea de poemas ele se transfigura em peça de performance, de objeto livro para objeto vivo, e com uma coisa de fato viva em mãos o leitor não mais está em segurança. O sangue que jorra das páginas encharca a capa e cai em suas mãos como que num lembrete: ficção nunca é só ficção, a poesia é sempre verdade, não importa se mente. Como dizia antes, encontrar O Martelo foi como reabrir as comportas de um debate pessoal proporcionado por aquelas leituras e estagnado há muitos meses, mas para além das questões identitárias e estéticas, rendeu certa reflexão no que diz respeito à poesia, ao poema em si. Contemporâneas que são, Adelaide está muito bastante alinhada com a urgência de Angélica, mas trabalha numa frente distinta, onde a violência se entremeia a um caráter quase onírico, fabular. Em comum, a violência, no dissenso, a voz e a energia.
Advertidamente gestado a partir do hábito da autora de dormir com um martelo embaixo de seu travesseiro, a poesia aqui é sortilégio e epitáfio, um estado perpétuo de estagnação entre a entrega e o alerta. O desejo nutrido pelo misterioso Humboldt está inevitavelmente atrelado ao trauma do estupro, ao abismo revelador de tudo aquilo que se deixa abraçar pela ideia de ‘erótico’, por uma kafkiana noção de autoridade -que se revela em momentos especialmente cruéis, como aqueles em que o médico trata vítimas como ‘peças’. Se trata de uma progressão muito bem particionada que observa o traumático e o lascivo em seus lugares cabíveis, mas que também deixa espaço para investigar arestas mal polidas, a negação da dor, a negação da paixão, a aceitação de ambos como uma voz repleta de ecos, como no fantástico “a moral”, onde a poesia de amor é comicamente destroçada frente à acepção de uma realidade que nunca propôs se esconder: “… achei / que depois / de cruzar / todos os / sinais fechados / ao seu / lado arriscando / minha vida / teria o direito de chupar seu pau até amanhecer mas / a única / coisa sua / que comi / foi uma / mozartkugel nojenta / com recheio / de marzipã”.
O Martelo observa com atenção um processo de reestruturação. Existe uma vida que pulsa fraca frente a descrença perpetrada pelo violento do mundo, mas que se agarra aqui e ali a parâmetros conhecidos e coerentes, o que por fim terá rendido não apenas um grande e denso processo de observação do entorno, da arena metafórica em que a personagem se vê forçada a lutar, mas também a realização do eu, do poder que emana deste eu; tanto na aceitação das marcas irreparáveis infligidas a ele e que agora fazem parte deste todo, como na consciência de um poder de luta, de defesa. Como na epígrafe de Paul Celan, que a autora escolheu para abrir suas páginas “O tempo, de fina areia, canta em meus braços:/me aconchego nele, faca na mão”.
Adelaide consegue fazer poesia sobre violência sexual, com burocratas que questionam mulheres, perdas e retomadas de amor e sexo. E suas palavras energizam.
Eu queria ter tido a experiência do livro físico (lerei na casa de Seane na próxima visita). O ruim de tentar registrar impressões após algumas semanas é que não lembro muito (talvez pesquisando nas mensagens trocadas com Seane), mas mexeu numa região muito próxima de Um útero é do tamanho de um punho. Um dia releio pra recuperar essas impressões.
Do título ao conteúdo: Adelaide é, certamente, uma das autoras mais geniais que li ao longo dos últimos anos. Ao tratar sobre temas como estupro, patriarcado e Amor, o som do martelo de Adelaide é ensurdecedor e arrebatador.
"a escrivã é uma pessoa e está curiosa como são curiosas as pessoas pergunta-me por que bebi tanto não respondi mas sei que a gente bebe pra morrer sem ter que morrer muito pergunta-me por que não gritei já que não estava amordaçada não respondi mas sei que já se nasce com a mordaça"
This is some of the most interesting poetry i’ve read in a minute. I instantly reread it not because i “loved” it but bc i needed to excavate more and more, its so sharp and deceptively simple. I didn’t like the collection first time around, but its cause I went too fast.
One politically flimsy poem about burqas gave me second hand embarrassment and rlly took me out of the collection. Its centering of judicial processes also is a bit corny but the “centering” is morbid and critical and unstable.
"no porão tinha uma mala dentro dela josefine que aí se escondia com a ajuda da mãe para que não fosse estuprada afinal só se estupra alguém que se acha o destino da mãe não se sabe mas josefine está bem obrigada aos 11 anos comeu banana pela primeira vez oferecimento do oficial francês que também dava aborto às alemãs que não tinham martelos ou malas."
“a escrivã é uma pessoa e está curiosa como são curiosas as pessoas pergunta-me por que bebi tanto não respondi mas sei que a gente bebe pra morrer sem ter que morrer muito pergunta-me por que não gritei já que não estava amordaçada não respondi mas sei que já se nasce com a mordaça”
Eu definitivamente preciso ler mais poesia. O Martelo me impactou e me fez sangrar (como meu amigo falou que provavelmente faria, na dedicatória que escreveu quando me deu o livro).