Esta é a história fantástica de um rapaz togolês que, aos 16 anos, foge de casa com a ideia fixa de conhecer a Gronelândia, depois de ter lido sobre esta região e sobre os seus habitantes num livro. Após oito anos passados entre a África e a Europa, chega, finalmente, ao seu destino. Não é ficção, mas sim um livro de memórias, e que memórias!
Gostei da forma como Tété-Michel vai narrando tudo o que vive, as comparações que faz com a realidade do seu país, e o esforço para compreender uma cultura tão diferente da sua.
“Na quinta-feira, 13 de Janeiro, por volta da uma da tarde, os habitantes trepam a uma montanha atrás da aldeia para assistir, dizem, à primeira aparição do sol.
(…)
Este ‘regresso do sol’, que me parece puramente imaginário, deu lugar, nessa noite, à mais curiosa das festas: os adultos organizam no salão recreativo, só para os homens e as respetivas esposas, um baile onde os jovens não têm entrada.
(…)
Depois da meia-noite, no meio do burburinho e das canções, as pessoas, alagadas em suor, dão início à troca de mulheres. Já li que os participantes, durante estas trocas em público, recorrem ao que se designava por “extinção das luzes”, mas esta noite isso não acontece. Vê-se apenas um homem levantar-se e ir sentar-se ao pé de outro casal. Fala durante alguns instantes e depois sai, muito simplesmente, com a companheira do outro. Por vezes isso acontece quando o outro está a dançar. O marido que assim é privado da mulher deita uma olhadela para a assistência, escolhe outra mulher, sentada ou não ao pé do marido, e vai sentar-se junto dela. Pouco depois dirige-se por sua vez para a saída, com uma mulher que não é a sua. Embora os maridos que assim se livram das companheiras dêem a impressão de não estar muito aborrecidos por isso, a maior parte das mulheres, se as observarmos bem, dão a sensação de concordar relativamente. No entanto, parecem, do mesmo modo que as co-esposas no meu país, resignar-se a uma tradição milenar.
(…)
A troca de mulheres (…) só é feita entre amigos, obedece a regras precisas e liga os dois homens por um laço indissolúvel. Se essa prática lhes traz um prazer novo, também comporta deveres imperiosos, e não tem nada a ver com a partilha efémera que os jovens não casados fazem das namoradas. À família de Jorgensen, assim como à de Hans, nunca faltará comida se um deles voltar da caça de mãos a abanar ou se adoecer, desde que o outro mate uma foca.”
“(…) não há palavras para qualificar a grande liberdade das crianças desta terra. São elas, mais do que os adultos, as primeiras a adotar o estrangeiro. O maior mérito deste povo é, pois, aceitar sempre, e seguir, em todas as circunstâncias em que a intuição leva a palma à razão, a inclinação natural das crianças.”
“(…) durante a noite, um jovem gronelandês foi morto a tiro de espingarda por um jovem dinamarquês, noivo de uma encantadora rapariga de Ammassalik (…), que teria sido a causa deste trágico acidente. Ao saber da morte do seu compatriota, os gronelandeses não manifestaram qualquer violência em relação aos dinamarqueses. Nem sequer um protesto. Mas não é o silêncio, por vezes, isso mesmo? Esta morte, na opinião geral, deveu-se à embriaguez. Mas nas casas gronelandesas, os pareceres dividem-se: alguns, essencialmente os jovens, acreditam que o dinamarquês matou friamente um dos seus, sem, no entanto, gritarem por vingança; outros, os adultos e sobretudo os velhos, não imputam este crime ao estado de embriaguez avançada do jovem dinamarquês, nem ao ciúme, mas, curiosamente, “ao regresso do sol, que, devido à sua aparição súbita e resplendente após meses de escuro, pode provocar nos estrangeiros um estado de euforia, de efervescência, em suma, uma falta de controlo”. Por conseguinte, o rapaz dinamarquês não é responsável pelo seu ato, na opinião desses velhos, que acrescentam mesmo que ele devia ser libertado, para que possa, pelas boas ações futuras, redimir-se junto da comunidade que privou de um dos seus membros.
Essa explicação da influência do sol nos atos do jovem dinamarquês pode parecer ingénua, mas, se pensarmos nas paixões loucas que uma morte semelhante desencadeou noutros países e particularmente em África, não podemos deixar de apreciar a sabedoria desses velhos gronelandeses que (…) chamam os jovens à tolerância e à não-violência. Que lição!”